sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sintonia.

Todos os dias, quando me flagro pensativo, tenho as mesmas variações poéticas daquela cena. Nunca fui sóbrio o suficiente para pedir desculpa, mas sóbrio o bastante para dizer "Adeus".
No dia em que disse “Adeus” à ela, escrevi cerca de 13 poemas em versos livres, três crônicas amargas e um ensaio de despedida inexistente. Por três vezes achei que não suportaria, por três vezes desisti, por três vezes fui ao inferno, por três vezes a odiei. E por todas as manhãs, acordei apaixonado por ela.
Foi a forma que encontrei de abrandar o coração e suavizar a alma. Os versos dedicados à ela beiravam o desespero. Concentrava as principais virtudes do sentimento, uma visão filosófica sobre o trivial e o excesso de memória que ela deixou.
As palavras não foram capazes de exprimir o que desejava dizer. Se errei, foi por desconfiança da própria voz. Se me escondi foi por covardia. Se desisti antes da hora, foi por amor próprio não correspondido. Se não me esforcei para fazer acontecer, foi pelo timbre amargo da desconfiança.
Durante algum tempo, vivi confortável como uma citação, entre tuas aspas. Estive muito perto da loucura e toda vez que tentei uma reaproximação, pensei que fosse morte. Não lembro dos teus olhos, mas não esqueci teu sorriso.

“Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.(...)
(...) nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.”
Pablo Neruda

Eu amava o que não era. Amava o que não existiu. Amava o que era fantasia, ficção, delírio. Sem ela não tem graça, sem ela não quero mais ficar. Depois dela, eu me isolei para sobreviver e não sobrevivi ao próprio isolamento.
Se há uma morte para amar, que seja por ela. E mais ninguém.

Considerações Finais.

De onde tirou a idéia de montar o blog?

O primeiro texto que escrevi foi no dia em que tomei a decisão de parar com as aplicações de insulina. Aquilo foi meio que assinar o próprio testamento, foi como ter certeza de que a lápide estaria pronta muito antes do esperado. Foi a maneira que encontrei de morrer antes do corpo, recosturando o significado das palavras, procurando extravagâncias, sinônimos e acepções que pudessem explicar o porquê de minhas atitudes. Tinha muita coisa a dizer, ninguém para ouvir.

Por que não montou um álbum de fotos? Seria bem mais Cômodo.

Imagens feitas por encomenda, flagrando a ebulição de tipos e personagens, sempre me pareceu uma forma de insulto à inteligência. Meu talento é ampliar e distorcer emoções, emudecer situações, arquitetar aflitos e maltratar pessoas. Gente que recorre a álbuns de fotografia é gente comum, são pessoas prontas de microondas. Fotografia é lugar de moradia, meus textos servem de desistência. A imagem eterniza o momento de forma superficial. As palavras descrevem os sentimentos. Além do mais, não sou fotogênico.
:)

Como tem sido ficar calado?

Meu despojamento está muito próximo do exagero. Aumento a potência metafórica para dizer pouco. Depois de algum tempo calado, pode-se enxergar relações lineares entre objetos e seres díspares. Ultimamente não tenho dito muita coisa e quando o faço, são frases avulsas, sem muita importância. È como ser anônimo para si próprio.

A filosofia tem ajudado?

Tenho vagado entre a filosofia e a poesia. Da filosofia, guardo o alentado poder de interrogar o espanto, expandida à perfeição pelas fagulhas de Nietzsche, os silogismos amargos de Álvares de Azevedo e as palavras de Márcia Tiburi. Minha tendência poética tem-se mostrado sóbria, muito próxima da verdade. Recorrendo sempre a tom de desespero fictício. Minha carga filosófica tem um visível teor caótico. Faço de minhas atitudes poesias, e tenho nessas poesias o ritmo e a captação dos contrários. Depois de algum tempo descobri que o difícil não é encontrar a verdade: a parte complicada é, na verdade, organizá-la e aceitá-la.

Como é viver “cumprindo tabela”?

É, basicamente, viver disfarçando a vida que segue lá fora. É onde acontece o encontro das idéias e a inutilidade dos passos. Fiz do meu epitáfio um cartão de visitas. Entre versos desmemoriados e teorias desnecessárias, descobri que fui capaz de resumir a vida em duas linhas. No estranhamento dos costumes e na capacidade de extrair o deslumbramento da ordem mais corriqueira, optei por desistir.

Considerações finais?
Estou farto de toda essa eternidade.

Traço de audiência.

