Algo de crônica, um pouco de drama, muito de pessimismo. Nada de fé, o suficiente de certeza e a simplicidade do tom da respiração. Evocando o território de sua íntima estranheza, fazendo do mau-gosto a própria voz. Estreou na prosa com formato cômico, estreou na vida como quem esqueceu as chaves de casa, como quem tropeça nas palavras e ama o que acabou inventando. Algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa, muito de palavras não ditas, um excesso de sentimentos abafados, doses exageradas de abstração, alheio ao próprio suplício.
Em meio a um episódio corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica, a dúvida do amanhã, a vontade de ir embora, a saudade do que não viveu. Ecoa nos textos o que ficou para trás, traz consigo todo o infortúnio da rejeição. Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio, e a grandiosidade que há nos detalhes. "Se há morte no amor, que seja por ela e mais ninguém."
Em Sete meses, poucas palavras ditas, muito de suspiros inequívocos, quase nada de sol. Sóbrio, desatento, inanimado, cinza, amargurado. Nas crônicas, uma temática comum a sua poesia. No seu cotidiano, a busca da essência do que já não é mais seu. Um mundo com nuvens densas e isolamento opcional, perfeito.
Há nas palavras uma forma sutil de descrever o mergulho na dor; um gesto singelo, como perceber que os termos que regem a vida são ilegíveis e incompletos. Das festas que não fui, arrependo-me apenas, daquilo que me tornei.
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