terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Fica pra Próxima.

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Quando meu time, o poderoso TIMÃO, Corinthians, jogou o campeonato Brasileiro pela segunda divisão foi a época mais divertida pra mim. Nem sou tão fã de futebol assim, mas aquela época foi a que mais vi jogos, que mais torci, que mais estive envolvido. Apesar das piadinhas e provocações alheias, não ligava. Não estava nem aí se era o pior time do mundo ou se estava na segunda divisão. Era meu time, ficava contente até mesmo se perdia. Porque por mais desgraçado que fosse, era meu time, não o abandonaria. Sem traições.

Pra mim traição é assim, é como abandonar o time do coração só porque ele está na segunda, terceira, quarta, trigésima divisão.

Não entendo casais que ficam loucos quando um dos dois viaja. É como se já tivessem a certeza de que um dos dois pulará a cerca. Se há traição é porque não há nenhum tipo de sentimento envolvido, é porque um deles não se importa tanto assim, é porque a relação não vale muita coisa. A pessoa que trai não ama, não respeita, está junto por pura conveniência, faz da vida a dois um passatempo, um álibi.

Quem trai é mesquinho, egoísta, não sabe o que é gostar de verdade. Normalmente é aquele tipo de gente que sai pra balada pega geral e ainda acha que ta arrasando por causa disso “Cara, sabe a festa de ontem, então, fui lá, pah, peguei duzentas” – isso ae campeão, meus parabéns, vai querer uma medalha por isso?! - .

Traição dói, amarrota, encabula, deixa a gente com aquele sorriso sem graça estampado na cara. Pior ainda é quando o traído resolve pagar na mesma moeda; trair para se vingar é baixar o nível, é demonstrar que se é tão baixo quanto o outro.

Um dia desses estava no estágio sem nada pra fazer, dois colegas de trabalho estavam jogando conversa fora e começaram a falar das “fodas” que tiveram fora do casamento. E riam, davam gargalhada, gabavam-se por nunca terem sido apanhados, festejavam como porcos que são. Fiquei atônito ao ouvir aquilo, enojado com tamanha falta de sensibilidade.

Traição machuca.

Meu amor eu guardo com carinho. Prefiro continuar na segunda divisão.

Sem traições.

Oi, quer dançar?!

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Eram duas da manhã, sábado. Tinha acabado de zerar Super Mário Bros 3....em tempo record, diga-se de passagem. No meio da minha comemoração, lembrei que era “sábado”, sábado de madrugada. É o dia onde o pessoal se arruma, a galera sai pra se divertir, o pessoal vai pra balada e pah. E eu estava jogando Super Mário. E não era diversão, era coisa séria, cheguei a discutir com a televisão várias vezes. MeuDeus, estava jogando Super Mário em pleno sábado de balada.

Liguei o monitor do computador, entrei no orkut e comecei a analisar o profile de alguns playboys. Reparei que não há playboys maníacos-depressivos-amargurados como eu. Reparei também que estavam sempre sorrindo, felizes, cheio de mulher ao redor. “uau, preciso mudar, essa parece ser uma vida legal”. Peguei papel, caneta e fiz uma lista;

Primeiro: Nada de ficar em casa vendo Star Wars, descobri que não sou um cavaleiro Jedi e esse negócio de “uonnnnnnnnn” pra cá, “uonnnnnnnnnnnnnnnnnnn” pra lá, não vai me levar a lugar nenhum. Segundo: Preciso de um carro. É, um carro, todo playsson tem um carro. Lembrei que não tenho um, mas sei lá, tenho uma bike, talvez se eu colocasse um toca-fita, uma caixinha de som, umas rodas bacanas e desse uma geral, quem sabe ficasse supimpa.

Terceiro: Preciso de músculos, mulher adora essas coisas. É só passar um bombado e elas começam a pagar pau. Olhei pro meu físico de calango hepático e fiquei meio decepcionado – Nota pessoal, apelar para anabolizantes- . Quarto: Nada de vídeo-game. Preciso de outro passatempo, vídeo-game é para Nerds, preciso de um hobby firmeza, arriscado, perigoso, arrogante, coisa de macho, sabe, algo que impressione a mulherada; cogitei seriamente em começar a jogar Dominó.

Quinto: Aprender a dançar. Dançar é fundamental. Não posso ir pra balada e ficar no canto com cara de Moco. Mas isso não vai ser problema pra mim, baixei uns vídeos de “Embalos de Sábado à noite”, com o John Travolta. Vou arrasar.

Sexto: O mais importante do itens. Largar dessa besteira de literatura e sentimentalismo. Mulher não liga pra essas coisas. Tem que chegar chegando, saca. Tipo Carnaval, chegou, puxou e pah, já era. Mulher adora essas coisas, brô. Nada de ficar bancando o bom moço, caso contrário chega outro e pega primeiro. Falar de amor então, isso nem pensar; mulher não quer saber dessas merdas, tem que ter é atitude, “sakoé”.

"e desde então sou porque tu és,

e desde então és, sou e somos

e por amor serei, serás, seremos."

Neruda.

PS: Agora eu sou playboy.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Deixa assim.

Sou a favor em dar um tempo. Certos clichês, de tão usados, tornam-se tão violentos e incompreensíveis quanto verdades absolutas. Sou a favor desse tempo, acredito ser a forma de sair aos poucos de um relacionamento, sem pratos quebrados, sem rasgar fotos, sem agressões verbais, sem a explosão da despedida final.

Sou a favor do tempo; é com ele que colocamos a cabeça no lugar, respiramos fundo, acalmamos a alma. Concordo que dar um tempo é covardia, que é falta de coragem para dizer que tudo acabou, concordo também que esse tempo é um “tchau” que não teve a convicção de um Adeus, é um gesto canalha, honesto, ainda que triste.

Dar um tempo às coisas é um jeito educado de faltar com educação, tem um “quê” de indiferença, beira o cinismo.

Nesse “novo” ano vou pedir um tempo ao mundo, à vida. Só volto quando as coisas estiverem no ritmo do meu samba, até lá; Sugiro café e cigarros.

sábado, 29 de novembro de 2008

Nem Sempre

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Acordar sempre foi a pior parte do meu dia, e se já sou calado por natureza, pela manhã então é que teimo em não abrir a boca. Quando acordo, ela já está a mil, andando pra lá e pra cá pelos cantos da casa, ligada no 220. Eu me sento à mesa da cozinha, o sol já incomoda e serro os olhos na tentativa de afugentar a claridade. Ela está atrasada, sempre atrasada, parece sempre estar em cima da hora, séria, meio brava, mal humorada preocupada com o relógio, passa rápido por mim, não sabe onde colocou as chaves, não sabe onde deixou os brincos.

Eu tomo café e como pão pacientemente, não me importo com o tempo, perder o horário pra mim é lucro. Deixo cair farelos de pão por toda a parte, isso sempre a deixa irritada. Ela pergunta aborrecida quando é que vou começar a me arrumar, quando vou fazer a maldita barba, quando é que vou levá-la pra sair; não respondo, antes de formular minhas palavras ela já está em outro cômodo, deixo escapar um sorriso bobo de canto de boca. Se ao menos ela soubesse o quanto gosto dela.

Ela vai embora sem me dar um beijo, sem dizer que me ama. Percebo então que amo por nós dois, nessa hora o pão fica amargo. Acordar é a pior parte do dia porque me dou conta de que ela foi embora, vai passar o dia fora e eu não vou poder ligar a cada 5 minutos só pra ouvir a voz dela. Pelos Deuses, ela é meu vício.

No final do di percebo que isso não aconteceu. Mas gosto de fingir. Sinto saudade do que minha imaginação criou.

Vivo assim, de memórias inventadas.

Doses Homeopáticas.

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O amor não morre, não pra mim. O amor só esquece de recomeçar. O amor não desaparece, ele cala, vai falando baixinho até o coração perdoar. Ao fechar os olhos, sem notar minha timidez, lembro que ainda gosto dela.

Tenho medo de que o que há por vir apague a memória dos dias junto à ela. Por mais cuidado que se tome para não se lembrar da saudade, em certo momento ela nos pega. É como se ela fosse embora todos os dias, deixando-me assim, órfão daquele maravilhoso sorriso. Percebo que amava tanto, que acabei me esquecendo de viver o amor como se deveria.

Gestos, palavras, olhares, cumplicidade, contornos, entornos, tudo vai se aquietando. A lembrança do que foi vivido e que hoje já não mais se tem é o que mais dói e o que nos deixa com aquele medo de tentar de novo. Maravilhoso ter morrido de amor.

O começo de um grande amor é difícil,
Depois, mais difícil se torna
Quando bem como aconteceu
Sem ao menos começar.

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Nunca mais

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Não tenho mais porque esperar. Eu venho falar de amor, eles transformam tudo em um grande circo. Eu venho falar de sentimentos, eles transformam tudo em uma grande festa. Eu venho falar simples de coração, eles fazem de mim a piada da vez. As pessoas transbordam em superficialidade, riem do que outrora era sinônimo de vida. Já não tenho mais a quem recorrer, já não tenho com quem conversar, já não tenho em quem mais concentrar os olhos . Estou só, perdido e sem nenhuma vontade de continuar aqui.

Alguém berra; “cachorra, safada, piriguete...” e é ovacionado, eu escrevo sobre o amor em pedacinhos de papel e sou motivo de risada. Esse mundo não é pra mim, eu vou embora. O espaço entre essas pessoas e o meu exagero poético é o de uma vida.

Bem mais cômodo é dizer que sou estranho, bem mais cômodo dizer que invento meus traumas, que o que sinto não existe, bem mais cômodo dizer que sou assim porque quero e não porque estou doente.

De pouca coisa sentirei falta, vou embora sem me despedir, até porque meu coração não encontraria paz entre as palavras. Não tenho mais vontade de freqüentar a vida, do abandono das tardes de Outubro ao exílio da minha incompetência antecipada, não tenho mais porque esperar, pois retiro da falta de assunto, a solidão que me consome aos poucos.

Sobre os filmes da Tv.

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A solidão é meu caráter. – Pausa pro suspiro dramático-, mas sim, sou uma lembrança imaginada. Sou tão exato em sentimentos que mesmo rodeado por pessoas me sinto assim, sozinho. Já dizia um ex-amigo; “A pior solidão que existe é darmo-nos conta de que as pessoas são idiotas”. No meu caso, eu sou o idiota. De tão lerdo que sou, tropeço em calçadas do outro lado da rua para admirar, encantado, o sol morrendo em mais um fim de tarde qualquer.

Eu de verdade sou assim, desde criança, estúpido. Não me faço compreender, complico tudo, não sou explícito, negligencio a vida, faço da covardia o ritmo de meus passos. Tenho preguiça de viver, tenho preguiça de sair desse quarto, tenho preguiça de tentar mudar, é um constante estado de torpor, é como deitar e morrer, simples assim. Envelheço meus medos, desisto com a mesma facilidade de quem foi rejeitado e ainda não se deu conta. Não tomo partido em nada, não me envolvo, não voto, não protesto, não me interesso.

Ontem não foi um bom dia, hoje não foi um bom dia e amanhã, provavelmente, vai ser um chute no saco. Tem sido uma semana ruim, um mês ruim, um ano lamentável, uma vida descartável. E de vez em quando aparece alguém achando que pode mudar alguma coisa. – acho graça -. Mal sabem essas pessoas que tal mania de salvação só faz bem pro alter ego. Não peço nenhum tipo de piedade, só peço que falem baixo, não cuspam ao falar, não finjam interesse e o mais importante, não mencionem o amor.

Durmo encolhido, a cama de solteiro é espaçosa pra mim, perco-me por incompetência, meu sorriso é desespero, metade de mim já morreu e não tenho mais dinheiro para comprar cigarros.

Eu de verdade sou assim, desde criança, uma piada de mau gosto. Pode rir, eu não me importo, a gente meio que acostuma com o tempo, quiçá, até me junto a ti pra rir também.

domingo, 2 de novembro de 2008

Estranha Melodia [2]

Amar;
Fechei os olhos para não te ver

e a minha boca para não dizer...

E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,

e da minha boca fechada nasceram sussurros

e palavras mudas que te dediquei...
Mário Quintana.

Eu me vejo verdadeiramente acordado ao observar o quanto gostava dela, de como me divertia com o seu sorriso, de onde tinha certeza ter encontrado o amor. Era agradável dividir o espaço com ela, passar horas e horas conversando sobre absolutamente nada. E eu que vivia censurando tal sentimento, encontrei-me imerso de paixão por aqueles olhos.