Falar de amor não é amar. As palavras não significam nada se comparadas com atitudes e gestos. Falar de amor é recorrer à arrogância das palavras, falar de amor tem sempre um tom de confissão, falar de amor é antiquado, é brega, é demonstrar carência. Durante muito tempo falei, não só falei, mas gritei, julguei, defini, ignorei e por fim, optei pelo silêncio.
Os sentimentos estão fora de moda, tudo foi transformado em uma grande festa rave e por vezes me deparo com frases clichês do tipo: “A vida é feita pra ser vivida”, “Aproveite cada momento”, “Don’t worry, Be Happy”, “Seja feliz”. Pro inferno com todas essas citações vagas. Todas tão iguais, tão humanas, tão previsíveis, todas igualmente inúteis.
Minha respiração muda de acordo com a intensidade das pessoas, do sopro ao suspiro, da inspiração à falta de ar. Tenho evitado respirar desde então. Meu silêncio é criminoso. Não falar é agressão, é falta de respeito, é falta de civilidade. Sempre taxativo, superficial e duvidando da vida, desmantelando emoções e inventando aflições, sofrendo por antecipação e sendo o mais desprezível possível. Não importa se alguém vive bem ou mal, desde que viva. E quando digo que já desisti, acho graça daquele habitual ar de reprovação da outra parte.
Meus encontros e despedidas ainda repercutem em minha mente. Mesmo sem enredo, as lembranças insistem em não dormir, finjo não me importar, tento não dizer nada. É tudo mentira convencida, conversa desnecessária, razão que não precisa rimar com nenhuma regra, falsas urgências, realidade concreta de uma vida em paralelo. Falar de amor não é amar.
Sou minha própria descrença, gosto das vaias e do descaso pessoal. Dos acasos do cotidiano fiz minhas escolhas, dessas encolhas, montei meu espetáculo e ninguém comprou ingresso. Minhas palavras controlei pelas hastes, fiz da vida uma poesia sem passado. Tropeçando nas próprias atitudes e afogado nos próprios conceitos, ainda uso a compaixão de forma tangencial. Falar de amor não é amar.
Continuarei falando de amor, assim como continuarei conversando com o espelho para aprender a calar. Minha solidão não é esporte coletivo, solidão essa que não escorre pelos olhos. Por vezes segurei as lágrimas para não deixar escapar uma sua, lágrimas essas que possuem sempre dois terços de despedida. Os amores que não amamos também fazem parte de quem somos. Não sei ao certo se algum dia a encontrarei, mas gostaria que ela soubesse que estará sempre em mim.
Falar de amor não é amar, então eu me calo.

Monólogo

Oi, já faz um tempo, né?! -silêncio-.
A gente podia, sei lá, conversar um pouco, que tu acha? –silêncio- É, eu sei, não tenho muito há dizer.
Então, que tal marcarmos um cinema? Ta a fim de ver aquele filme? –silêncio - Não, né?! Você já viu esse filme.
Que tal sairmos pra uma balada, descontrair, dançar bastante! – silêncio – É, eu sei, não sei dançar, nem sou do tipo que sabe descontrair.
A gente podia reunir os velhos amigos, colocar a conversa em dia, juntar o pessoal, sabe?! – silêncio- É, eu sei, não tenho amigos, não há conversa para por em dia e nunca houve “pessoal”.
Soube que tem um parque na cidade, a gente podia ir, que tal? – silêncio- É, tem razão, nunca fui muito social.
Você continua linda. Éramos muito amigos, lembra? –silêncio-.
Então, em nome da nossa velha amizade, que tal viajarmos? Ir pra um lugar distante onde o passado não nos incomode – silêncio- É, não tenho dinheiro pra viajar, aliás, não tenho dinheiro nem pra xérox da faculdade.
Bom, você está namorando, né?! Até antes de você trancar o álbum do orkut, eu sempre notava que você estava feliz. Ele deve ser um cara legal! Bem melhor do que eu sempre fui. – silêncio-.
É muito bonito o carro dele, deve valer mais que a minha vida. – silêncio-.
Sabe, seria ótimo se ele fosse um crápula, um cafajeste, um cara frio, distante, que não ligasse pros seus sentimentos, dessa maneira, eu poderia fazer uma entrada triunfante e te salvar das garras dele. Vi isso outro dia na novelinha teen das 6, ao menos, lá, deu certo. –silêncio-. Só que eu sei que ele é um cara gente boa e sei que tu gosta dele.
Acho que eu sou o vilão, acho que fui, sou, o cara frio e distante. – silêncio-.
Ainda continuo te imaginando em cada dias nublado, em finais tristes e em dias não vividos – silêncio-.
Parece que foi ontem que terminamos. –silêncio- Eu sei, sei que nunca começamos.
Ainda tem vontade de ir pra França? – silêncio- É, eu sei, isso não é mais da minha conta.
Já faz um tempo razoável desde a última vez que nos vimos. – silêncio-.Se bem me lembro, 7 anos.
Eu vou estar mentindo se disser que não gosto mais de ti e quando me pego pensando em você, lembro-me que sou completamente louco por esse sorriso.
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-silêncio-.

Te amo pra sempre.

