domingo, 14 de setembro de 2008

Sobre beijos e outras bobagens

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Vamos aos fatos. Noite de quadrilha, vestido a caráter – camisa xadrez, tênis all star, chapéu de cowboy, barba feita de canetinha preta, lenço no pescoço, cinto com fivela do tamanho de uma placa de carro. Oitava série, meados de 1900 e alguma coisa. Treze, doze anos, não sei bem ao certo. Ela não gostava de mim, não da maneira que eu gostava dela, éramos só amigos – o que era muito pior, diga-se de passagem - . Mas meu amor valia por nós dois, eu amava por ela também. Durante todo o ano guardei o sentimento sufocado.
Escrevia cartas, poemas, poesias, bilhetinhos e sempre faltava coragem para dizer a verdade. Naquela noite festiva tomei coragem, devidamente trajado, inundado de uma coragem nunca vista antes. Tinha resolvido que naquela noite daria o primeiro beijo da minha vida e seria perfeito, como nos filmes e livros.

Chamei-a para um canto e lhe disse que tinha uma coisa super importante para dizer. “Que foi, fala logo, tou ocupada”, “É que, eu....queria, é....hããããã....tipo....” - Minha mente dizia aos berros dentro da minha cabeça “ Seu estúpido, idiota, animalzinho desgraçado....Cala boca, pára de falar aos menos uma vez na vida, seja homem, isso não é hora pra romantismo, cala boca e beija logo ela” - . Respirei fundo, fechei os olhos e inclinei o corpo.


O beijo passou reto, batido, sem rumo algum. No momento não entendi o que havia acontecido. Abri os olhos e me dei conta que ela havia desviado o rosto. “cê Ta louco? tu pensa que ta fazendo o que?”. Só depois de três dias consegui soltar a primeira palavra. Naquela noite, meu chapéu de cowboy me impediu de chorar


21 anos, mais um dia desperdiçado em uma sala de aula. Eis que uma moça entra na sala e avisa sobre uma palestra que seria ministrada no auditório central. “ótimo, ao menos lá, as cadeiras são confortáveis, vou aproveitar e tirar um cochilo”. Ao chegar no auditório escolhi o lugar com menos concentração de pessoas, o mais afastado possível dos outros estudantes. Quando já estava confortavelmente esticado em uma das cadeiras, um grupo de 5 ou 6 meninas sentou ao meu lado. Elas falavam alto, riam de tudo, levantavam a todo o momento, eram escandalosas e se portavam feito macacos. 30 segundos daquilo foi o suficiente para eu começasse a desejar a morte de qualquer uma delas.


Para piorar o dia, uma delas puxou conversa comigo. Ela dizia coisas desconexas, falava rápido demais, sorria demais, cuspia no meu olho, fazia comentários desagradáveis e insistia em dizer coisas que obviamente não me interessavam. Em meus pensamentos, pedia a Deus para morrer, tudo bem se fosse uma morte lenta e dolorosa, só queria que ele me tirasse daquela situação. Com 5 minutos de conversa, eu já sabia toda a sua vida acadêmica, amorosa, do seu ex-namorado Gilberto, de como suas férias na disney foram divertidas e de como do alto dos seus 14 anos ela já era totalmente “madura”. Eu só sustentava um sorriso amarelo de canto de banco e dizia “ãh-ram”.


Então a mais brilhante das idéias me ocorreu. Tirei do bolso da mochila um cigarro e um isqueiro. “você não pode fumar aqui, tem ar-condicionado”, “é, eu sei”. Traguei profundamente o cigarro e despejei a fumaça toda nela. Sei que foi maldade, mas funcionou. Ela quase que instantaneamente mudou de lugar. Ela e seu grupinho.Depois disso fiquei rindo sozinho. Era uma menina bem bonita, mas não tenho mais ânimo para essas coisas. Estou aposentado de toda essa besteira. O cigarro é como minha barba mal feita, serve para meu rosto não aparecer tanto e para interromper esse vício, primeiro teria que curar minha amargura. Após meu “quase-primeiro-beijo”, disse a mim mesmo que depois daquele episódio seria uma pessoa melhor. Péssima profecia: hoje sou muito, muito pior.

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Não quero me explicar, de agora em diante, o cigarro me abrevia

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