A sensibilidade do que sentia por ela ultrapassava o inusitado, encontrava no cotidiano momentos de pura felicidade. Sorria feito um bobo pelos cantos, tropeçava sozinho em meus suspiros. Tudo nela me provocava encantamento. E justo eu, que sempre fui convicto de minha descrença pela humanidade, agora me sinto desesperado sem ela.

Hoje, trago em mim a saudade de alguém que envolvi em sonhos e se tornou apenas miragem. Terno como um sorriso que surge do nada, sem pedir, sem cobrança, simples de coração. “Falais baixo se falais de amor”. No final, descobri que não amava como queria, só amava como podia.

E sobrevivo apesar de mim, depois de mim, antes de mim, em mim, só não sei ao certo se sobrevivo sem ela.

Ela, e só por Ela.

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Outro dia minha irmã entrou no quarto e disse: “tem uma amiga minha que quer ficar contigo”. “Não, obrigado”. “Mas você nem sabe de quem eu tô falando”. “Não, obrigado”. “Mas ela disse que te viu na faculdade e gostou de ti”. “Pois mande desgostar”. “Não vai nem querer conhecer a menina”. “Não”. “O que digo pra ela, então?!”. “Diga que não sei sambar, diga que amadureço para dentro de minha própria voz, diga que o que ela sente é prosaico, diga que pra sempre é muito e que tenho aula na segunda, diga que “eu te amo” já pode ser baixado pela internet, diz pra ela que fevereiro ta aí e na semana de carnaval ela vai encontrar inúmeros indivíduos da espécie dela”. “tá, né”.

Pouco lembro do sentimento humano que havia em mim e foi embora tão cedo me deixando assim, órfão de lembranças agradáveis, e o que ficou..............., bom, o que ficou em mim desaba em egoísmo, descaso, metáforas e mentiras. Além de mim, da letra complicada e das palavras secas, nada mais faz sentido. Não vou dividir o pouco que tenho com ninguém, o coração é meu.

O tom solene e denso da solidão gera a concentração do corpo na garganta, a alma aos poucos pede um tempo e o que sobra é um distanciamento reflexivo. Ao não empregar o vocabulário banal das baladinhas de final de semana, concentra-se os efeitos na profundidade da própria existência.

Cansei desse mundo, cansei da geração “novelinha teen das 6”, cansei de forçar o riso, cansei de tentar ser humano, cansei de tentar sambar. Além das palavras, além de mim, o que há em minha voz é só abismo e poesia............


..............porque a poesia mente, embora de forma apaixonada.

Estranha Melodia.

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Não confio no acaso. Sempre que fecho meus olhos, vejo e escuto melhor. Deixo de lado os belos sorrisos, a falsidade estampada em cada gesto, cada palavra, cada frase pronta. Manter um distanciamento crítico me deixa lúcido. Lúcido o bastante para não acreditar em contos de fadas, em finais felizes ou em um sonoro e vago “eu te amo”. Renovo o sentido de minhas banalidades para não me juntar a eles, ser só mais um, mais uma conquista, mais um passatempo, mais um álibi.

O esquecimento é mesmo o único perdão, é uma quase solidão que sai pela boca através de um beijo quieto, tímido, vago de noções, beijo que se afasta para ler o que escreveu nos lábios. O esquecimento é o sentimento se justificando, desabafando a vergonha das juras de amor de outrora. Sendo assim é melhor calar o jeito, umedecer os olhos e fingir que nada aconteceu.

Adorava cada briga com ela, cada discussão infundada, adorava quando discordava de mim, adorava sua cara de descaso, as risadas de coisas bobas. Adorava cada detalhe, adorava as madrugadas no msn, adorava ter crises de ciúme por causa dela. Adorava até mesmo minha quase solidão.

Mas o tempo passa; o sentimento vai desaparecendo pelos cantos. Não importa em que tempo estávamos, a falta de palavras agora é também um idioma. O que se esforçou para viver uma hora desaparece. A vivência imaginária também cansa de brincar. Aceitar o que se passou é preferível do que passar em branco.

O esquecimento é mesmo o único perdão

Primeiro Estranha-se, depois Entranha-se.
(Fernando Pessoa).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Causa Mortis

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Pediram-me para que me apresentasse, pediram-me para que fosse sincero, pediram-me para expor minhas idéias, pediram-me para externar os sentimentos sufocados. Era uma espécie de confraternização, primeiro dia de trabalho, 11 estagiários juntos. Todos sentados em círculo, todos ansiosos, todos falsamente confiantes. Alguns tentando se sobressair mais que outros, estampando simpatia na cara, forçando um interesse nitidamente maquiado. Alguns tentando disfarçar a timidez exposta nas pernas inquietantes, preocupados se a voz falharia, se a fala seria do agrado de todos.

Como de costume, eu me esforçava para ficar acordado e não conseguia tirar da cabeça o quão inútil era aquilo. Mal é porcamente forçava um sorriso amarelo para que não ficasse tão óbvio minha falta de interesse.

Uma a uma, as pessoas começaram a se apresentar: “oi!!! me chamo (nomes são desnecessários), acredito na paz mundial, quero salvar as baleias, g-zus é tudo na vida, eu amo minha mãe, amo meu pai, amo meus amigos e espero que eu possa aprender muito nesse emprego”. “Olá, eu me chamo (....), gosto de fazer amigos, sou uma pessoa super simpática e comunicativa, adoro animais, faço caridade, vou à igreja todos os domingos e espero corresponder a expectativas de todos”. “Ooieeeee gente, meu nome é (...) eu adoro ler, adoro estudar, estou ansiosa para aprender um monte de coisas legais nesse estágio, adoro bebês focas, eu me preocupo com o aquecimento global e sou a pessoa mais feliz desse mundo porque tenho Deus no coração.”


“Olá, me chamo Lucas, Lucas Campos. Sou fumante e não estou nem ai se o mundo esta derretendo. Metade de mim é puro negativismo, a outra metade é mau-humor. Faço o mal, tenho maldade no coração. Sou cínico, rabugento e morto de preguiça. Acho o Deus de vocês uma piada e tenho asco a toda essa falsidade. Eu não estou aqui para fazer amigos e agradeceria se me deixassem em paz. Por óbvio, não gostaria de estar aqui, vou ganhar uma miséria e trabalhar como um burro de cargas. Não gosto de animais, não sou comunicativo, cheiro à nicotina e para perder a virgindade tive que pagar uma prostituta. No mais, gosto de desenhos animados.”


Pediram-me para que me apresentasse, pediram-me para que fosse sincero, pediram-me para expor minhas idéias, pediram-me para externar os sentimentos sufocados. Só que antes disso me ensinaram a mentir. Ensinaram-me que não é correto ser sincero, ensinara-me que ser diferente é errado, ensinaram-me que por mais honestas fossem minhas palavras eu simplesmente deveria me portar como os outros, agir como os demais. Cortar o cabelo, fazer a barba, porta-me feito homem crescido e estampar um sorriso seboso na cara. Naquela tarde traí meus próprios sentimentos. Se dissesse a verdade seria mandado embora, eu precisava do emprego. Como um robô programado, copiei as palavras da menina ao lado, portei-me como eles, menti para me adequar, exacerbei minha hipocrisia até arrancar aplausos dos demais.


Natureza-morta, janela empoeirada, expresso frio, gostos amargos, sensações de complexidade, fazem parte do meu lirismo, lirismo que é feito de sentimentos e não de “pegação”; minha mania de fechar a porta e não querer receber visitas. Fui incompreensível por falta de testemunhas.


Naquela tarde metade de mim morreu, eu perdi, eles venceram. Eu me rendo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Rádio de Outono

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Hoje descobri uma cicatriz de infância debaixo do queixo. Estava contando os minutos para poder sair do trabalho. Impaciente, entediado e na esperança de morrer antes disso. Passava insistentemente a mão pela barba, quando me dei conta da cicatriz. Achei graça, lembrei de que o amor deixa marcas.


Foi durante meu primeiro encontro. Tinha planejado tudo. Cabelo lambuzado com gel, milimetricamente penteado, camisa social do meu pai, que obviamente ficou como um balão em mim, sapatos limpos, calça xadrez social, perfume e tudo mais que tinha direito. Estava tão feio que hoje em dia chego a sentir dó. Mas o mais importante era que...havia comprado flores. Sem meio de transporte para ir, a única opção era recorrer a minha velha bicicleta vermelha. – O que; parando para pensar, tornava a cena mais ridícula ainda -

No caminho, olhei para o relógio e me dei conta que talvez não chegaria no horário. De maneira alguma poderia me atrasar para aquilo, pelos Deuses, era meu primeiro encontro. Acelerei o ritmo de forma desesperadora. Descendo feito um louco as ladeiras da cidade, desviando de carros, pedestres, postes; adrenalina total. Tudo corria bem, até que despenquei para dentro de um bueiro aberto pela prefeitura.

O acidente não foi grave, eu diria que foi até cômico se minha bicicleta não tivesse virado um “8”. Alguns arranhões, um corte debaixo do queixo, alguns hematomas, as flores despedaçadas, um rasgo gigante na camisa e um sapato perdido. O fato de estar atrasado me impediu de chorar. Larguei a bicicleta, ou o que restou dela, para trás e saí correndo. No meio do caminho fui cessando a correria. Como ir a um encontro descabelado, sem um sapato, com roupas rasgadas, fedendo a esgoto e com flores decapitadas? Dei meia volta e retornei para casa arrastando a bicicleta, as flores, deixei pelo caminho.

No dia seguinte quando ela me cobrou explicações do “por quê” de não ter aparecido, resolvi dizer que havia desistido de toda aquela besteira de encontro. Ela nunca mais falou comigo

Durante algum tempo procurei em apostilas sobre o amor e não encontrei nada, pois falar de amor é perder tempo, é como exigir do horizonte um ensaio antes de cada amanhecer. Ao falar de amor o único céu que sorri são os olhos. A objetividade do amor é o que menos emociona. Para falar de amor é preciso se aproximar sem pensar, deixar de curvar os ombros, misturar o desespero com a alegria de viver. O amor deixa marcas

Pouca coisa levo comigo, além da cicatriz no queixo, o sorriso dela

"Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico, nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem." – Memória de Minhas Putas Tristes.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Hora de voltar.

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Nunca consegui ser o Ranger Vermelho. Desde pequeno sou assombrado por tal personagem. Para ser o Ranger Vermelho era preciso ter coragem, era preciso ter força, ser astuto, era preciso ser líder, era preciso estar vivo. Sempre fui o Ranger Azul, tímido, calado, gordinho, aparelho, óculos, livros debaixo do braço. Não que ser o Ranger Azul fosse de todo ruim, mas é que no final das contas era o Ranger Vermelho que salvava o dia e ficava com a garota. O azul era só mais uma peça do elenco de apoio.

De Ranger azul à estudante de algum curso superior inútil; e o maldito mundo continua em seu lugar. Ainda não sei desaparecer em mim, ainda gaguejo ao tentar dar informações, ainda leio revistas de trás para frente, ainda não sei dançar, ainda continuo sobre o sol do cerrado, ainda procuro desculpas por me ausentar, ainda jogo vídeo-game, ainda vejo bobagens na televisão, ainda uso os mesmos óculos.

A diferença é que estou preparando minha partida. Quero transformar tudo em um grande livro, um livro que não faça barulho, um livro que tente comover ouvindo ao contrário, cheio de incertezas e observações banais. Não tenho intenção de ocupar um lugar cativo na estante dos outros, pois sei que a maioria das pessoas não perde tempo lendo. O tempo é mais útil em baladas, micaretas, shoppings e adjacentes. Poesia é para fracassados sentimentais, poesia é morte onde há possibilidade de vida.

A minha exaltação por essa possibilidade de vida descende de uma fé leiga, meio morta, meio cinza, meio desacreditada. Com a distração de uma conversa fatídica, eu procuro escrever. Escrever para ter com quem conversar, escrever para falar alto, escrever para opinar, escrever para fingir ser verdade, escrever para catalogar os livros pela cor e não pelo assunto, escrever pelo contraditório, escrever pelo o que já não é mais vida, escrever pela coincidência das dúvidas.

