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Pediram-me para que me apresentasse, pediram-me para que fosse sincero, pediram-me para expor minhas idéias, pediram-me para externar os sentimentos sufocados. Era uma espécie de confraternização, primeiro dia de trabalho, 11 estagiários juntos. Todos sentados em círculo, todos ansiosos, todos falsamente confiantes. Alguns tentando se sobressair mais que outros, estampando simpatia na cara, forçando um interesse nitidamente maquiado. Alguns tentando disfarçar a timidez exposta nas pernas inquietantes, preocupados se a voz falharia, se a fala seria do agrado de todos.
Como de costume, eu me esforçava para ficar acordado e não conseguia tirar da cabeça o quão inútil era aquilo. Mal é porcamente forçava um sorriso amarelo para que não ficasse tão óbvio minha falta de interesse.
Uma a uma, as pessoas começaram a se apresentar: “oi!!! me chamo (nomes são desnecessários), acredito na paz mundial, quero salvar as baleias, g-zus é tudo na vida, eu amo minha mãe, amo meu pai, amo meus amigos e espero que eu possa aprender muito nesse emprego”. “Olá, eu me chamo (....), gosto de fazer amigos, sou uma pessoa super simpática e comunicativa, adoro animais, faço caridade, vou à igreja todos os domingos e espero corresponder a expectativas de todos”. “Ooieeeee gente, meu nome é (...) eu adoro ler, adoro estudar, estou ansiosa para aprender um monte de coisas legais nesse estágio, adoro bebês focas, eu me preocupo com o aquecimento global e sou a pessoa mais feliz desse mundo porque tenho Deus no coração.”
“Olá, me chamo Lucas, Lucas Campos. Sou fumante e não estou nem ai se o mundo esta derretendo. Metade de mim é puro negativismo, a outra metade é mau-humor. Faço o mal, tenho maldade no coração. Sou cínico, rabugento e morto de preguiça. Acho o Deus de vocês uma piada e tenho asco a toda essa falsidade. Eu não estou aqui para fazer amigos e agradeceria se me deixassem em paz. Por óbvio, não gostaria de estar aqui, vou ganhar uma miséria e trabalhar como um burro de cargas. Não gosto de animais, não sou comunicativo, cheiro à nicotina e para perder a virgindade tive que pagar uma prostituta. No mais, gosto de desenhos animados.”
Pediram-me para que me apresentasse, pediram-me para que fosse sincero, pediram-me para expor minhas idéias, pediram-me para externar os sentimentos sufocados. Só que antes disso me ensinaram a mentir. Ensinaram-me que não é correto ser sincero, ensinara-me que ser diferente é errado, ensinaram-me que por mais honestas fossem minhas palavras eu simplesmente deveria me portar como os outros, agir como os demais. Cortar o cabelo, fazer a barba, porta-me feito homem crescido e estampar um sorriso seboso na cara. Naquela tarde traí meus próprios sentimentos. Se dissesse a verdade seria mandado embora, eu precisava do emprego. Como um robô programado, copiei as palavras da menina ao lado, portei-me como eles, menti para me adequar, exacerbei minha hipocrisia até arrancar aplausos dos demais.
Natureza-morta, janela empoeirada, expresso frio, gostos amargos, sensações de complexidade, fazem parte do meu lirismo, lirismo que é feito de sentimentos e não de “pegação”; minha mania de fechar a porta e não querer receber visitas. Fui incompreensível por falta de testemunhas.
Naquela tarde metade de mim morreu, eu perdi, eles venceram. Eu me rendo.