domingo, 31 de agosto de 2008

Simples de Coração.

Fala-se pouco, come-se devagar, experimenta-se um emagrecimento involuntário. Não festejamos, não percebemos, não acordamos. A tristeza encabula o corpo. As reticências da espera envelhecem a alma. O reconhecimento finge ser inteiro, o perdão teima em não cansar. Acorda-se com o timbre amargo do fracasso, os olhos estão em exílio.

Procuramos em anúncios de jornal frases que possam ajudar. Mal e forçosamente ficamos de pé. É um sentimento escondido e, ao mesmo tempo, assustadoramente exposto. Viver, agora, inclui; “o que poderia ter sido”. Cicatriz que não cala, alma dilacerada, descompassos reconhecíveis, o gosto do próprio abandono. Saudade que retira a velocidade das palavras. Desespero ao rever fotos, aflição ao reler as cartas.

A boca seca, abrupta em sua própria ficção. Do beijo não dado, restaram apenas colorações escuras e sorrisos opacos. A vontade de voltar parte de uma intervenção inconsciente. O tom da respiração é permanentemente ficcionista, a verdade engasga em meio aos pensamentos. No final, somos um par de olheiras e uma boca confusa. Há muito sou um par de olheiras e uma boca confusa.


Sobre estar apaixonado.....


.......Sobre estar apaixonado, eu sei.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sobre Cafés e Cigarros.


Hoje comecei a fumar. Não que eu sinta prazer em ter nicotina na boca ou goste da fumaça esparsa pelo ar. Comecei a fumar para ter câncer no pulmão. Simples assim. Quero câncer no pulmão para não tratar, quero câncer no pulmão para que as pessoas pensem que fui boa pessoa, quero câncer no pulmão para ser um desconhecido simpático nas fotos.

Eu me pioro para gerar complacência, acho graça em quem acredita na vida, sempre censurando suas próprias verdades, recriminando atos que não sejam do consentimento de todos, apagando memórias ruins para fingir que as mesmas não existiram.

Sempre acreditei que em um incêndio, ao menos uma pessoa não queira ser salva. Alguém que simplesmente deite no chão e aprecie a vermelhidão das chamas e o desespero dos outros. Alguém que viva em voz baixa, alguém que fala sozinho para manter a lucidez. Alguém que apaga a simplicidade para não acreditar no próprio futuro, alguém que viu cicatrizes serem formadas por palavras, alguém que escreve para brincar de ser “verdade”, alguém que suspende o próprio tédio para decepcionar outras pessoas, alguém que antecipa as próprias cobranças, alguém que antecipa os próprios insultos. Alguém que reduz o próprio mundo pela preguiça de não enxergar o lado bom das pessoas, alguém que fume pela diversão de um câncer terminal.

Eu procuro meu declínio social com mais freqüência do que respiro, meu rancor não esquece dos detalhes, minha raiva agride antes de refletir, ofendo séculos em minutos, fumo para ter câncer. Eu me pioro para me divertir.E quando eu partir, para que saibam.....


.... as lágrimas sempre secam antes da próxima chuva

Os lados de um Círculo.

"O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol." - Memória de Minhas Putas Tristes, Gabriel Garcia Márquez.

Hoje acordei e pensei em procurar um analista, tentar reconstituir, de alguma forma, minhas participações no que há ainda para ser vivido. Começo a achar que deveria ter comparecido aos ensaios de um grito de carnaval qualquer. Começo a achar que ficar calado possa ser um crime. Ter sido menos literal, não pensar nas conseqüências do "sim", sorrir e usar sem ironia o termo “simpatia”. Tenho pensado nesse tipo de bobagem. Tenho pensado bastante nesse tipo de bobagem. Estou ficando velho e ainda sim, meus atos continuam infantis. Talvez fosse hora de crescer; cortar o cabelo, fazer a barba, parar com a literatura e arrumar um emprego de verdade, encontrar uma namorada burra e gostosa, ter uma vida social, tomar sol, assistir o Domingo Legal, fingir gostar das pessoas, extravasar nas baladas da vida, ter um monte de amigos, amar e desamar da noite pro dia.

Influenciei de algum jeito o andamento das coisas, foram passos tortos, incertos, inseguros, avulsos, descomunais. Talvez tenha nascido para ser assim mesmo, "avesso".


No fundo, talvez não possa me culpar, meio que, viver acabou se tornando, tão somente, um pretexto para assistir televisão durante todo o mês de Outubro. Fui uma espécie de entrevista aberta, sem a interação do público, mas com participação total de minha invencível angústia negativa. Chegou um ponto em que as idéias se perderam, as narrativas tornaram-se conflitantes e por fim, encontrei-me imerso na mais completa cegueira do esquecimento.