Escrever para existir pelas metades.

domingo, 14 de setembro de 2008

Sobre beijos e outras bobagens

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Vamos aos fatos. Noite de quadrilha, vestido a caráter – camisa xadrez, tênis all star, chapéu de cowboy, barba feita de canetinha preta, lenço no pescoço, cinto com fivela do tamanho de uma placa de carro. Oitava série, meados de 1900 e alguma coisa. Treze, doze anos, não sei bem ao certo. Ela não gostava de mim, não da maneira que eu gostava dela, éramos só amigos – o que era muito pior, diga-se de passagem - . Mas meu amor valia por nós dois, eu amava por ela também. Durante todo o ano guardei o sentimento sufocado.
Escrevia cartas, poemas, poesias, bilhetinhos e sempre faltava coragem para dizer a verdade. Naquela noite festiva tomei coragem, devidamente trajado, inundado de uma coragem nunca vista antes. Tinha resolvido que naquela noite daria o primeiro beijo da minha vida e seria perfeito, como nos filmes e livros.

Chamei-a para um canto e lhe disse que tinha uma coisa super importante para dizer. “Que foi, fala logo, tou ocupada”, “É que, eu....queria, é....hããããã....tipo....” - Minha mente dizia aos berros dentro da minha cabeça “ Seu estúpido, idiota, animalzinho desgraçado....Cala boca, pára de falar aos menos uma vez na vida, seja homem, isso não é hora pra romantismo, cala boca e beija logo ela” - . Respirei fundo, fechei os olhos e inclinei o corpo.


O beijo passou reto, batido, sem rumo algum. No momento não entendi o que havia acontecido. Abri os olhos e me dei conta que ela havia desviado o rosto. “cê Ta louco? tu pensa que ta fazendo o que?”. Só depois de três dias consegui soltar a primeira palavra. Naquela noite, meu chapéu de cowboy me impediu de chorar


21 anos, mais um dia desperdiçado em uma sala de aula. Eis que uma moça entra na sala e avisa sobre uma palestra que seria ministrada no auditório central. “ótimo, ao menos lá, as cadeiras são confortáveis, vou aproveitar e tirar um cochilo”. Ao chegar no auditório escolhi o lugar com menos concentração de pessoas, o mais afastado possível dos outros estudantes. Quando já estava confortavelmente esticado em uma das cadeiras, um grupo de 5 ou 6 meninas sentou ao meu lado. Elas falavam alto, riam de tudo, levantavam a todo o momento, eram escandalosas e se portavam feito macacos. 30 segundos daquilo foi o suficiente para eu começasse a desejar a morte de qualquer uma delas.


Para piorar o dia, uma delas puxou conversa comigo. Ela dizia coisas desconexas, falava rápido demais, sorria demais, cuspia no meu olho, fazia comentários desagradáveis e insistia em dizer coisas que obviamente não me interessavam. Em meus pensamentos, pedia a Deus para morrer, tudo bem se fosse uma morte lenta e dolorosa, só queria que ele me tirasse daquela situação. Com 5 minutos de conversa, eu já sabia toda a sua vida acadêmica, amorosa, do seu ex-namorado Gilberto, de como suas férias na disney foram divertidas e de como do alto dos seus 14 anos ela já era totalmente “madura”. Eu só sustentava um sorriso amarelo de canto de banco e dizia “ãh-ram”.


Então a mais brilhante das idéias me ocorreu. Tirei do bolso da mochila um cigarro e um isqueiro. “você não pode fumar aqui, tem ar-condicionado”, “é, eu sei”. Traguei profundamente o cigarro e despejei a fumaça toda nela. Sei que foi maldade, mas funcionou. Ela quase que instantaneamente mudou de lugar. Ela e seu grupinho.Depois disso fiquei rindo sozinho. Era uma menina bem bonita, mas não tenho mais ânimo para essas coisas. Estou aposentado de toda essa besteira. O cigarro é como minha barba mal feita, serve para meu rosto não aparecer tanto e para interromper esse vício, primeiro teria que curar minha amargura. Após meu “quase-primeiro-beijo”, disse a mim mesmo que depois daquele episódio seria uma pessoa melhor. Péssima profecia: hoje sou muito, muito pior.

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Não quero me explicar, de agora em diante, o cigarro me abrevia

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sobre o Sol.

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“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco”.

Gabriel Garcia Márquez – Memória de minhas Putas Tristes

Mais estranho é ter que falar sozinho para mencionar o clima. Mais estranho é ter a respiração como resposta sobre relacionamentos. Mais estranho é não ter com quem acordar. Mais estranho e ver a alma morrer e não se importar. Mais estranho é não ter mais os olhos para interrogar. Mais estranho é achar que alguém se importa.

Não sei mais convencer o que ficou pelo caminho, começo a achar que é puro exagero. Tão estranho quanto escrever uma carta para quem nunca existiu.

Durante o dia percebo que passo mais tempo olhando do que falando. No início achei que fosse falta de assunto, desinteresse, absoluta distração imaginativa. Reparei que passo a maior parte do tempo em uma lentidão lastimável, sem a mínima vontade de trocar uma única palavra com a pessoa ao lado. Sinto-me mudo, ando devagar, olhar vago e baixo, entusiasmo de quem já está perdendo o jogo aos 3 minutos do primeiro tempo. Barba por fazer e um terrível cheiro de cigarro que exala pelos poros.

Descobri que o silêncio fica mais interessante depois que não há mais ninguém para fazer calar. É um silêncio adulto, um silêncio que antecipa o que os outros têm a dizer. É um silêncio com consciência intuitiva, planejado, preciso e nem os mais ternos sorrisos terão tempo de enfraquecê-lo.


É o silêncio já cansado da arrogância das palavras..

domingo, 31 de agosto de 2008

Simples de Coração.

Fala-se pouco, come-se devagar, experimenta-se um emagrecimento involuntário. Não festejamos, não percebemos, não acordamos. A tristeza encabula o corpo. As reticências da espera envelhecem a alma. O reconhecimento finge ser inteiro, o perdão teima em não cansar. Acorda-se com o timbre amargo do fracasso, os olhos estão em exílio.

Procuramos em anúncios de jornal frases que possam ajudar. Mal e forçosamente ficamos de pé. É um sentimento escondido e, ao mesmo tempo, assustadoramente exposto. Viver, agora, inclui; “o que poderia ter sido”. Cicatriz que não cala, alma dilacerada, descompassos reconhecíveis, o gosto do próprio abandono. Saudade que retira a velocidade das palavras. Desespero ao rever fotos, aflição ao reler as cartas.

A boca seca, abrupta em sua própria ficção. Do beijo não dado, restaram apenas colorações escuras e sorrisos opacos. A vontade de voltar parte de uma intervenção inconsciente. O tom da respiração é permanentemente ficcionista, a verdade engasga em meio aos pensamentos. No final, somos um par de olheiras e uma boca confusa. Há muito sou um par de olheiras e uma boca confusa.


Sobre estar apaixonado.....


.......Sobre estar apaixonado, eu sei.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sobre Cafés e Cigarros.


Hoje comecei a fumar. Não que eu sinta prazer em ter nicotina na boca ou goste da fumaça esparsa pelo ar. Comecei a fumar para ter câncer no pulmão. Simples assim. Quero câncer no pulmão para não tratar, quero câncer no pulmão para que as pessoas pensem que fui boa pessoa, quero câncer no pulmão para ser um desconhecido simpático nas fotos.

Eu me pioro para gerar complacência, acho graça em quem acredita na vida, sempre censurando suas próprias verdades, recriminando atos que não sejam do consentimento de todos, apagando memórias ruins para fingir que as mesmas não existiram.

Sempre acreditei que em um incêndio, ao menos uma pessoa não queira ser salva. Alguém que simplesmente deite no chão e aprecie a vermelhidão das chamas e o desespero dos outros. Alguém que viva em voz baixa, alguém que fala sozinho para manter a lucidez. Alguém que apaga a simplicidade para não acreditar no próprio futuro, alguém que viu cicatrizes serem formadas por palavras, alguém que escreve para brincar de ser “verdade”, alguém que suspende o próprio tédio para decepcionar outras pessoas, alguém que antecipa as próprias cobranças, alguém que antecipa os próprios insultos. Alguém que reduz o próprio mundo pela preguiça de não enxergar o lado bom das pessoas, alguém que fume pela diversão de um câncer terminal.

Eu procuro meu declínio social com mais freqüência do que respiro, meu rancor não esquece dos detalhes, minha raiva agride antes de refletir, ofendo séculos em minutos, fumo para ter câncer. Eu me pioro para me divertir.E quando eu partir, para que saibam.....


.... as lágrimas sempre secam antes da próxima chuva

Os lados de um Círculo.

"O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol." - Memória de Minhas Putas Tristes, Gabriel Garcia Márquez.

Hoje acordei e pensei em procurar um analista, tentar reconstituir, de alguma forma, minhas participações no que há ainda para ser vivido. Começo a achar que deveria ter comparecido aos ensaios de um grito de carnaval qualquer. Começo a achar que ficar calado possa ser um crime. Ter sido menos literal, não pensar nas conseqüências do "sim", sorrir e usar sem ironia o termo “simpatia”. Tenho pensado nesse tipo de bobagem. Tenho pensado bastante nesse tipo de bobagem. Estou ficando velho e ainda sim, meus atos continuam infantis. Talvez fosse hora de crescer; cortar o cabelo, fazer a barba, parar com a literatura e arrumar um emprego de verdade, encontrar uma namorada burra e gostosa, ter uma vida social, tomar sol, assistir o Domingo Legal, fingir gostar das pessoas, extravasar nas baladas da vida, ter um monte de amigos, amar e desamar da noite pro dia.

Influenciei de algum jeito o andamento das coisas, foram passos tortos, incertos, inseguros, avulsos, descomunais. Talvez tenha nascido para ser assim mesmo, "avesso".


No fundo, talvez não possa me culpar, meio que, viver acabou se tornando, tão somente, um pretexto para assistir televisão durante todo o mês de Outubro. Fui uma espécie de entrevista aberta, sem a interação do público, mas com participação total de minha invencível angústia negativa. Chegou um ponto em que as idéias se perderam, as narrativas tornaram-se conflitantes e por fim, encontrei-me imerso na mais completa cegueira do esquecimento.


Esquecimento; omissão, descuido, falta de atenção ou interesse, tirar da memória, ato de perder a lembrança de algo ou alguém. É como você acaba. No mais completo e silencioso esquecimento; como contos circulares, cujo ponto de partida é analisar a trajetória de tudo o que foi dito, onde os acontecimentos outrora escritos com variedades de recursos estilísticos servirão, na verdade, somente como fonte de arrependimento e embaraço.


Do esquecimento, faço minhas piadas pessoais. Do esquecimento, meus olhos, já avermelhados da leitura de meus fracassos, passaram a desistir. Do esquecimento, postei a calmaria da alma. Do esquecimento, perfurei a lucidez de minhas escolhas. Do esquecimento, emudeci a beleza que há na vida. Do esquecimento, agarrei-me àquilo que achava ser indício de vida....


...E se me perguntares se continuo avançando, direi que: "sim, mas avanço em volta dela e , só, por ela."

domingo, 10 de agosto de 2008

Do que ficou pelo Caminho.

Algo de crônica, um pouco de drama, muito de pessimismo. Nada de fé, o suficiente de certeza e a simplicidade do tom da respiração. Evocando o território de sua íntima estranheza, fazendo do mau-gosto a própria voz. Estreou na prosa com formato cômico, estreou na vida como quem esqueceu as chaves de casa, como quem tropeça nas palavras e ama o que acabou inventando. Algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa, muito de palavras não ditas, um excesso de sentimentos abafados, doses exageradas de abstração, alheio ao próprio suplício.

Em meio a um episódio corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica, a dúvida do amanhã, a vontade de ir embora, a saudade do que não viveu. Ecoa nos textos o que ficou para trás, traz consigo todo o infortúnio da rejeição. Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio, e a grandiosidade que há nos detalhes. "Se há morte no amor, que seja por ela e mais ninguém."

Em Sete meses, poucas palavras ditas, muito de suspiros inequívocos, quase nada de sol. Sóbrio, desatento, inanimado, cinza, amargurado. Nas crônicas, uma temática comum a sua poesia. No seu cotidiano, a busca da essência do que já não é mais seu. Um mundo com nuvens densas e isolamento opcional, perfeito.

Há nas palavras uma forma sutil de descrever o mergulho na dor; um gesto singelo, como perceber que os termos que regem a vida são ilegíveis e incompletos. Das festas que não fui, arrependo-me apenas, daquilo que me tornei.

sábado, 2 de agosto de 2008

Cartas mortas.