Falar da proximidade de relacionamentos tem sido um de meus passatempos.
Faço isso para afugentar a distância. Distância dos fracassos sentimentais. Distância que eu mesmo criei.
Vejo pessoas apressadas em dizer que amam. Três dias de relacionamento e "te amo pra sempre". Esse tipo de pessoa faz isso para não conviver com as dúvidas e tampouco gerar suspeitas da legitimidade do sentimento. – patético -.
Há uma pressa coletiva pelo final em todo o início e há uma pressa pessoal pelo início em todo o final.
É obrigatório dizer "eu te amo" para continuar e formalizar o laço.
Pode ser que seja paixão, mas o termo "eu te amo" pula da boca mesmo quando não é solicitado.
Talvez seja atração, mas a expressão "eu te amo" fica sentada na primeira fila até se tornar vaga. Vaga o suficiente para ser comparada com um simples "bom dia". – patético -.
Não que seja totalmente desonesta esse tipo de declaração, mas acredito que a pressa em tentar demonstrar algum tipo de afeto pela outra parte atropela o verdadeiro significado do sentimento. Não reparamos quando definimos ao longo dos dias quando se ama verdadeiramente, simplesmente acontece.
A precipitação do amor é um modo de garantir de vez um relacionamento - patético - .
Tenho a impressão de que dizer "te amo" algumas centenas de vezes ao dia é uma maneira de assegurar que aquela pessoa é sua, e que não mais corre o risco de perdê-la. - patético -. e caso nenhum dos dois fale, amarga-se uma sensação de inutilidade e de desprezo.
Vejo no relacionamento de algumas pessoas que o termo "amor" faz-se por necessidade, não como uma escolha e opção de vida, mas uma exigência.
Minhas feridas, sede e angústia que não se reparte proibi-me de sentir algo assim.
O "amor" pra mim é um mistério que não será abolido e que permanece maior do que a clareza arbitrária da outra parte. O amor depende da penumbra e da insuficiência.
Recuso-me a aceitar a natureza inexplicável do amor e por pura teimosia tento explicá-lo. Mediante meu jogo de comparações, uma definição reforça a outra até se confortar com a sensação de que o amor morreu de vez.
Ainda que incomparável, o amor se faz pela comparação com experiências anteriores. Define-se pela sua força em sobrepujar as lembranças e relações anteriores.
É a superação do que foi vivido que valida ou não sua intensidade.
No meu caso, preferi cultivar rancores.

O melhor da festa.

“Quantos graus?”, “6,75”. “Isso é ruim?”, “Sim, as coisas não estão nada bem para você”. “Existe tratamento, algo que eu possa fazer para reverter?”, “Não”. “Cirurgia?”, “Não, seus níveis de cura estão baixíssimos, sua córnea não cicatrizaria. Onde conseguiu esse corte no queixo?”, “Fazendo a barba”, “Está aí há quanto tempo?”, “Duas ou três semanas”, “Já deveria ter cicatrizado”, “É, eu sei. Alguma possibilidade de transplante?”, “Não no seu caso”. “Quanto tempo tenho até ficar no escuro?”, “10 anos talvez”, “Por mim tudo bem, é tempo suficiente. Têm um cigarro aí?”, “Você não pode fumar aqui”, “Eu sei, eu não fumo, só achei que o momento pediria um”. “Pode ficar à vontade se quiser chorar”, “Eu não choro, isso nunca resolveu nada, nem vai resolver”, “Nós temos acompanhamento psicológico aqui, posso te indicar um profissional da área”, “Não obrigado, não preciso de ajuda. Terapia é para pessoas fracas. No meu caso, os problemas são fictícios, posso suportar sozinho, só preciso de vodka”, “Beber não vai ajudar”. “É, eu sei, mas vai tornar tudo bem mais interessante”.
Meu espírito já não pesa mais. Minha linguagem já disse tudo que deveria ser dito. Com a igualdade do início, retomo o ar e finjo que nada aconteceu. Esqueço as aflições e me junto ao tédio, olho para o céu e já não procuro Deus. Mesmo que os milagres atrasem, mesmo que a salvação ainda esteja por vim, mesmo que o fim não seja um recomeço.
Já não tenho mais certeza da minha própria voz, não tenho mais certeza de quem sou, à qual lugar pertenço ou com quem deveria ter ficado. Paira sempre a impressão daquela vida não vivida, das oportunidades perdidas, dos beijos não dados, dos amores que mandei embora. Quando a palavra não depende mais dos atos, sobra somente a respiração, respiração que identifica minha presença, que não me deixa dormir, que não me deixa partir, respiração que é metade amor, metade ausência.
Os sentimentos sempre foram maiores do que a realidade permitiu e isso só me faz lembrar que nunca soube como começar o assunto. Desesperado depois do primeiro “oi”, a única alternativa era recolher as palavras antes que as mesmas denunciassem meu mal-estar. Pontual, definitivo, fatalista, cinza, desassossegado, inquieto, todos adjetivos de uma personalidade já sem muita graça. O que não vivia era mais meu, o que era descartado agora me interessa, o que foi desespero agora é passa-tempo, o que já não tem cor é bem vindo ao espetáculo, o que é triste tem seu valor e se estiver no fim, melhor ainda.
A angústia concentrou a respiração. De agora em diante, basta somente fingir que está tudo bem. “Sorria e acene”. Depois de um tempo a voz transforma a mentira em verdade convencida. “Sorria e acene”. Não importa o quão destruído esteja por dentro, “Sorria e acene”. Deixe que tua moldura fale por ti, ninguém vai se importar com a complexidade da obra. Da solidão das cadeiras e com o timbre de quem já desistiu, meu espírito deixou de pesar. Falar não é mais necessário, com a igualdade do início, “deixo a vida como deixo o tédio.”. Sorria e acene.
Sem retorno e sem ambição, o momento pede somente um cigarro.

Qualquer lugar.