Esquecimento; omissão, descuido, falta de atenção ou interesse, tirar da memória, ato de perder a lembrança de algo ou alguém. É como você acaba. No mais completo e silencioso esquecimento; como contos circulares, cujo ponto de partida é analisar a trajetória de tudo o que foi dito, onde os acontecimentos outrora escritos com variedades de recursos estilísticos servirão, na verdade, somente como fonte de arrependimento e embaraço.


Do esquecimento, faço minhas piadas pessoais. Do esquecimento, meus olhos, já avermelhados da leitura de meus fracassos, passaram a desistir. Do esquecimento, postei a calmaria da alma. Do esquecimento, perfurei a lucidez de minhas escolhas. Do esquecimento, emudeci a beleza que há na vida. Do esquecimento, agarrei-me àquilo que achava ser indício de vida....


...E se me perguntares se continuo avançando, direi que: "sim, mas avanço em volta dela e , só, por ela."

domingo, 10 de agosto de 2008

Do que ficou pelo Caminho.

Algo de crônica, um pouco de drama, muito de pessimismo. Nada de fé, o suficiente de certeza e a simplicidade do tom da respiração. Evocando o território de sua íntima estranheza, fazendo do mau-gosto a própria voz. Estreou na prosa com formato cômico, estreou na vida como quem esqueceu as chaves de casa, como quem tropeça nas palavras e ama o que acabou inventando. Algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa, muito de palavras não ditas, um excesso de sentimentos abafados, doses exageradas de abstração, alheio ao próprio suplício.

Em meio a um episódio corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica, a dúvida do amanhã, a vontade de ir embora, a saudade do que não viveu. Ecoa nos textos o que ficou para trás, traz consigo todo o infortúnio da rejeição. Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio, e a grandiosidade que há nos detalhes. "Se há morte no amor, que seja por ela e mais ninguém."

Em Sete meses, poucas palavras ditas, muito de suspiros inequívocos, quase nada de sol. Sóbrio, desatento, inanimado, cinza, amargurado. Nas crônicas, uma temática comum a sua poesia. No seu cotidiano, a busca da essência do que já não é mais seu. Um mundo com nuvens densas e isolamento opcional, perfeito.

Há nas palavras uma forma sutil de descrever o mergulho na dor; um gesto singelo, como perceber que os termos que regem a vida são ilegíveis e incompletos. Das festas que não fui, arrependo-me apenas, daquilo que me tornei.

sábado, 2 de agosto de 2008

Cartas mortas.

Sábado, janeiro 31. Deitado no sofá, pensativo, imerso em toda aquela solidão e angústia, incapaz de mover um músculo. Seguro de que as paredes me faziam companhia e de que os quadros já não se importavam mais com minha presença. Desejava ter vodka comigo, mas o mais próximo disso que consegui encontrar na geladeira foi iogurte Diet de morango. Desejando que o sol morresse, amargurado, irritadiço, agastado de toda aquela diversão comunal. Imaginando um tempo nublado, um céu plúmbeo. Um olhar perdido, sem foco, desnaturado. Implorando para que ao menos uma vez na vida, cinzas pudessem cair do céu. Antecipando as próprias palavras, queimando vestígios biográficos, calculando quanto tempo mais teria de agüentar o próprio pensamento.

Havia passado horas revirando gavetas na esperança de reencontrar o passado, estava exausto. Na expectativa de desvendar o timbre desgostoso com que levo a vida, optei por ligar a televisão e ficar em silêncio, meu melhor silêncio. Na infantilidade de sentir saudade do que não existiu, deduzi que fosse morte. Ouvindo o som da própria respiração, trocando de canal insistentemente até ver o meu rosto no reflexo mórbido das propagandas.

Do sofá, eu e meu pote de iogurte avistamos, ao que parecia ser, um sinônimo de vida entre o vão das paredes: uma flor já meio murcha em um terrível jarro azul. Jogado de forma lastimável naquele móvel, cheguei à conclusão de que mesmo se meu decrépito espírito optasse por ajudar trocando a água do jarro, no máximo, estaria adiando seu fim trágico em algumas horas. Permaneci imóvel. Meio que de forma egoísta, senti uma profunda inveja da pequena flor, não exatamente da flor, mas de seu estado terminal. Toda aquela visão poética me lembrou que não sou terminal, sou apenas decadente.

Estiquei a mão pegando uma caneta na gaveta mais próxima; anotei no braço um compromisso falso para ter certeza de que ainda estava ali, de que ainda estava vivo. Continuei lá, deitado, gastando o tempo para não ter que preenchê-lo com ninguém. Minha respiração era cortada por suspiros, os olhos permaneciam caídos e uma expressão cadaverística tomava conta de meu semblante. Ajeitei meu cabelo na concha dos ouvidos, concentrei a voz e lembrei então que ainda era fulminado de paixão por ela. Sábado, janeiro 31, meu fracasso social, meu sucesso solitário, a angústia mais solitária da razão.


PS: Por óbvio, que as dores sejam só poesia.