Sábado, janeiro 31. Deitado no sofá, pensativo, imerso em toda aquela solidão e angústia, incapaz de mover um músculo. Seguro de que as paredes me faziam companhia e de que os quadros já não se importavam mais com minha presença. Desejava ter vodka comigo, mas o mais próximo disso que consegui encontrar na geladeira foi iogurte Diet de morango. Desejando que o sol morresse, amargurado, irritadiço, agastado de toda aquela diversão comunal. Imaginando um tempo nublado, um céu plúmbeo. Um olhar perdido, sem foco, desnaturado. Implorando para que ao menos uma vez na vida, cinzas pudessem cair do céu. Antecipando as próprias palavras, queimando vestígios biográficos, calculando quanto tempo mais teria de agüentar o próprio pensamento.

Havia passado horas revirando gavetas na esperança de reencontrar o passado, estava exausto. Na expectativa de desvendar o timbre desgostoso com que levo a vida, optei por ligar a televisão e ficar em silêncio, meu melhor silêncio. Na infantilidade de sentir saudade do que não existiu, deduzi que fosse morte. Ouvindo o som da própria respiração, trocando de canal insistentemente até ver o meu rosto no reflexo mórbido das propagandas.

Do sofá, eu e meu pote de iogurte avistamos, ao que parecia ser, um sinônimo de vida entre o vão das paredes: uma flor já meio murcha em um terrível jarro azul. Jogado de forma lastimável naquele móvel, cheguei à conclusão de que mesmo se meu decrépito espírito optasse por ajudar trocando a água do jarro, no máximo, estaria adiando seu fim trágico em algumas horas. Permaneci imóvel. Meio que de forma egoísta, senti uma profunda inveja da pequena flor, não exatamente da flor, mas de seu estado terminal. Toda aquela visão poética me lembrou que não sou terminal, sou apenas decadente.

Estiquei a mão pegando uma caneta na gaveta mais próxima; anotei no braço um compromisso falso para ter certeza de que ainda estava ali, de que ainda estava vivo. Continuei lá, deitado, gastando o tempo para não ter que preenchê-lo com ninguém. Minha respiração era cortada por suspiros, os olhos permaneciam caídos e uma expressão cadaverística tomava conta de meu semblante. Ajeitei meu cabelo na concha dos ouvidos, concentrei a voz e lembrei então que ainda era fulminado de paixão por ela. Sábado, janeiro 31, meu fracasso social, meu sucesso solitário, a angústia mais solitária da razão.


PS: Por óbvio, que as dores sejam só poesia.

domingo, 27 de julho de 2008

Garanto que sei sambar.

Pensei que fosse fraqueza, covardia, retrocesso, bobagem. Mas não. Era pavor de que os próximos dias apagassem a memória dos dias anteriores. Sem ela perdi o rumo, perdi a voz. Viver adiante é deixar de viver atrás, é deixar de viver o que acabei inventando nos dias que não consegui esquecê-la. De vez em quando, travo o passo no meio da rua, respiro fundo, ajeito os óculos, olho para o chão e me concentro para reconstruir cada detalhe que não vivi. Desaparecem as sutilezas, o que não vi para ao menos lembrar, o que não ouvi para opinar, o que deixei em branco para não falar.

O que acontece de forma natural e espontânea para os outros, pra mim é quase impossível; Telefonemas, declarações vagas de amor, programas bobos de final de semana, companheirismo etc. Tudo muito longe do que minha realidade permite. Acho que compliquei tanto que me esqueci de viver o amor como se deveria. Deduzo as letras por antecipação para não deixar morrer a linguagem. Complico o amor para não ter que ficar refém das incertezas do início.

Sempre acreditei que a verdadeira função dos beijos fosse, na verdade, apartar o excesso de palavras. - O problema é que falo demais - . Faço do contexto um exagero áspero, inconstante. Meu silêncio é carregado de fragilidade. O excesso de contingente de minha imaginação torna o impensável adequado. Ser contraditório me faz bem, gente linear é gente comum, gente que acredita na sorte do orkut, gente burra. Admito estar completamente perdido, admito não me encaixar em nenhum tipo de grupo social, admito estar sozinho, admito também não ter para onde ir e nem como chegar, mas minha memória não dorme sozinha, não temo a solidão. Em último caso, eu me acompanho.

“Sim, já sei...
Há uma lei
Que manda que no sentir
Haja um seguir
Uma certa estrada
Que leva a nada.

Bem sei. É aquela
Que dizem bela
E definida
Os que na vida
Não querem nada
De qualquer estrada,

Vou no caminho
Que é meu vizinho
Porque não sou
Quem aqui estou.”

Fernando Pessoa.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Por aqui, por ali, por acaso.


Achei que não fosse sobreviver. Quando alguém vai embora leva muito mais que a escova de dente, leva consigo parte do que era alegria disfarçada de cotidiano. Não demoro em voltar, não demoro em sair, não demoro em tentar disfarçar o vazio que ficou. Troco os móveis de lugar, abro a geladeira para pensar, reviro as gavetas, invento distrações, tento dormir vendo TV.

Por piedade, não me deixo viver o que posso, que me seja permitido, o que poderia ter feito e deixei escapar. Quero acreditar que me abandonei por convicção. Faço de conta que vivo em outro mundo para poder me assistir. O isolamento é quando não basta a liberdade para ser livre. Meus olhos ficaram gratos quando ela acenou e pensei que fosse comigo.Quem ficou pra trás sofre mais, por todo canto ouve-se as vozes, sente-se a presença.

Quem foi embora tem a oportunidade de recomeçar, quem foi deixado precisa conviver com as lembranças. As duas visibilidades retraídas não têm o mesmo peso. Não deixa de soar estranho que o quarto pareça maior, que a casa pareça estar mais silenciosa que o habitual, que aquele filme já não tenha mais a mesma graça.

Os dias se arrastam, ficam como brechas em uma estante. São dias cinzas, amargos, irritantes, vagos. Por vezes, desejo ser recordado por aquilo que esqueci. Aquilo que esqueci não cabe não cabe nas palavras, não cabe no que ficou pra trás, não cabe no vazio do quarto. Há tanta coisa que deveria ter dito, tanta coisa que ficou sem explicação. As lembranças ficam como dúvidas que a mente responde e não explica.

Cheguei ao fundo do poço quando me flagrei conversando sozinho com um pote vazio de iogurte de morango. Escrevi em um pedacinho de papel algumas palavras na esperança de que ela voltasse, no entanto, minha letra sempre foi muito feia para dar de presente a alguém. Gostaria que ela tivesse deixado ao menos a escova dente, talvez assim tivesse coragem de estar lá quando ela estivesse partindo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Variações de um mesmo eu.


Procurei pelos cantos da casa, pelos cantos do quarto e não havia ninguém. Fui até a rua, olhei para os lados, nada. Olhei em minha velha caixa azul, nos meus escritos, em minha mente, nenhuma pessoa. Só havia o som de minha respiração. Deitei-me na cama e fitei o teto. “Onde diabos foram parar as pessoas?”. Então me lembrei de quem era e de como mandei todas embora.

Revirei apressado as gavetas à procura de meu celular. Precisava ligar para alguém, falar com alguém, dizer que sentia muito, dizer que queria mudar, dizer que não fazia aquilo por mal, dizer que me tornaria uma pessoa melhor. Ao encontrar o aparelho, cheguei a brilhante conclusão de que não servira de nada. “Que tipo de gente não tem nenhum número anotado na agenda do celular?!”. Dei conta que sou esse tipo de gente. Engoli seco o gosto amargo do isolamento. Minha vida começa e termina em uma ausência total.

Priorizei versos brancos, curtos, com variações esparsas. Só consigo acreditar em mim quando estou sozinho, fechado em meu mundo, tentando evitar a vida que segue lá fora. No meio do caminho, perdi o discernimento, demorei a retornar ao mundo real, tornei-me aquilo que todos odeiam. Fiz da minha imaginação memória que não aconteceu. Fui rude, hostil, invasivo. Minha densidade psicológica se expressou na ambientação externa de minhas agressões, nas infantilidades de minhas atitudes, nas lacunas de minha habitual falta de fé.

Minha irritação provém da falta de capacidade que tenho em me relacionar com as pessoas. Consigo somente escutar meu silêncio. Silêncio que é desespero. Falo para não me ouvir. A imobilidade da fala me traz conforto, o silêncio completo não existe, um som não pode ser fracionado até o fim, sempre fica algo dele, assim como sempre fica um pouco de cada pessoa com quem se convivi.

Harmonia é conviver com a verdade, não com as aparências. Ser sincero até nos próprios erros. Eu me fechei para o mundo, vivo no confinamento do tempo, "é que lá fora, dói-me a garganta só de pensar, não existe mais vida". Ainda que pareça insano, meu afastamento é um esforço de recuperação de uma vida não vivida. Nada mais interessa a aquele que perdeu o significado de viver. Só resta esperar e zelar pelo seu fantasma em vida.

O monólogo, a princípio uma saída temporária, assumiu a forma de como vivo. Procurei pelos cantos da casa, pelos cantos do quarto, procurei no íntimo de minhas aflições, procurei em baixo da cama, procurei até os olhos cansarem. Não havia ninguém, somente o timbre seco de minha estupidez. Antes entrar em pânico, respirei fundo e tentei manter a lucidez, pois estar sozinho há tanto tempo, faz com que eu comesse a sentir saudades daquilo que sei que é mentira.

sábado, 12 de julho de 2008

Com a igualdade do início.


Minha biografia pedia um protagonista desprezível. Alguém que não valesse um copo d’água, o ar que respira, o chão que pisa, alguém que fosse tão cretino quanto os vilões da novelinha teen das 6. Precisava superar o habitual , falar unicamente com a alma, precisava parar de ser o capacho humano dos outros.

A vontade de me livrar daquela personalidade era tanta que, apesar de todo universo filosófico impregnado em meus pensamentos, juntava-me a eles para rir de mim. Fui durante muito tempo um poema sem título, opaco, coadjuvante, esquecido, transparente. Minha vida dava seqüência somente à biografia de uma Árvore. Meus sentimentos só serviam de gerador de possibilidades semânticas. Escondia todas as minhas referências culturais e poéticas para ser como eles.

Meus diálogos agora possuem um tema desempenhado com particular intensidade e decadência. Minha descrença na vida combina melancolia e a amargura de quem já desistiu há tempos. Por vezes, certas coisas que digo são abstrações poéticas de carga altamente afetiva, que acabam sendo na verdade, paradoxalmente, certo sentimentalismo envergonhado de aproximação e um grito desesperado de quem passou tempo demais sozinho.

É como se a matéria sentimental de minhas palavras estivesse mesmo ali, mas se disfarçasse na construção enigmática de minha covardia.. Em meu coração não há mais sinal de crença na justiça dos homens ou mesmo na de um Deus ausente. Perdi a fé até mesmo em mim. Acredito somente naquilo que inventei.

Algumas vezes, as palavras são distribuídas admiravelmente por esquemas de proporção, como facas que dilaceram a alma aos poucos. Algumas vezes por vontade própria, outras vezes por simples distração. Há ainda uma prática original de tortura falada, como os apelidos. Justapondo-se linearmente com a aparência física e jeito tímido de ser, de modo que não mais se traduz em inocentes brincadeiras, mas em uma ocasional vontade de menosprezar a outra parte. O melhor da infância, foi ter saído dela.

Durante muito tempo, restou-me somente a tradução de fragmentos de uma auto-estima destruída, de modo que a própria idéia de uma criação de outra personalidade fosse impossível. Frequentemente, entre minhas alucinações e as contingências triviais do cotidiano, um lado de mim ensaia as ofensas que direi durante o dia, o outro lado, procura as melhores desculpas para a posterioridade. Há mesmo uma obstinação regressiva em mim, uma obstinação que busca esquecer a identidade do passado, ignorando por completo o cara legal que um dia fui.

O conjunto de minhas decepções, em todo caso, deixa nítida e significativa minha personalidade. E enquanto for conveniente, serei o cretino mais desprezível, desgraçado e detestável desse maldito lugar.

sábado, 5 de julho de 2008

9 Drinkes de uma mesma História.

Meu final é premeditado. Um livro velho amarelado, um filme sem muita graça, uma história que ninguém quer ouvir. Não tenho nada para contar. Não tive um câncer para vencer, não viajei o mundo, nunca sofri um grave acidente, não tenho uma história de superação para compartilhar. Sou somente uma paisagem banal, um rosto na multidão, um nome na chamada, um teatro inventado. Minha vida foi tão interessante quanto uma tarde rasa de uma Quarta-feira mofada.