Dezembro de 2006. Naquela manhã eu estava livre. Sem culpa, sem medo, sem responsabilidades, sem toque de recolher, sem preocupações, sem remorsos. Acordei, olhei para o teto e com os olhos ainda inchados deixei escapar um longo sorriso. Naquela manhã a casa estava silenciosa. Não havia ninguém, todos estavam viajando, teria o mês todo para mim. Havia somente eu e minha imagem no espelho. Naquela manhã a vida corria solta. Férias do trabalho, férias da faculdade. Mesmo com o sol reinando absoluto lá fora, era um dia bonito, bonito como um dia nublado. Naquela manhã, optei por passar o resto do dia de pijama. Era a manhã mais doce de minha vida.
Abril de 2008. Pergunto-me se o azul realmente precisaria estar no céu. As coisas que outrora acreditava, agora são tão bobas que chego a rir de quão ingênuo era. Abdiquei do “final feliz” como quem se despede da vida. Em que canto da memória me perdi? Em que momento deveria ter ido embora? Em que instante minha ausência superou a fala? Quanto custa ser especial para alguém? Quando é que sabemos que estamos mortos? Perguntas que não se calam, respostas que não tem mais importância.
Não há como definir o motivo para desistir dos planos. Simplesmente desvanece, simplesmente morre. As escolhas que fiz não prestam mais, só há a certeza de que errei, certeza equivocada, certeza que não mente, certeza que dilacera alma, certeza de não poder voltar atrás, certeza de estar morto em vida.
Terminarei no maldito álbum de retratos. A convivência consolidou o tédio. Sem planos, sem perspectiva, sem narrativa, sem vontade para brincar de existir. Vou refazendo o passado com uma inusitada imperfeição patológica e não me interessa o futuro. Onde errei? Por que errei? Por quanto tempo errei? Não vou apelar para remédios, quero encarar meus demônios de frente. Sóbrio como quem recebe a notícia que fracassou em tudo, lúcido como quem deixou o amor morrer, presente como quem foi embora antes do final.
Agora sou minha própria distração. Personagem criado para servir de figuração, coadjuvante da minha própria história, ator que não tem fala, scripit sem final feliz, um livro que ninguém nunca lê. Juro, juro que tentei existir. Juro que tentei fazer as coisas do modo certo, juro que tentei seguir os padrões, juro que tentei espetar o cabelo com gel, agir como burro e ir para o carnaval. Juro que tentei. No entanto, minha ladainha anti-social falou mais alto.
Exilado, apartado da sociedade, sozinho, jogado na cama e olhando para o teto. Imbuído de pensamentos negativista, afastado do mundo lá fora, excluído dos grupinhos. Por mim tudo bem. Só acho graça de quem tenta ajudar. Há uma necessidade cultural de puxar conversa com quem está calado. Como se falar fosse uma obrigação, como se desabafar fosse ajudar, como se interagir fosse me tirar do abismo. Tenho cruzado com tantos psicólogos de corredor, tantos psicanalistas de Msn, tantos terapeutas de final de semana. Para que aprendam, os pensamentos começam a falar somente quando paramos para ouvi-los e para isso, faz-se necessário SILÊNCIO.
Meu desespero é fictício para quem o vê de fora, meu caráter é altamente dramático para quem assiste de longe, minhas atitudes são cênicas para quem acha que me conhece. Por favor! Entendam, achar que se conhece alguém é na verdade desconhecê-lo por inteiro.
O azul não precisa estar no céu, aquela manhã de dezembro não precisa voltar, o coração não precisa parar de bater, a existência não precisa parar de fluir, o mundo não precisa nos ouvir, só exijo silêncio. Silêncio e um mínimo de alfabetização.
Estar deprimido não é de todo ruim, a depressão é somente um entusiasmo para quem pensa demais. Simples assim.

O Sempre ainda é pouco.

Pede-se transparência como se fosse fácil. Pede-se a verdade mesmo que ela possa ser desesperadora. Pede-se sinceridade como nunca se viu antes. Pede-se um minuto de seriedade e atenção. Pede-se que puxe o gatilho. “Então você não me ama mais?”. “Não, não mais”. Falar com tal franqueza esquecendo que existem sentimentos por detrás envolvidos é ato de crueldade. Conhece-se o conteúdo, conhecem-se as certezas, conhecem-se as falhas, conhece-se o olhar e ainda sim, aquela ocasional vontade de ser estúpido: “Não, não te amo mais.”
Não acredito que exista amor errado, existe somente o amor que não se convenceu, amor que se esqueceu de reinventar, amor que esqueceu de bater à porta. Ser sincero é afastar, é repelir, é mandar embora, é pedir para que o outro saia em silêncio, é maldade comportada. Ser sincero tem um Q de facilidade expressiva. Outro dia, dei de cara com algumas declarações de amor no orkut de um casalzinho tão doce que fazia com que os níveis de açúcar em meu sangue se remoessem. Era um jovem casal, e como sempre, repletos de originalidades: “te amo pra sempre”, “você é minha vida”, Blá blá blá. Quanta besteira.
O problema não é o jovem casalzinho, o problema é comigo. Sou tão amargo que não acredito mais nas coisas simples da vida. Sou tão extremista que nunca me basta descer somente a rua, tenho sempre de descer ao inferno. Minhas ações são imbuídas de negativismo, mas que não recorrem a um tom de confissão, na verdade, demonstram minha inquietude com relação ao que é meramente normal.
“Meu filho, não está na hora de você arrumar uma namorada”. Comentário feito por minha mãe enquanto eu desperdiçava mais um dia de minha vida trancado nesse quarto. “Está na hora de começar a namorar”. Eu não sabia que isso tinha uma data certa para começar, algo do tipo, “faça agora ou seu prazo de validade vai expirar”. Vejo isso como aquela velha frase clichê “crescei-vos e multiplicai-vos”. – frase a qual sempre me pareceu um bom roteiro de filme pornô-. Não quero nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer. Não, isso não. Isso é uma biografia de muito mal gosto. Quero morrer todas as madrugadas e acordar mal humorado no dia seguinte. Não me convém começar a namorar por conformidade ou por arrumar alguém para passar o tempo. Se for para passar o tempo, faço isso com a televisão.
Acho que pertenço à geração ultra-romântica. Gosto de pensar que vivo o mal do século.Gosto das coisas complicadas. Minha comunicativa flui dentro de minha densidade. Estou sempre disposto a encontrar complexidade mesmo nas figuras mais simples. Raramente deixo de inflexionar a primeira pessoa do singular. Do “eu” para o “nós” a distância é de uma vida.
Venho atuando por aproximação e distanciamentos, avanços e recuos, pedidos de desculpas e hostilidades à parte. É o meu jeito de fazer as coisas de maneira errada. Encontro-me sempre em minha própria dispersão, acabei por identificar-me com minha concentração obsessiva. Vivo a vida quase desmemoriada. Entre livros e canetas, aulas e teorias.
No mais, tenho minha televisão como companhia. Só não sei ao certo...como troco de canal.

