quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Causa Mortis

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Pediram-me para que me apresentasse, pediram-me para que fosse sincero, pediram-me para expor minhas idéias, pediram-me para externar os sentimentos sufocados. Era uma espécie de confraternização, primeiro dia de trabalho, 11 estagiários juntos. Todos sentados em círculo, todos ansiosos, todos falsamente confiantes. Alguns tentando se sobressair mais que outros, estampando simpatia na cara, forçando um interesse nitidamente maquiado. Alguns tentando disfarçar a timidez exposta nas pernas inquietantes, preocupados se a voz falharia, se a fala seria do agrado de todos.

Como de costume, eu me esforçava para ficar acordado e não conseguia tirar da cabeça o quão inútil era aquilo. Mal é porcamente forçava um sorriso amarelo para que não ficasse tão óbvio minha falta de interesse.

Uma a uma, as pessoas começaram a se apresentar: “oi!!! me chamo (nomes são desnecessários), acredito na paz mundial, quero salvar as baleias, g-zus é tudo na vida, eu amo minha mãe, amo meu pai, amo meus amigos e espero que eu possa aprender muito nesse emprego”. “Olá, eu me chamo (....), gosto de fazer amigos, sou uma pessoa super simpática e comunicativa, adoro animais, faço caridade, vou à igreja todos os domingos e espero corresponder a expectativas de todos”. “Ooieeeee gente, meu nome é (...) eu adoro ler, adoro estudar, estou ansiosa para aprender um monte de coisas legais nesse estágio, adoro bebês focas, eu me preocupo com o aquecimento global e sou a pessoa mais feliz desse mundo porque tenho Deus no coração.”


“Olá, me chamo Lucas, Lucas Campos. Sou fumante e não estou nem ai se o mundo esta derretendo. Metade de mim é puro negativismo, a outra metade é mau-humor. Faço o mal, tenho maldade no coração. Sou cínico, rabugento e morto de preguiça. Acho o Deus de vocês uma piada e tenho asco a toda essa falsidade. Eu não estou aqui para fazer amigos e agradeceria se me deixassem em paz. Por óbvio, não gostaria de estar aqui, vou ganhar uma miséria e trabalhar como um burro de cargas. Não gosto de animais, não sou comunicativo, cheiro à nicotina e para perder a virgindade tive que pagar uma prostituta. No mais, gosto de desenhos animados.”


Pediram-me para que me apresentasse, pediram-me para que fosse sincero, pediram-me para expor minhas idéias, pediram-me para externar os sentimentos sufocados. Só que antes disso me ensinaram a mentir. Ensinaram-me que não é correto ser sincero, ensinara-me que ser diferente é errado, ensinaram-me que por mais honestas fossem minhas palavras eu simplesmente deveria me portar como os outros, agir como os demais. Cortar o cabelo, fazer a barba, porta-me feito homem crescido e estampar um sorriso seboso na cara. Naquela tarde traí meus próprios sentimentos. Se dissesse a verdade seria mandado embora, eu precisava do emprego. Como um robô programado, copiei as palavras da menina ao lado, portei-me como eles, menti para me adequar, exacerbei minha hipocrisia até arrancar aplausos dos demais.


Natureza-morta, janela empoeirada, expresso frio, gostos amargos, sensações de complexidade, fazem parte do meu lirismo, lirismo que é feito de sentimentos e não de “pegação”; minha mania de fechar a porta e não querer receber visitas. Fui incompreensível por falta de testemunhas.


Naquela tarde metade de mim morreu, eu perdi, eles venceram. Eu me rendo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Rádio de Outono

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Hoje descobri uma cicatriz de infância debaixo do queixo. Estava contando os minutos para poder sair do trabalho. Impaciente, entediado e na esperança de morrer antes disso. Passava insistentemente a mão pela barba, quando me dei conta da cicatriz. Achei graça, lembrei de que o amor deixa marcas.


Foi durante meu primeiro encontro. Tinha planejado tudo. Cabelo lambuzado com gel, milimetricamente penteado, camisa social do meu pai, que obviamente ficou como um balão em mim, sapatos limpos, calça xadrez social, perfume e tudo mais que tinha direito. Estava tão feio que hoje em dia chego a sentir dó. Mas o mais importante era que...havia comprado flores. Sem meio de transporte para ir, a única opção era recorrer a minha velha bicicleta vermelha. – O que; parando para pensar, tornava a cena mais ridícula ainda -

No caminho, olhei para o relógio e me dei conta que talvez não chegaria no horário. De maneira alguma poderia me atrasar para aquilo, pelos Deuses, era meu primeiro encontro. Acelerei o ritmo de forma desesperadora. Descendo feito um louco as ladeiras da cidade, desviando de carros, pedestres, postes; adrenalina total. Tudo corria bem, até que despenquei para dentro de um bueiro aberto pela prefeitura.

O acidente não foi grave, eu diria que foi até cômico se minha bicicleta não tivesse virado um “8”. Alguns arranhões, um corte debaixo do queixo, alguns hematomas, as flores despedaçadas, um rasgo gigante na camisa e um sapato perdido. O fato de estar atrasado me impediu de chorar. Larguei a bicicleta, ou o que restou dela, para trás e saí correndo. No meio do caminho fui cessando a correria. Como ir a um encontro descabelado, sem um sapato, com roupas rasgadas, fedendo a esgoto e com flores decapitadas? Dei meia volta e retornei para casa arrastando a bicicleta, as flores, deixei pelo caminho.

No dia seguinte quando ela me cobrou explicações do “por quê” de não ter aparecido, resolvi dizer que havia desistido de toda aquela besteira de encontro. Ela nunca mais falou comigo

Durante algum tempo procurei em apostilas sobre o amor e não encontrei nada, pois falar de amor é perder tempo, é como exigir do horizonte um ensaio antes de cada amanhecer. Ao falar de amor o único céu que sorri são os olhos. A objetividade do amor é o que menos emociona. Para falar de amor é preciso se aproximar sem pensar, deixar de curvar os ombros, misturar o desespero com a alegria de viver. O amor deixa marcas

Pouca coisa levo comigo, além da cicatriz no queixo, o sorriso dela

"Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico, nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem." – Memória de Minhas Putas Tristes.