Cansei de ouvir pessoas dizendo que não aproveito a vida. Pois que saibam, o final da vida é o mais importante. Eu transformei meu final em um livro que não escrevi. Conte-me o final de minha vida, eu não me importo. Estou fazendo do meu final meu espetáculo. Meu declínio social não incomoda. O final da vida não altera meu endereço, não altera minha rotina, não me faz acreditar em anjos, não me faz querer ver o sol se pôr. As tardes lentas de domingo continuarão as mesmas. Minhas pernas não se adaptaram ao ritmo dessa vida, portanto, estou de partida.

Durante algum tempo tentei voltar ao passado para tentar criar o que não existiu, mas não fui forte o suficiente. Acumulei minha sobrevivência até onde a voz permitiu, forcei o riso até onde meu desinteresse aceitou. Desisti de procurar no dicionário termos que pudessem definir o que sentia. O final do meu livro não vai alterar a insuficiência de minhas atitudes em vida. Viver não é obrigação, é escolha.

Escrever é não estar tão distante. A diferença entre ser e estar já caracterizava a operação literária do meu final. Minha vida foi dispersa, imersa na evocação do meu tédio. Reconheci meus erros, interpretei minhas mentiras, já posso partir. O meu final se predispõe mais no silêncio do que na vida e transcrever essa vida em verso e prosa, significa rejeitá-la novamente.

Minha voz só terá vez quando se calar. Quero a última página do meu livro em branco, pois somente assim, minhas realidades poderão continuar conversando. E se perguntarem por mim, digam que fui tarde, que fui um cretino. Só não se esqueçam de colocar em minha lápide: “foi poeta, sonhou e amou na vida

terça-feira, 1 de julho de 2008

Que seja por um dia.

Não sei mais separar o que vivi do que imaginei. Um dia em que não pense nela é um dia que não existiu. Imagino-a em carros que passam, em corredores vazios, em salas de aula que ainda não encontrei, em filas de cinema, nos cantos de minha imaginação, nas lacunas de minha lucidez, nos outdoors do meu fracasso. Escrever foi a maneira que encontrei de mantê-la viva em meus pensamentos. A realidade foi bem menor do que desejei. Nunca fui de enumerar os dias que vivi, o que vivo já não interessa. Agora, conto os dias que faltam para que ela se torne somente uma lembrança. Eu não existo aqui, existo naquele momento em que passei a desacreditar na própria capacidade, existo quando lembro daquele sorriso, existo quando penso em pedir pra voltar, existo quando lembro que ela dizia que me odiava, existo em cada dia que penso nela. Agora sou minha própria metáfora. Estou sóbrio há muito tempo e começo a duvidar se ela realmente existe. Escrevo cartas que sei que não vou mandar, cartas que significam minha falta de coragem de falar ao vivo. Em minha defesa, digo que é preciso muita coragem para a covardia, puxar o gatilho nem sempre é desespero. Não suporto a complacência dos otimistas, sei que ela não vai voltar, sei que ela não vai ser minha, sei que tudo não passa de mentira convencida. Todo amor é um modesto esforço de mentira convencida. Se não for mentira, não é amor.
(...) Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos Paralelos
Frente a frente...
Pensar talvez:
"Paralelos que se encontram no infinito...".
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas. (...)

“Neruda”.

Sem a pretensão de poemas, sem a concordância dos defeitos e com argumentações cafonas sigo ignorando a realidade. As verdades foram pré-concebidas, verdades que ultrapassaram a explicação. Faço da matemática literária o descontrole de minha paixão. Sem ela não vivo.
“Fica comigo, fica comigo pra SEMPRE”. Não posso, “pra sempre” é muito tempo e eu tenho aula na Segunda.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sintonia.

Todos os dias, quando me flagro pensativo, tenho as mesmas variações poéticas daquela cena. Nunca fui sóbrio o suficiente para pedir desculpa, mas sóbrio o bastante para dizer "Adeus".
No dia em que disse “Adeus” à ela, escrevi cerca de 13 poemas em versos livres, três crônicas amargas e um ensaio de despedida inexistente. Por três vezes achei que não suportaria, por três vezes desisti, por três vezes fui ao inferno, por três vezes a odiei. E por todas as manhãs, acordei apaixonado por ela.
Foi a forma que encontrei de abrandar o coração e suavizar a alma. Os versos dedicados à ela beiravam o desespero. Concentrava as principais virtudes do sentimento, uma visão filosófica sobre o trivial e o excesso de memória que ela deixou.
As palavras não foram capazes de exprimir o que desejava dizer. Se errei, foi por desconfiança da própria voz. Se me escondi foi por covardia. Se desisti antes da hora, foi por amor próprio não correspondido. Se não me esforcei para fazer acontecer, foi pelo timbre amargo da desconfiança.
Durante algum tempo, vivi confortável como uma citação, entre tuas aspas. Estive muito perto da loucura e toda vez que tentei uma reaproximação, pensei que fosse morte. Não lembro dos teus olhos, mas não esqueci teu sorriso.

“Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.(...)
(...) nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.”
Pablo Neruda

Eu amava o que não era. Amava o que não existiu. Amava o que era fantasia, ficção, delírio. Sem ela não tem graça, sem ela não quero mais ficar. Depois dela, eu me isolei para sobreviver e não sobrevivi ao próprio isolamento.
Se há uma morte para amar, que seja por ela. E mais ninguém.

Considerações Finais.

De onde tirou a idéia de montar o blog?

O primeiro texto que escrevi foi no dia em que tomei a decisão de parar com as aplicações de insulina. Aquilo foi meio que assinar o próprio testamento, foi como ter certeza de que a lápide estaria pronta muito antes do esperado. Foi a maneira que encontrei de morrer antes do corpo, recosturando o significado das palavras, procurando extravagâncias, sinônimos e acepções que pudessem explicar o porquê de minhas atitudes. Tinha muita coisa a dizer, ninguém para ouvir.

Por que não montou um álbum de fotos? Seria bem mais Cômodo.

Imagens feitas por encomenda, flagrando a ebulição de tipos e personagens, sempre me pareceu uma forma de insulto à inteligência. Meu talento é ampliar e distorcer emoções, emudecer situações, arquitetar aflitos e maltratar pessoas. Gente que recorre a álbuns de fotografia é gente comum, são pessoas prontas de microondas. Fotografia é lugar de moradia, meus textos servem de desistência. A imagem eterniza o momento de forma superficial. As palavras descrevem os sentimentos. Além do mais, não sou fotogênico.
:)

Como tem sido ficar calado?

Meu despojamento está muito próximo do exagero. Aumento a potência metafórica para dizer pouco. Depois de algum tempo calado, pode-se enxergar relações lineares entre objetos e seres díspares. Ultimamente não tenho dito muita coisa e quando o faço, são frases avulsas, sem muita importância. È como ser anônimo para si próprio.

A filosofia tem ajudado?

Tenho vagado entre a filosofia e a poesia. Da filosofia, guardo o alentado poder de interrogar o espanto, expandida à perfeição pelas fagulhas de Nietzsche, os silogismos amargos de Álvares de Azevedo e as palavras de Márcia Tiburi. Minha tendência poética tem-se mostrado sóbria, muito próxima da verdade. Recorrendo sempre a tom de desespero fictício. Minha carga filosófica tem um visível teor caótico. Faço de minhas atitudes poesias, e tenho nessas poesias o ritmo e a captação dos contrários. Depois de algum tempo descobri que o difícil não é encontrar a verdade: a parte complicada é, na verdade, organizá-la e aceitá-la.

Como é viver “cumprindo tabela”?

É, basicamente, viver disfarçando a vida que segue lá fora. É onde acontece o encontro das idéias e a inutilidade dos passos. Fiz do meu epitáfio um cartão de visitas. Entre versos desmemoriados e teorias desnecessárias, descobri que fui capaz de resumir a vida em duas linhas. No estranhamento dos costumes e na capacidade de extrair o deslumbramento da ordem mais corriqueira, optei por desistir.

Considerações finais?
Estou farto de toda essa eternidade.

Traço de audiência.

Falar de amor não é amar. As palavras não significam nada se comparadas com atitudes e gestos. Falar de amor é recorrer à arrogância das palavras, falar de amor tem sempre um tom de confissão, falar de amor é antiquado, é brega, é demonstrar carência. Durante muito tempo falei, não só falei, mas gritei, julguei, defini, ignorei e por fim, optei pelo silêncio.
Os sentimentos estão fora de moda, tudo foi transformado em uma grande festa rave e por vezes me deparo com frases clichês do tipo: “A vida é feita pra ser vivida”, “Aproveite cada momento”, “Don’t worry, Be Happy”, “Seja feliz”. Pro inferno com todas essas citações vagas. Todas tão iguais, tão humanas, tão previsíveis, todas igualmente inúteis.
Minha respiração muda de acordo com a intensidade das pessoas, do sopro ao suspiro, da inspiração à falta de ar. Tenho evitado respirar desde então. Meu silêncio é criminoso. Não falar é agressão, é falta de respeito, é falta de civilidade. Sempre taxativo, superficial e duvidando da vida, desmantelando emoções e inventando aflições, sofrendo por antecipação e sendo o mais desprezível possível. Não importa se alguém vive bem ou mal, desde que viva. E quando digo que já desisti, acho graça daquele habitual ar de reprovação da outra parte.
Meus encontros e despedidas ainda repercutem em minha mente. Mesmo sem enredo, as lembranças insistem em não dormir, finjo não me importar, tento não dizer nada. É tudo mentira convencida, conversa desnecessária, razão que não precisa rimar com nenhuma regra, falsas urgências, realidade concreta de uma vida em paralelo. Falar de amor não é amar.
Sou minha própria descrença, gosto das vaias e do descaso pessoal. Dos acasos do cotidiano fiz minhas escolhas, dessas encolhas, montei meu espetáculo e ninguém comprou ingresso. Minhas palavras controlei pelas hastes, fiz da vida uma poesia sem passado. Tropeçando nas próprias atitudes e afogado nos próprios conceitos, ainda uso a compaixão de forma tangencial. Falar de amor não é amar.
Continuarei falando de amor, assim como continuarei conversando com o espelho para aprender a calar. Minha solidão não é esporte coletivo, solidão essa que não escorre pelos olhos. Por vezes segurei as lágrimas para não deixar escapar uma sua, lágrimas essas que possuem sempre dois terços de despedida. Os amores que não amamos também fazem parte de quem somos. Não sei ao certo se algum dia a encontrarei, mas gostaria que ela soubesse que estará sempre em mim.
Falar de amor não é amar, então eu me calo.

Monólogo

Oi, já faz um tempo, né?! -silêncio-.
A gente podia, sei lá, conversar um pouco, que tu acha? –silêncio- É, eu sei, não tenho muito há dizer.
Então, que tal marcarmos um cinema? Ta a fim de ver aquele filme? –silêncio - Não, né?! Você já viu esse filme.
Que tal sairmos pra uma balada, descontrair, dançar bastante! – silêncio – É, eu sei, não sei dançar, nem sou do tipo que sabe descontrair.
A gente podia reunir os velhos amigos, colocar a conversa em dia, juntar o pessoal, sabe?! – silêncio- É, eu sei, não tenho amigos, não há conversa para por em dia e nunca houve “pessoal”.
Soube que tem um parque na cidade, a gente podia ir, que tal? – silêncio- É, tem razão, nunca fui muito social.
Você continua linda. Éramos muito amigos, lembra? –silêncio-.
Então, em nome da nossa velha amizade, que tal viajarmos? Ir pra um lugar distante onde o passado não nos incomode – silêncio- É, não tenho dinheiro pra viajar, aliás, não tenho dinheiro nem pra xérox da faculdade.
Bom, você está namorando, né?! Até antes de você trancar o álbum do orkut, eu sempre notava que você estava feliz. Ele deve ser um cara legal! Bem melhor do que eu sempre fui. – silêncio-.
É muito bonito o carro dele, deve valer mais que a minha vida. – silêncio-.
Sabe, seria ótimo se ele fosse um crápula, um cafajeste, um cara frio, distante, que não ligasse pros seus sentimentos, dessa maneira, eu poderia fazer uma entrada triunfante e te salvar das garras dele. Vi isso outro dia na novelinha teen das 6, ao menos, lá, deu certo. –silêncio-. Só que eu sei que ele é um cara gente boa e sei que tu gosta dele.
Acho que eu sou o vilão, acho que fui, sou, o cara frio e distante. – silêncio-.
Ainda continuo te imaginando em cada dias nublado, em finais tristes e em dias não vividos – silêncio-.
Parece que foi ontem que terminamos. –silêncio- Eu sei, sei que nunca começamos.
Ainda tem vontade de ir pra França? – silêncio- É, eu sei, isso não é mais da minha conta.
Já faz um tempo razoável desde a última vez que nos vimos. – silêncio-.Se bem me lembro, 7 anos.
Eu vou estar mentindo se disser que não gosto mais de ti e quando me pego pensando em você, lembro-me que sou completamente louco por esse sorriso.
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-silêncio-.