Segunda-feira.

E no final, tudo vai ficar cinza. Vou olhar para o quarto de hospital vazio e pensar: “Não valeu à pena”. Agrada-me a idéia de morrer sozinho. Vejo isso nos filmes e nos livros. Tão poético tão visceral. O problema com as pessoas é que acreditam que viverão para sempre. Eu já tenho a certeza de que partir não será algo tão ruim, ao menos, livrar-me-ei do tédio. Morrer, ainda que sozinho, sem visitas em um quarto de hospital pode não ser uma escolha, mas com certeza é melhor que definhar aos poucos em um asilo.
Não quero que seja rápido, nem indolor. Quero ter tempo para pensar, para refletir, para rir dos erros do passado. Quero tempo para lembrar que fiz aniversário nos últimos anos somente para tomar nota do dia em que nasci, sem comemorações, sem festas, sem planos de um futuro melhor, sem amigos, sem amores concretos, sem dinheiro, sem vida.
Quero tempo para pensar que recusei ficar com alguém para disfarçar a espera, esquecendo do egoísmo de prender esse alguém de uma nova chance, de uma outra paixão.
Quero tempo para pensar e acreditar que as pessoas se lembrarão de mim como aquilo que eu poderia ter sido. Quero recordar que sempre fingi estar bem para evitar sessões de terapia informais. Quero lembrar às inúmeras vezes em que usei a desculpa “o problema não é com você, sou eu”, para terminar os relacionamentos que nem começaram.
Quero lembrar que almoçava sozinho, jantava sozinho e me esforçava para manter-me ocupado. Vou lembrar que ligava a Tv para que ela me fizesse companhia. Não que estivesse prestando atenção no que ela dizia, mas as cores e ruídos faziam com que não me sentisse tão ausente. Vou lembrar que não tinha ninguém para comentar as coisas que escrevia. Vou lembrar que conversava em silêncio com a menina da biblioteca na esperança de um dia ter coragem para convidá-la para sair: “Oi, pego livros aqui há 2 anos, não tenho carro, grana, amigos, não sou bom de cama e nem sei dançar. Quer sair para tomar um café?”.
“Era uma luta arrancar aquele misógino do fundo da pensão em que estivesse para que fosse dar uma passeio com alguma daquelas prometidas.Por uma pelo menos ele se interessou - dizem que chegando à paixãoInutilmente, entusiasmou-se por uns oito meses no ano de 1882. Ela, no entanto, casou-se com o poeta Rainer Maria Rilke.Rejeitado e em estado lastimoso, dedicou-se a produzir candentes escritos contra tudo o que era estabelecido e até mesmo o que consideravam não convencional.Paradoxalmente, disse num certo momento, que não queria discípulos. Era sério? Teve-os aos montes. Perdeu a razão de vez em Turim, em janeiro de 1889, quando acharam-no aos prantos em um quarto escuro de uma pensão. Durante os dez anos restantes afundou-se numa densa névoa de pessimismo, tristeza e loucura. Morreu na pequena Weimar, sozinho, no dia 25 de agosto de 1900.”
Todos têm um super-herói. O meu é Nietzsche, morrer como tal não seria ruim.
Não me incomoda o fato de morrer sozinho, incomoda-me o fato de escrever para disfarçar a vida lá fora. Incomoda-me a certeza de que esses escritos serão meu único legado.

Talk Show.