Te amo pra sempre.

Falar da proximidade de relacionamentos tem sido um de meus passatempos.
Faço isso para afugentar a distância. Distância dos fracassos sentimentais. Distância que eu mesmo criei.
Vejo pessoas apressadas em dizer que amam. Três dias de relacionamento e "te amo pra sempre". Esse tipo de pessoa faz isso para não conviver com as dúvidas e tampouco gerar suspeitas da legitimidade do sentimento. – patético -.
Há uma pressa coletiva pelo final em todo o início e há uma pressa pessoal pelo início em todo o final.
É obrigatório dizer "eu te amo" para continuar e formalizar o laço.
Pode ser que seja paixão, mas o termo "eu te amo" pula da boca mesmo quando não é solicitado.
Talvez seja atração, mas a expressão "eu te amo" fica sentada na primeira fila até se tornar vaga. Vaga o suficiente para ser comparada com um simples "bom dia". – patético -.
Não que seja totalmente desonesta esse tipo de declaração, mas acredito que a pressa em tentar demonstrar algum tipo de afeto pela outra parte atropela o verdadeiro significado do sentimento. Não reparamos quando definimos ao longo dos dias quando se ama verdadeiramente, simplesmente acontece.
A precipitação do amor é um modo de garantir de vez um relacionamento - patético - .
Tenho a impressão de que dizer "te amo" algumas centenas de vezes ao dia é uma maneira de assegurar que aquela pessoa é sua, e que não mais corre o risco de perdê-la. - patético -. e caso nenhum dos dois fale, amarga-se uma sensação de inutilidade e de desprezo.
Vejo no relacionamento de algumas pessoas que o termo "amor" faz-se por necessidade, não como uma escolha e opção de vida, mas uma exigência.
Minhas feridas, sede e angústia que não se reparte proibi-me de sentir algo assim.
O "amor" pra mim é um mistério que não será abolido e que permanece maior do que a clareza arbitrária da outra parte. O amor depende da penumbra e da insuficiência.
Recuso-me a aceitar a natureza inexplicável do amor e por pura teimosia tento explicá-lo. Mediante meu jogo de comparações, uma definição reforça a outra até se confortar com a sensação de que o amor morreu de vez.
Ainda que incomparável, o amor se faz pela comparação com experiências anteriores. Define-se pela sua força em sobrepujar as lembranças e relações anteriores.
É a superação do que foi vivido que valida ou não sua intensidade.
No meu caso, preferi cultivar rancores.

O melhor da festa.

“Quantos graus?”, “6,75”. “Isso é ruim?”, “Sim, as coisas não estão nada bem para você”. “Existe tratamento, algo que eu possa fazer para reverter?”, “Não”. “Cirurgia?”, “Não, seus níveis de cura estão baixíssimos, sua córnea não cicatrizaria. Onde conseguiu esse corte no queixo?”, “Fazendo a barba”, “Está aí há quanto tempo?”, “Duas ou três semanas”, “Já deveria ter cicatrizado”, “É, eu sei. Alguma possibilidade de transplante?”, “Não no seu caso”. “Quanto tempo tenho até ficar no escuro?”, “10 anos talvez”, “Por mim tudo bem, é tempo suficiente. Têm um cigarro aí?”, “Você não pode fumar aqui”, “Eu sei, eu não fumo, só achei que o momento pediria um”. “Pode ficar à vontade se quiser chorar”, “Eu não choro, isso nunca resolveu nada, nem vai resolver”, “Nós temos acompanhamento psicológico aqui, posso te indicar um profissional da área”, “Não obrigado, não preciso de ajuda. Terapia é para pessoas fracas. No meu caso, os problemas são fictícios, posso suportar sozinho, só preciso de vodka”, “Beber não vai ajudar”. “É, eu sei, mas vai tornar tudo bem mais interessante”.
Meu espírito já não pesa mais. Minha linguagem já disse tudo que deveria ser dito. Com a igualdade do início, retomo o ar e finjo que nada aconteceu. Esqueço as aflições e me junto ao tédio, olho para o céu e já não procuro Deus. Mesmo que os milagres atrasem, mesmo que a salvação ainda esteja por vim, mesmo que o fim não seja um recomeço.
Já não tenho mais certeza da minha própria voz, não tenho mais certeza de quem sou, à qual lugar pertenço ou com quem deveria ter ficado. Paira sempre a impressão daquela vida não vivida, das oportunidades perdidas, dos beijos não dados, dos amores que mandei embora. Quando a palavra não depende mais dos atos, sobra somente a respiração, respiração que identifica minha presença, que não me deixa dormir, que não me deixa partir, respiração que é metade amor, metade ausência.
Os sentimentos sempre foram maiores do que a realidade permitiu e isso só me faz lembrar que nunca soube como começar o assunto. Desesperado depois do primeiro “oi”, a única alternativa era recolher as palavras antes que as mesmas denunciassem meu mal-estar. Pontual, definitivo, fatalista, cinza, desassossegado, inquieto, todos adjetivos de uma personalidade já sem muita graça. O que não vivia era mais meu, o que era descartado agora me interessa, o que foi desespero agora é passa-tempo, o que já não tem cor é bem vindo ao espetáculo, o que é triste tem seu valor e se estiver no fim, melhor ainda.
A angústia concentrou a respiração. De agora em diante, basta somente fingir que está tudo bem. “Sorria e acene”. Depois de um tempo a voz transforma a mentira em verdade convencida. “Sorria e acene”. Não importa o quão destruído esteja por dentro, “Sorria e acene”. Deixe que tua moldura fale por ti, ninguém vai se importar com a complexidade da obra. Da solidão das cadeiras e com o timbre de quem já desistiu, meu espírito deixou de pesar. Falar não é mais necessário, com a igualdade do início, “deixo a vida como deixo o tédio.”. Sorria e acene.
Sem retorno e sem ambição, o momento pede somente um cigarro.

Qualquer lugar.

Dezembro de 2006. Naquela manhã eu estava livre. Sem culpa, sem medo, sem responsabilidades, sem toque de recolher, sem preocupações, sem remorsos. Acordei, olhei para o teto e com os olhos ainda inchados deixei escapar um longo sorriso. Naquela manhã a casa estava silenciosa. Não havia ninguém, todos estavam viajando, teria o mês todo para mim. Havia somente eu e minha imagem no espelho. Naquela manhã a vida corria solta. Férias do trabalho, férias da faculdade. Mesmo com o sol reinando absoluto lá fora, era um dia bonito, bonito como um dia nublado. Naquela manhã, optei por passar o resto do dia de pijama. Era a manhã mais doce de minha vida.
Abril de 2008. Pergunto-me se o azul realmente precisaria estar no céu. As coisas que outrora acreditava, agora são tão bobas que chego a rir de quão ingênuo era. Abdiquei do “final feliz” como quem se despede da vida. Em que canto da memória me perdi? Em que momento deveria ter ido embora? Em que instante minha ausência superou a fala? Quanto custa ser especial para alguém? Quando é que sabemos que estamos mortos? Perguntas que não se calam, respostas que não tem mais importância.
Não há como definir o motivo para desistir dos planos. Simplesmente desvanece, simplesmente morre. As escolhas que fiz não prestam mais, só há a certeza de que errei, certeza equivocada, certeza que não mente, certeza que dilacera alma, certeza de não poder voltar atrás, certeza de estar morto em vida.
Terminarei no maldito álbum de retratos. A convivência consolidou o tédio. Sem planos, sem perspectiva, sem narrativa, sem vontade para brincar de existir. Vou refazendo o passado com uma inusitada imperfeição patológica e não me interessa o futuro. Onde errei? Por que errei? Por quanto tempo errei? Não vou apelar para remédios, quero encarar meus demônios de frente. Sóbrio como quem recebe a notícia que fracassou em tudo, lúcido como quem deixou o amor morrer, presente como quem foi embora antes do final.
Agora sou minha própria distração. Personagem criado para servir de figuração, coadjuvante da minha própria história, ator que não tem fala, scripit sem final feliz, um livro que ninguém nunca lê. Juro, juro que tentei existir. Juro que tentei fazer as coisas do modo certo, juro que tentei seguir os padrões, juro que tentei espetar o cabelo com gel, agir como burro e ir para o carnaval. Juro que tentei. No entanto, minha ladainha anti-social falou mais alto.
Exilado, apartado da sociedade, sozinho, jogado na cama e olhando para o teto. Imbuído de pensamentos negativista, afastado do mundo lá fora, excluído dos grupinhos. Por mim tudo bem. Só acho graça de quem tenta ajudar. Há uma necessidade cultural de puxar conversa com quem está calado. Como se falar fosse uma obrigação, como se desabafar fosse ajudar, como se interagir fosse me tirar do abismo. Tenho cruzado com tantos psicólogos de corredor, tantos psicanalistas de Msn, tantos terapeutas de final de semana. Para que aprendam, os pensamentos começam a falar somente quando paramos para ouvi-los e para isso, faz-se necessário SILÊNCIO.
Meu desespero é fictício para quem o vê de fora, meu caráter é altamente dramático para quem assiste de longe, minhas atitudes são cênicas para quem acha que me conhece. Por favor! Entendam, achar que se conhece alguém é na verdade desconhecê-lo por inteiro.
O azul não precisa estar no céu, aquela manhã de dezembro não precisa voltar, o coração não precisa parar de bater, a existência não precisa parar de fluir, o mundo não precisa nos ouvir, só exijo silêncio. Silêncio e um mínimo de alfabetização.
Estar deprimido não é de todo ruim, a depressão é somente um entusiasmo para quem pensa demais. Simples assim.

O Sempre ainda é pouco.

Pede-se transparência como se fosse fácil. Pede-se a verdade mesmo que ela possa ser desesperadora. Pede-se sinceridade como nunca se viu antes. Pede-se um minuto de seriedade e atenção. Pede-se que puxe o gatilho. “Então você não me ama mais?”. “Não, não mais”. Falar com tal franqueza esquecendo que existem sentimentos por detrás envolvidos é ato de crueldade. Conhece-se o conteúdo, conhecem-se as certezas, conhecem-se as falhas, conhece-se o olhar e ainda sim, aquela ocasional vontade de ser estúpido: “Não, não te amo mais.”
Não acredito que exista amor errado, existe somente o amor que não se convenceu, amor que se esqueceu de reinventar, amor que esqueceu de bater à porta. Ser sincero é afastar, é repelir, é mandar embora, é pedir para que o outro saia em silêncio, é maldade comportada. Ser sincero tem um Q de facilidade expressiva. Outro dia, dei de cara com algumas declarações de amor no orkut de um casalzinho tão doce que fazia com que os níveis de açúcar em meu sangue se remoessem. Era um jovem casal, e como sempre, repletos de originalidades: “te amo pra sempre”, “você é minha vida”, Blá blá blá. Quanta besteira.
O problema não é o jovem casalzinho, o problema é comigo. Sou tão amargo que não acredito mais nas coisas simples da vida. Sou tão extremista que nunca me basta descer somente a rua, tenho sempre de descer ao inferno. Minhas ações são imbuídas de negativismo, mas que não recorrem a um tom de confissão, na verdade, demonstram minha inquietude com relação ao que é meramente normal.
“Meu filho, não está na hora de você arrumar uma namorada”. Comentário feito por minha mãe enquanto eu desperdiçava mais um dia de minha vida trancado nesse quarto. “Está na hora de começar a namorar”. Eu não sabia que isso tinha uma data certa para começar, algo do tipo, “faça agora ou seu prazo de validade vai expirar”. Vejo isso como aquela velha frase clichê “crescei-vos e multiplicai-vos”. – frase a qual sempre me pareceu um bom roteiro de filme pornô-. Não quero nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer. Não, isso não. Isso é uma biografia de muito mal gosto. Quero morrer todas as madrugadas e acordar mal humorado no dia seguinte. Não me convém começar a namorar por conformidade ou por arrumar alguém para passar o tempo. Se for para passar o tempo, faço isso com a televisão.
Acho que pertenço à geração ultra-romântica. Gosto de pensar que vivo o mal do século.Gosto das coisas complicadas. Minha comunicativa flui dentro de minha densidade. Estou sempre disposto a encontrar complexidade mesmo nas figuras mais simples. Raramente deixo de inflexionar a primeira pessoa do singular. Do “eu” para o “nós” a distância é de uma vida.
Venho atuando por aproximação e distanciamentos, avanços e recuos, pedidos de desculpas e hostilidades à parte. É o meu jeito de fazer as coisas de maneira errada. Encontro-me sempre em minha própria dispersão, acabei por identificar-me com minha concentração obsessiva. Vivo a vida quase desmemoriada. Entre livros e canetas, aulas e teorias.
No mais, tenho minha televisão como companhia. Só não sei ao certo...como troco de canal.