É de conhecimento geral que você tem problemas com relacionamentos, mas por que não tentar? Muitos dizem que o amor surge da convivência. O que pensa sobre isso?
Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que sou um expectador. Gosto de ter em mente que todo relacionamento não é original. Dificilmente encontra-se algo de inovador neles. É sempre o mesmo arroz com feijão previsível. São sempre as mesmas frases e ações clichês. São raros os relacionamentos que serviriam de tema para um bom livro ou um roteiro de filme cult interessante. A grande maioria das relações cai em comodismo após algum tempo. De início vem a necessidade de exibir o novo troféu. Depois vem o sexo. Tudo muito novo, tudo muito divertido, mas até isso vai enjoando. Descobri-se uma curiosidade de experimentar novos ares e logo em seguida surgem as primeiras traições, ou pelo menos, insinuações das mesmas. Toda essa encenação amorosa faz com que eu tenha cada vez mais a certeza de que todo relacionamento é, na verdade, contraditório.
Então não há nada de bom em envolver-se?
Há sim. É aquela velha história, “Platônico enquanto durar, eterno enquanto eu te amar”. Enquanto um dos dois estiver se divertindo com o momento, não aconselho terminar nada. Principalmente se o convívio tem um tempo razoável de duração. Depois do término do relacionamento vem a fase da fossa. Ouvi-se música brega, as lágrimas correm sem permissão, procura-se sentido para a vida, enfim, tudo muito óbvio, mas o que mais me chama atenção nisso é a saudade dos defeitos. Com o passar do tempo nota-se que os adjetivos negativos são na verdade marcas pessoais. No começo as imperfeições são obstáculos, porém quando se termina “tudo” nos damos conta que sentimos uma falta imensa até mesmo das distorções que outrora incomodavam. E acredito que isso de alguma forma seja válido, porque é indício de que a convivência em algum momento foi verdadeira.
E como fazer para domar a solidão?
Hahaha. Isso é bem complicado, mas acho que recorrer aos resquícios da vida a dois pode de alguma forma aliviar a dor momentânea. Sempre sobra alguma coisa do relacionamento, mesmo que sejam só lembranças, mesmo que seja um relacionamento inventado, mesmo que seja um relacionamento à distância, mesmo que seja tudo imaginário. E é de lembranças que se engana o isolamento. Dentre os meus amores inventados, uma delas adorava café, eu, no entanto, nunca fui fã dessa bebida, mas no desespero em ter algo que aliviasse o desespero, andava sempre pelos corredores da faculdade com um copo cheio de café. Não que eu fosse tomar aquilo, mas o simples fato de sentir o cheiro amenizava a distância. Em outra ocasião, comprei um frasco do perfume que ela mais gostava, não para usar no dia a dia, mas para usar o perfume no travesseiro. Deixar o cheiro dela no travesseiro era de alguma forma, acreditar que ela estaria presente.
Você sabe que as garotas não estão nem aí pra esse lance de sentimentalismo. Por que simplesmente não encena o papel do cara normal?
Acho muito cômodo seguir os padrões que vejo por aí. Em tempos de festas rave, não há, de fato, espaço para pessoas como eu. Outro dia tentei desmistificar a gravidade das minhas opiniões para uma menina no msn, no final, além da sensação de tempo perdido ficou explícita sua vontade de dizer “enquanto você filosofa, as pessoas transam ”. Não posso competir com esses fatos. Primeiro por que ela está certa e segundo, é mais fácil “fazer como todo mundo faz”. Sei que tudo que acredito não vale de nada. Sei que as crônicas nunca trarão as mesmas satisfações que um beijo de carnaval. Sei que o cheiro do café não vai suprir o buraco da alma. Sei que o travesseiro aromatizado não é ela, mas gosto de pensar que o tempo está a meu favor. Gosto de pensar que o mundo gira na velocidade que bem entendo.
Pretende continuar errando?
Claro! Fazer as coisas de maneira deturpada é minha maneira de terminá-las. Se não for trágico, não tem graça. Se não for triste, nem me interessa. Se não for platônico, não trato com veemência. Sei que só posso preservar aquilo que perdi.

Ironia pessoal.