Segunda-feira.

E no final, tudo vai ficar cinza. Vou olhar para o quarto de hospital vazio e pensar: “Não valeu à pena”. Agrada-me a idéia de morrer sozinho. Vejo isso nos filmes e nos livros. Tão poético tão visceral. O problema com as pessoas é que acreditam que viverão para sempre. Eu já tenho a certeza de que partir não será algo tão ruim, ao menos, livrar-me-ei do tédio. Morrer, ainda que sozinho, sem visitas em um quarto de hospital pode não ser uma escolha, mas com certeza é melhor que definhar aos poucos em um asilo.
Não quero que seja rápido, nem indolor. Quero ter tempo para pensar, para refletir, para rir dos erros do passado. Quero tempo para lembrar que fiz aniversário nos últimos anos somente para tomar nota do dia em que nasci, sem comemorações, sem festas, sem planos de um futuro melhor, sem amigos, sem amores concretos, sem dinheiro, sem vida.
Quero tempo para pensar que recusei ficar com alguém para disfarçar a espera, esquecendo do egoísmo de prender esse alguém de uma nova chance, de uma outra paixão.
Quero tempo para pensar e acreditar que as pessoas se lembrarão de mim como aquilo que eu poderia ter sido. Quero recordar que sempre fingi estar bem para evitar sessões de terapia informais. Quero lembrar às inúmeras vezes em que usei a desculpa “o problema não é com você, sou eu”, para terminar os relacionamentos que nem começaram.
Quero lembrar que almoçava sozinho, jantava sozinho e me esforçava para manter-me ocupado. Vou lembrar que ligava a Tv para que ela me fizesse companhia. Não que estivesse prestando atenção no que ela dizia, mas as cores e ruídos faziam com que não me sentisse tão ausente. Vou lembrar que não tinha ninguém para comentar as coisas que escrevia. Vou lembrar que conversava em silêncio com a menina da biblioteca na esperança de um dia ter coragem para convidá-la para sair: “Oi, pego livros aqui há 2 anos, não tenho carro, grana, amigos, não sou bom de cama e nem sei dançar. Quer sair para tomar um café?”.
“Era uma luta arrancar aquele misógino do fundo da pensão em que estivesse para que fosse dar uma passeio com alguma daquelas prometidas.Por uma pelo menos ele se interessou - dizem que chegando à paixãoInutilmente, entusiasmou-se por uns oito meses no ano de 1882. Ela, no entanto, casou-se com o poeta Rainer Maria Rilke.Rejeitado e em estado lastimoso, dedicou-se a produzir candentes escritos contra tudo o que era estabelecido e até mesmo o que consideravam não convencional.Paradoxalmente, disse num certo momento, que não queria discípulos. Era sério? Teve-os aos montes. Perdeu a razão de vez em Turim, em janeiro de 1889, quando acharam-no aos prantos em um quarto escuro de uma pensão. Durante os dez anos restantes afundou-se numa densa névoa de pessimismo, tristeza e loucura. Morreu na pequena Weimar, sozinho, no dia 25 de agosto de 1900.”
Todos têm um super-herói. O meu é Nietzsche, morrer como tal não seria ruim.
Não me incomoda o fato de morrer sozinho, incomoda-me o fato de escrever para disfarçar a vida lá fora. Incomoda-me a certeza de que esses escritos serão meu único legado.

Talk Show.

É de conhecimento geral que você tem problemas com relacionamentos, mas por que não tentar? Muitos dizem que o amor surge da convivência. O que pensa sobre isso?
Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que sou um expectador. Gosto de ter em mente que todo relacionamento não é original. Dificilmente encontra-se algo de inovador neles. É sempre o mesmo arroz com feijão previsível. São sempre as mesmas frases e ações clichês. São raros os relacionamentos que serviriam de tema para um bom livro ou um roteiro de filme cult interessante. A grande maioria das relações cai em comodismo após algum tempo. De início vem a necessidade de exibir o novo troféu. Depois vem o sexo. Tudo muito novo, tudo muito divertido, mas até isso vai enjoando. Descobri-se uma curiosidade de experimentar novos ares e logo em seguida surgem as primeiras traições, ou pelo menos, insinuações das mesmas. Toda essa encenação amorosa faz com que eu tenha cada vez mais a certeza de que todo relacionamento é, na verdade, contraditório.
Então não há nada de bom em envolver-se?
Há sim. É aquela velha história, “Platônico enquanto durar, eterno enquanto eu te amar”. Enquanto um dos dois estiver se divertindo com o momento, não aconselho terminar nada. Principalmente se o convívio tem um tempo razoável de duração. Depois do término do relacionamento vem a fase da fossa. Ouvi-se música brega, as lágrimas correm sem permissão, procura-se sentido para a vida, enfim, tudo muito óbvio, mas o que mais me chama atenção nisso é a saudade dos defeitos. Com o passar do tempo nota-se que os adjetivos negativos são na verdade marcas pessoais. No começo as imperfeições são obstáculos, porém quando se termina “tudo” nos damos conta que sentimos uma falta imensa até mesmo das distorções que outrora incomodavam. E acredito que isso de alguma forma seja válido, porque é indício de que a convivência em algum momento foi verdadeira.
E como fazer para domar a solidão?
Hahaha. Isso é bem complicado, mas acho que recorrer aos resquícios da vida a dois pode de alguma forma aliviar a dor momentânea. Sempre sobra alguma coisa do relacionamento, mesmo que sejam só lembranças, mesmo que seja um relacionamento inventado, mesmo que seja um relacionamento à distância, mesmo que seja tudo imaginário. E é de lembranças que se engana o isolamento. Dentre os meus amores inventados, uma delas adorava café, eu, no entanto, nunca fui fã dessa bebida, mas no desespero em ter algo que aliviasse o desespero, andava sempre pelos corredores da faculdade com um copo cheio de café. Não que eu fosse tomar aquilo, mas o simples fato de sentir o cheiro amenizava a distância. Em outra ocasião, comprei um frasco do perfume que ela mais gostava, não para usar no dia a dia, mas para usar o perfume no travesseiro. Deixar o cheiro dela no travesseiro era de alguma forma, acreditar que ela estaria presente.
Você sabe que as garotas não estão nem aí pra esse lance de sentimentalismo. Por que simplesmente não encena o papel do cara normal?
Acho muito cômodo seguir os padrões que vejo por aí. Em tempos de festas rave, não há, de fato, espaço para pessoas como eu. Outro dia tentei desmistificar a gravidade das minhas opiniões para uma menina no msn, no final, além da sensação de tempo perdido ficou explícita sua vontade de dizer “enquanto você filosofa, as pessoas transam ”. Não posso competir com esses fatos. Primeiro por que ela está certa e segundo, é mais fácil “fazer como todo mundo faz”. Sei que tudo que acredito não vale de nada. Sei que as crônicas nunca trarão as mesmas satisfações que um beijo de carnaval. Sei que o cheiro do café não vai suprir o buraco da alma. Sei que o travesseiro aromatizado não é ela, mas gosto de pensar que o tempo está a meu favor. Gosto de pensar que o mundo gira na velocidade que bem entendo.
Pretende continuar errando?
Claro! Fazer as coisas de maneira deturpada é minha maneira de terminá-las. Se não for trágico, não tem graça. Se não for triste, nem me interessa. Se não for platônico, não trato com veemência. Sei que só posso preservar aquilo que perdi.

Ironia pessoal.

Depois da festa vem a ilusão. Esse devaneio bobo em achar que poderíamos mudar algo. Depois da festa vem a hostilidade de palavras não ditas. Vem a lembrança pálida do rosto perdido na multidão. Depois da festa, nota-se que o gosto do trident chegou ao fim. Percebe-se que o Halls já sumira. Depois da festa fica o martírio pelo fato de não ter oferecido os lábios no lugar bala. Depois da festa, a culpa de nossa ausência pessoal fala alto. Alto a ponto de desconsertar a confiança que havia no início. Depois da festa não há pressa em fugir. Há tempo suficiente para relembrar dos detalhes. Há tempo para sentir o cheiro de cigarro na roupa. Há tempo para desfrutar das dores nos pés. Há tempo para rolar durante horas na cama imaginando onde teríamos errado.
Minha timidez. As palavras indecisas. O olhar sem muito brilho. A carteira vazia. O gosto amargo do som alto e da música ruim. Sensações nítidas de que deveria ter ido embora muito antes. No entanto, a curiosidade e a esperança me obrigam a ficar. Mesmo tendo a certeza de que terei de apagar as luzes quando perceber que todos foram embora.
As distrações giram sem muito sentido. O nó na garganta não me deixa falar muita coisa. O casal se atracando esbarra em mim. O cara dançando totalmente bêbado me empurra acidentalmente. O trio de meninas risonhas derruba minha água. Uma delas tenta, em vão, virar-se para ver o que aconteceu, as outras não a deixam. Três contatos. Três situações. Sete vidas. Duas e meia da madrugada. Mesmo tendo os números para comprovar, nenhum deles nunca soube que eu, de fato, estivera ali. Em um lampejo rápido, a vontade de ir embora.
Talvez a menina que tentou se virar pudesse me ajudar. Ajudar-me a entender o que diabos estava fazendo naquele local. Talvez pudéssemos ficar conversando até o sol reluzir sobre nossas cabeças. Talvez pudéssemos trocar experiências passadas. Quem sabe, pudéssemos nos tornar amigos. Talvez tivéssemos algo em comum. Talvez ela morasse no mesmo bairro que eu. Talvez tivéssemos estudado no mesmo colégio. E se ela também estivesse perdida? E se ela estivesse pensando em ir embora também? “Cadê o cara da água?”. E se ela quisesse que eu a levasse para casa? E se ela percebesse que eu era um cara legal e no final rolasse um beijo? E se ela fosse o amor da minha vida?
Pelos deuses! Precisava encontrar aquela garota. Sair em disparada. Deixar a água pra trás. Empurrar o cara bêbado. Passar pelo casal meloso. Desviar de garçons e seguranças. Espremer-me no meio da multidão. Ignorar os feixes de luz que teimam em fazer com que eu perca o rumo. Passar, sem tapar os ouvidos, pelas imensas caixas de som. Deixar de lado a cerveja jogada para o alto. Ignorar os próprios medos. Sentir, nitidamente, a respiração ofegante. Esquecer por alguns instantes a timidez. Deixar de lado, mesmo que por alguns segundos, a insegurança.
No mais, encontrar a tal garota aos beijos com outro cara. Não qualquer cara. Um daqueles altos. Freqüentadores de academia. Cabelo espetado com gel. Tênis caro. Um daquele tipo que possui carro do ano, cheio de som. O tipo de cara que sabe dançar. Que tem dinheiro pra bancar uma garota. Àquele tipo que acha que Feuerbach é um ator da globo, ou Nietzsche seja o nome de uma vodka. Daquele tipo de cara que interagi com todo mundo. Um cara sem paranóias ou rancores guardados. Aquele típico indivíduo cujo final de semana começa na quarta e só termina no domingo de madruga.
Não posso competir com isso. Que importância tem um texto bem escrito se comparado a um Honda Cívic do ano? Que utilidade há em ter lido “Noites Brancas” de Dostoievski se comparado a um cartão de crédito sem limites? De que adianta ter ouvido Beethoven se o que realmente importa é o psy-trance? De que adiantou meses em um cursinho de português se na balada nada se fala? Que validade há em ler a coluna de André Pettry se o assunto é sempre carnaval? Por que se importar com o cenário político do país se o que realmente importa é dançar funk? Que benefício há em ser o cara romântico se o que elas realmente gostam é dos canalhas?
Melhor seria ter ido embora no início. Bem no início. Pra ser mais exato, 5 minutos antes de perder a chave da moto. 4 minutos antes de ter deixado a garrafa de água cair. 3 minutos antes de ter tomado a decisão de ter ido atrás dela. 2 minutos antes de ter colocado em cheque minhas atitudes. 1 minuto antes de ter pensado em virar escritor.
Em suma, mais um fracasso para adicionar à lista.