Depois da festa vem a ilusão. Esse devaneio bobo em achar que poderíamos mudar algo. Depois da festa vem a hostilidade de palavras não ditas. Vem a lembrança pálida do rosto perdido na multidão. Depois da festa, nota-se que o gosto do trident chegou ao fim. Percebe-se que o Halls já sumira. Depois da festa fica o martírio pelo fato de não ter oferecido os lábios no lugar bala. Depois da festa, a culpa de nossa ausência pessoal fala alto. Alto a ponto de desconsertar a confiança que havia no início. Depois da festa não há pressa em fugir. Há tempo suficiente para relembrar dos detalhes. Há tempo para sentir o cheiro de cigarro na roupa. Há tempo para desfrutar das dores nos pés. Há tempo para rolar durante horas na cama imaginando onde teríamos errado.
Minha timidez. As palavras indecisas. O olhar sem muito brilho. A carteira vazia. O gosto amargo do som alto e da música ruim. Sensações nítidas de que deveria ter ido embora muito antes. No entanto, a curiosidade e a esperança me obrigam a ficar. Mesmo tendo a certeza de que terei de apagar as luzes quando perceber que todos foram embora.
As distrações giram sem muito sentido. O nó na garganta não me deixa falar muita coisa. O casal se atracando esbarra em mim. O cara dançando totalmente bêbado me empurra acidentalmente. O trio de meninas risonhas derruba minha água. Uma delas tenta, em vão, virar-se para ver o que aconteceu, as outras não a deixam. Três contatos. Três situações. Sete vidas. Duas e meia da madrugada. Mesmo tendo os números para comprovar, nenhum deles nunca soube que eu, de fato, estivera ali. Em um lampejo rápido, a vontade de ir embora.
Talvez a menina que tentou se virar pudesse me ajudar. Ajudar-me a entender o que diabos estava fazendo naquele local. Talvez pudéssemos ficar conversando até o sol reluzir sobre nossas cabeças. Talvez pudéssemos trocar experiências passadas. Quem sabe, pudéssemos nos tornar amigos. Talvez tivéssemos algo em comum. Talvez ela morasse no mesmo bairro que eu. Talvez tivéssemos estudado no mesmo colégio. E se ela também estivesse perdida? E se ela estivesse pensando em ir embora também? “Cadê o cara da água?”. E se ela quisesse que eu a levasse para casa? E se ela percebesse que eu era um cara legal e no final rolasse um beijo? E se ela fosse o amor da minha vida?
Pelos deuses! Precisava encontrar aquela garota. Sair em disparada. Deixar a água pra trás. Empurrar o cara bêbado. Passar pelo casal meloso. Desviar de garçons e seguranças. Espremer-me no meio da multidão. Ignorar os feixes de luz que teimam em fazer com que eu perca o rumo. Passar, sem tapar os ouvidos, pelas imensas caixas de som. Deixar de lado a cerveja jogada para o alto. Ignorar os próprios medos. Sentir, nitidamente, a respiração ofegante. Esquecer por alguns instantes a timidez. Deixar de lado, mesmo que por alguns segundos, a insegurança.
No mais, encontrar a tal garota aos beijos com outro cara. Não qualquer cara. Um daqueles altos. Freqüentadores de academia. Cabelo espetado com gel. Tênis caro. Um daquele tipo que possui carro do ano, cheio de som. O tipo de cara que sabe dançar. Que tem dinheiro pra bancar uma garota. Àquele tipo que acha que Feuerbach é um ator da globo, ou Nietzsche seja o nome de uma vodka. Daquele tipo de cara que interagi com todo mundo. Um cara sem paranóias ou rancores guardados. Aquele típico indivíduo cujo final de semana começa na quarta e só termina no domingo de madruga.
Não posso competir com isso. Que importância tem um texto bem escrito se comparado a um Honda Cívic do ano? Que utilidade há em ter lido “Noites Brancas” de Dostoievski se comparado a um cartão de crédito sem limites? De que adianta ter ouvido Beethoven se o que realmente importa é o psy-trance? De que adiantou meses em um cursinho de português se na balada nada se fala? Que validade há em ler a coluna de André Pettry se o assunto é sempre carnaval? Por que se importar com o cenário político do país se o que realmente importa é dançar funk? Que benefício há em ser o cara romântico se o que elas realmente gostam é dos canalhas?
Melhor seria ter ido embora no início. Bem no início. Pra ser mais exato, 5 minutos antes de perder a chave da moto. 4 minutos antes de ter deixado a garrafa de água cair. 3 minutos antes de ter tomado a decisão de ter ido atrás dela. 2 minutos antes de ter colocado em cheque minhas atitudes. 1 minuto antes de ter pensado em virar escritor.
Em suma, mais um fracasso para adicionar à lista.

Santificado seja.