Santificado seja.

Eu já tenho meu certificado para entrar no céu. Sim, tenho. O encontrei enquanto revirava algumas coisas velhas. Precisava de algo para ler. Lembrei que havia alguns livros no fundo do armário e para minha surpresa lá estava. Meu certificado de garantia de bem estar celestial. Em outras palavras, um rolo de papel meio empoeirado que me certifica ter feito catequese.
Hoje em dia não sou muito ligado a essas coisas espirituais. Até acredito em Deus. Sim, claro que acredito. Eu no meu canto e ele no dele. É o mesmo que acreditar no velho Noel. Todos sabemos que não é algo físico. Mas ano após ano, natal após natal, ele sempre é lembrado. A diferença é que Deus é lembrado diariamente. Durante muito tempo fui o inimigo número 1 de toda e qualquer religião, mas depois de analisar essa questão por outro ângulo, constatei que religião é algo fundamental em nossas vidas, pois a mesma é quem controla a massa não pensante. Imagine só um mundo sem religião. Seria um caos. As pessoas não são inteligentes o suficiente para viver sem uma. Essas vertentes religiosas servem de rédea para os aglomerados humanos desse planeta viverem em ordem.
Lembro-me que quando fiz catequese era um garoto religioso. De família tradicional católica e morador de cidadezinha do interior, ou seja, seria um escândalo para a família e para a sociedade da época quebrar um rito sagrado como a catequese.
Quando soube que teria aulas de catequese fiquei extremamente frustrado. Primeiro, porque àquilo duraria 1 ano. Segundo, teria que me deslocar até o outro lado da cidade todo sábado á tarde. Teria que largar o futebol e o vídeo game em prol de uma estadia eterna no paraíso.
O primeiro dia de aula parecia bem mais estranho que o “primeiro dia de aula” em uma escola convencional. As aulas de catequismo eram ministradas no salão paroquial da cidade. Era um espaço grande que possuía um formato oval. Á frente, um pequeno palco para apresentações, várias cadeiras de ferro dobradas ficavam escoradas nos cantos. O teto era bastante alto e o lugar ostentava várias janelas. No meio de uma quantidade considerável de alunos, eu, obviamente. era o mais perdido. Reconheci alguns colegas de escola e como de costume os cumprimentei com um sorriso amarelo de canto de boca.
Não lembro do nome de nossa professora. Sei que era uma moça agradável e estava no início de uma gravidez. Como de habitual, tivemos àquela peculiar e sem criatividade apresentação de começo de curso.
A única coisa exigida para se conseguir o diploma do céu, era trazer de casa um caderno, um lápis e uma borracha. Pois bem, lá estava eu com meu caderninho – que pela qualidade deveria ter custado uns 35 centavos – uma lapiseira e um toco de borracha. Depois de algumas palavras a professora nos disse que a primeira aula seria uma coisa “light”, algo só para descontrair. Nossa primeira e árdua tarefa seria fazer um desenho. Qualquer desenho ligado à religião.Ótimo! Desenhos! Adorava desenhar. Dei uma espiada de lado e vi o garoto do lado esquerdo desenhando um lindo cálice torto com uvas irregulares. Do lado direito, uma garota desenhava um magnífico anjo que mais parecia uma galinha agonizando. Aff! Seria moleza superar aqueles pobres indivíduos sem criatividade. Pedi alguns lápis de cores emprestado e caprichei no desenho.
Ao término do prazo os alunos deveriam ir à frente apresentar e explicar seu desenho. Maravilha! Mostraria para todos meus dotes como desenhista. Chegada minha hora, fui orgulhoso para frente. Diante do salão lotado apresentei minha obra de arte. Era um desenho bem legal, mostrava Jesus em um lindo carro conversível vermelho, com os cabelos ao vento e um par de óculos escuro, que na época, estavam super na moda. OBS: criatividade não é bem vinda na casa de Deus.
No meio da apresentação fui interrompido por nossa agradável professora. A coitada estava meio aflita. Tinha uma expressão de espanto no rosto. Pegou-me pelo braço e me levou até uma outra sala. A sala da coordenadora geral. Também não me lembro de seu nome. Sei que era uma mulher velha, ranzinza, rabugenta e estava sempre com uma cara fechada. A professora mostrou meu desenho para ela e daquele dia em diante descobri que Jesus não gosta de conversíveis vermelhos. Levei uma bronca monstruosa por ter desenhado aquilo. Só não conseguia entender o porque daquilo ser um pecado mortal. Que mal havia em um conversível. Eu era bom em desenhar conversíveis.
No sábado seguinte resolvi não ser mais criativo. Faria só o que me mandassem. Não queria mais arrumar confusão. Aquilo poderia de alguma forma ir parar nos ouvidos de meus pais. Depois de algumas explicações sobre Jesus, Jeová, Moisés, Tutancamon e outros personagens bíblicos, nos foi passado mais um trabalho. Deveríamos escrever uma pequena redação sobre o que pensávamos sobre Jesus. Estava quase terminando meu texto quando notei que nossa professora não parava de olhar para mim. Sempre com um olhar aflito e inquieto, fitava-me de longe. Depois de alguns minutos, a mesma venho em minha direção e pediu educadamente para que eu lesse minha redação em particular para ela. Sem problemas, comecei: “Jesus fora um hippie muito legal”. Mal tinha terminado de pronunciar essa frase e fui agarrado pelo braço e levado novamente à sala da coordenadora. Levei um sermão atordoante.OBS: Sinceridade não é bem vinda na casa de Deus. E tive que prometer que aquela seria minha última brincadeira de mau gosto. Oras, alguém que usa sandálias de dedo, bata, cabelo grande, barba por fazer, nunca trabalhou na vida, morou com os pais até os 30 e tantos anos e era cheio de uma filosofia de vida natureba, só poderia ser hippie. Além do mais, que mal há em ser hippie?
Durante os dois meses seguintes, entrava mudo e saia calado das aulas de catequese. Fazia um esforço tremendo para não soltar nenhum tipo de comentário ou questionar nada. Até que não resisti. Era uma explicação sobre Adão e Eva, paraíso, fruto proibido, serpente e outras bobagens do gênero. “Professora, posso perguntar algo?”. Reconheci então aquele mesmo olhar aflito de alguns meses atrás. “Você está me dizendo que toda a humanidade, eu repito, toda a humanidade, 6 bilhões de pessoas, de raças, credos e origens diferentes foram fruto de 1 único casal?”. Resposta: “sim”. Aquilo realmente me tirou do sério. E como fica genética nisso?
No meio de todo aquele silêncio constrangedor soltei um comentário que mudou os rumos daquele patético curso. “Então a senhora quer me dizer que: um único casal foi incumbido de povoar toda a terra?” – pausa para raciocínio lógico - “Isso daria um ótimo roteiro de filme pornô, não?!”. OBS: Ironia não é bem vinda na casa de Deus. Depois desse episódio não freqüentei mais as aulas. Saia de casa com meu caderninho todo surrado e ao invés de ir para o salão paroquial – lugar onde não era mais bem vindo -, ficava sentado nos bancos de uma praça que ficava ali perto. Por sorte, tinha meu Game Boy como companhia e passava as tardes treinando e evoluindo meus pokemóns.
De sábado em sábado o ano se aproximara do fim. Estava com uma certa sensação de alívio, finalmente me livraria daquele estorvo. Em mais um dia comum de aula, estava conversando com uma colega que também fazia catequese comigo. Ela me dizia que assinava o livro de freqüência para mim e que a professora fazia vista grossa quanto a isso. Ao que tudo indica, ela não tinha a intenção de reprovar ninguém por falta. Só faltava fazer a prova. “Prova! Que prova?”. “Prova de final de ano, tá todo mundo estudando”. Santo Deus! Teria de fazer uma prova?
Essa prova continha 50 questões com conteúdo de todo o ano. OK! Não poderia ser tão difícil assim. Era só chegar em casa dar algumas lidas na matéria e pronto. O problema foi que ao chegar em casa e pegar meu caderninho de anotações, a única coisa que havia nele era Jesus em seu conversível.Resolvi então ler a bíblia, afinal aquele livro poderia me ensinar algo. Infelizmente adormeci em 5 minutos.
Através das fofocas rotineiras que sempre correm em cidadezinhas de interior, minha mãe ficou sabendo da prova. Não tinha como fugir do teste. Teria de fazê-lo mesmo sem saber nada.
Naquela noite, uma sensação de culpa e tormenta tomou conta de mim. Se reprovasse no curso de catequismo minha vida estaria acabada. Minha mãe me mataria, o vídeo game seria tirado de mim, seria obrigado a ir à igreja todos os dias, teria de passar outro ano sofrendo todos os sábados, sem contar que não teria o diploma para entrar no céu.
Quando rumava para o salão paroquial, encontrei a mesma colega que me avisara sobre a prova e através dela soube que o maldito teste seria realizado na Igreja. “Mas que diabos”. “O que deu nessa gente para realizar a prova na droga da igreja?!”.
Ao chegar no local de prova, notei que todos os alunos portavam bíblias. Procurei mais do que depressa aquela menina que sempre me mantinha informado. “Por que todo esse pessoal está com bíblias?”. Ela então respondeu com um sorriso gracioso. “Seria impossível fazer essa prova sem uma bíblia”. “Ótimo! Onde diabos vou encontrar uma bíblia”. “Eu te empresto a minha, estudei muito para essa prova”. “Ótimo!” Havia encontrado uma salvadora. Até hoje tenho a impressão de que aquela menina gostava de mim. “Marquei os versículos mais importantes para você”. Fiquei meio constrangido com tamanha generosidade, mas estava desesperado.
Eu só tinha uma pergunta. “O que era um versículo?”. Depois de raciocinar um pouco resolvi devolver a bíblia. Não me seria muito útil mesmo. Já tinha em mente que a prova seria um desastre.
Estava um pouco nervoso quando a prova começou. Dei uma olhada nas questões. Todas discursivas. Primeira questão: “onde Jesus nasceu?” “Ótimo!” Essa eu sabia. Pelos cabelos loiros, lisos, olhos verdes, alta estatura. Jesus era europeu. Provavelmente deveria ter nascido nos Alpes suíços ou em alguma vila do sul da Alemanha. Bom, o melhor seria generalizar. “Jesus era Europeu”. A primeira questão tinha sido fácil. Segunda questão: “Quem era o pai de Jesus?”. Beleza! Aquela eu também sabia. “O pai de Jesus era o anjo que visitou Maria”. Até onde eu sabia, quando alguém visita uma mulher e logo em seguida ela fica grávida, não tem erro. Mesmo assim, achei melhor generalizar. Nessas questões de paternidade sei que mãe é certeza, pai é pressuposto. “O pai de Jesus era Deus”.
Se havia uma coisa que eu tinha aprendido nas poucas aulas de catequese que tive é que: Deus é o pai de todo mundo. Até aquela altura tinha ido muito bem. Já estava até mais animado. Terceira questão: “Por que os judeus saíram do Egito”. Nessa questão não tive muita certeza. O melhor a ser feito seria novamente generalizar. “Os judeus saíram do Egito porque essa era a vontade de Deus.” As outras 47 questões também foram generalizadas: “ Era a vontade de Deus”. Não sabia bem o por quê, mas pairava uma sensação de que quem corrigisse aquela prova não teria compaixão o suficiente para me aprovar. Àquela altura, já imaginava as mais diversas maneiras de ser castigado por meus pais.
Olhei para a prova da menina da frente. Notei que sua letra era imensa. Seu “A” tinha o tamanho de uma maçã. Não! Não podia colar. Estava na igreja. Provavelmente deveria alguma regra celestial para isso. Mas eu não tinha escolha. Acomodei-me de tal forma que o teste da menina da frente ficasse de forma nítida.
Colei, admito que colei. Cada frase, cada parágrafo, cada erro ortográfico, enfim, tudo. No lugar da culpa, havia agora uma imensa satisfação.
Alguns dias depois recebi o resultado da prova. Um belo e maravilhoso 8,5. Foi ótimo ver a cara da coordenadora e da minha professorinha ao ver minha nota. Fui aprovado. Era óbvio que eu havia trapaceado, mas ninguém podia provar.
Alguns dias depois tive minha formatura. Uma festa brega onde todos estavam de branco. A igreja estava completamente lotada. Ao receber meu certificado de estada eterna no paraíso me senti um pouco incomodado, mas nada que eu não pudesse superar, afinal, “foda-se! Já tinha obtido meu ticket celestial mesmo.”