Eu já tenho meu certificado para entrar no céu. Sim, tenho. O encontrei enquanto revirava algumas coisas velhas. Precisava de algo para ler. Lembrei que havia alguns livros no fundo do armário e para minha surpresa lá estava. Meu certificado de garantia de bem estar celestial. Em outras palavras, um rolo de papel meio empoeirado que me certifica ter feito catequese.
Hoje em dia não sou muito ligado a essas coisas espirituais. Até acredito em Deus. Sim, claro que acredito. Eu no meu canto e ele no dele. É o mesmo que acreditar no velho Noel. Todos sabemos que não é algo físico. Mas ano após ano, natal após natal, ele sempre é lembrado. A diferença é que Deus é lembrado diariamente. Durante muito tempo fui o inimigo número 1 de toda e qualquer religião, mas depois de analisar essa questão por outro ângulo, constatei que religião é algo fundamental em nossas vidas, pois a mesma é quem controla a massa não pensante. Imagine só um mundo sem religião. Seria um caos. As pessoas não são inteligentes o suficiente para viver sem uma. Essas vertentes religiosas servem de rédea para os aglomerados humanos desse planeta viverem em ordem.
Lembro-me que quando fiz catequese era um garoto religioso. De família tradicional católica e morador de cidadezinha do interior, ou seja, seria um escândalo para a família e para a sociedade da época quebrar um rito sagrado como a catequese.
Quando soube que teria aulas de catequese fiquei extremamente frustrado. Primeiro, porque àquilo duraria 1 ano. Segundo, teria que me deslocar até o outro lado da cidade todo sábado á tarde. Teria que largar o futebol e o vídeo game em prol de uma estadia eterna no paraíso.
O primeiro dia de aula parecia bem mais estranho que o “primeiro dia de aula” em uma escola convencional. As aulas de catequismo eram ministradas no salão paroquial da cidade. Era um espaço grande que possuía um formato oval. Á frente, um pequeno palco para apresentações, várias cadeiras de ferro dobradas ficavam escoradas nos cantos. O teto era bastante alto e o lugar ostentava várias janelas. No meio de uma quantidade considerável de alunos, eu, obviamente. era o mais perdido. Reconheci alguns colegas de escola e como de costume os cumprimentei com um sorriso amarelo de canto de boca.
Não lembro do nome de nossa professora. Sei que era uma moça agradável e estava no início de uma gravidez. Como de habitual, tivemos àquela peculiar e sem criatividade apresentação de começo de curso.
A única coisa exigida para se conseguir o diploma do céu, era trazer de casa um caderno, um lápis e uma borracha. Pois bem, lá estava eu com meu caderninho – que pela qualidade deveria ter custado uns 35 centavos – uma lapiseira e um toco de borracha. Depois de algumas palavras a professora nos disse que a primeira aula seria uma coisa “light”, algo só para descontrair. Nossa primeira e árdua tarefa seria fazer um desenho. Qualquer desenho ligado à religião.Ótimo! Desenhos! Adorava desenhar. Dei uma espiada de lado e vi o garoto do lado esquerdo desenhando um lindo cálice torto com uvas irregulares. Do lado direito, uma garota desenhava um magnífico anjo que mais parecia uma galinha agonizando. Aff! Seria moleza superar aqueles pobres indivíduos sem criatividade. Pedi alguns lápis de cores emprestado e caprichei no desenho.
Ao término do prazo os alunos deveriam ir à frente apresentar e explicar seu desenho. Maravilha! Mostraria para todos meus dotes como desenhista. Chegada minha hora, fui orgulhoso para frente. Diante do salão lotado apresentei minha obra de arte. Era um desenho bem legal, mostrava Jesus em um lindo carro conversível vermelho, com os cabelos ao vento e um par de óculos escuro, que na época, estavam super na moda. OBS: criatividade não é bem vinda na casa de Deus.
No meio da apresentação fui interrompido por nossa agradável professora. A coitada estava meio aflita. Tinha uma expressão de espanto no rosto. Pegou-me pelo braço e me levou até uma outra sala. A sala da coordenadora geral. Também não me lembro de seu nome. Sei que era uma mulher velha, ranzinza, rabugenta e estava sempre com uma cara fechada. A professora mostrou meu desenho para ela e daquele dia em diante descobri que Jesus não gosta de conversíveis vermelhos. Levei uma bronca monstruosa por ter desenhado aquilo. Só não conseguia entender o porque daquilo ser um pecado mortal. Que mal havia em um conversível. Eu era bom em desenhar conversíveis.
No sábado seguinte resolvi não ser mais criativo. Faria só o que me mandassem. Não queria mais arrumar confusão. Aquilo poderia de alguma forma ir parar nos ouvidos de meus pais. Depois de algumas explicações sobre Jesus, Jeová, Moisés, Tutancamon e outros personagens bíblicos, nos foi passado mais um trabalho. Deveríamos escrever uma pequena redação sobre o que pensávamos sobre Jesus. Estava quase terminando meu texto quando notei que nossa professora não parava de olhar para mim. Sempre com um olhar aflito e inquieto, fitava-me de longe. Depois de alguns minutos, a mesma venho em minha direção e pediu educadamente para que eu lesse minha redação em particular para ela. Sem problemas, comecei: “Jesus fora um hippie muito legal”. Mal tinha terminado de pronunciar essa frase e fui agarrado pelo braço e levado novamente à sala da coordenadora. Levei um sermão atordoante.OBS: Sinceridade não é bem vinda na casa de Deus. E tive que prometer que aquela seria minha última brincadeira de mau gosto. Oras, alguém que usa sandálias de dedo, bata, cabelo grande, barba por fazer, nunca trabalhou na vida, morou com os pais até os 30 e tantos anos e era cheio de uma filosofia de vida natureba, só poderia ser hippie. Além do mais, que mal há em ser hippie?
Durante os dois meses seguintes, entrava mudo e saia calado das aulas de catequese. Fazia um esforço tremendo para não soltar nenhum tipo de comentário ou questionar nada. Até que não resisti. Era uma explicação sobre Adão e Eva, paraíso, fruto proibido, serpente e outras bobagens do gênero. “Professora, posso perguntar algo?”. Reconheci então aquele mesmo olhar aflito de alguns meses atrás. “Você está me dizendo que toda a humanidade, eu repito, toda a humanidade, 6 bilhões de pessoas, de raças, credos e origens diferentes foram fruto de 1 único casal?”. Resposta: “sim”. Aquilo realmente me tirou do sério. E como fica genética nisso?
No meio de todo aquele silêncio constrangedor soltei um comentário que mudou os rumos daquele patético curso. “Então a senhora quer me dizer que: um único casal foi incumbido de povoar toda a terra?” – pausa para raciocínio lógico - “Isso daria um ótimo roteiro de filme pornô, não?!”. OBS: Ironia não é bem vinda na casa de Deus. Depois desse episódio não freqüentei mais as aulas. Saia de casa com meu caderninho todo surrado e ao invés de ir para o salão paroquial – lugar onde não era mais bem vindo -, ficava sentado nos bancos de uma praça que ficava ali perto. Por sorte, tinha meu Game Boy como companhia e passava as tardes treinando e evoluindo meus pokemóns.
De sábado em sábado o ano se aproximara do fim. Estava com uma certa sensação de alívio, finalmente me livraria daquele estorvo. Em mais um dia comum de aula, estava conversando com uma colega que também fazia catequese comigo. Ela me dizia que assinava o livro de freqüência para mim e que a professora fazia vista grossa quanto a isso. Ao que tudo indica, ela não tinha a intenção de reprovar ninguém por falta. Só faltava fazer a prova. “Prova! Que prova?”. “Prova de final de ano, tá todo mundo estudando”. Santo Deus! Teria de fazer uma prova?
Essa prova continha 50 questões com conteúdo de todo o ano. OK! Não poderia ser tão difícil assim. Era só chegar em casa dar algumas lidas na matéria e pronto. O problema foi que ao chegar em casa e pegar meu caderninho de anotações, a única coisa que havia nele era Jesus em seu conversível.Resolvi então ler a bíblia, afinal aquele livro poderia me ensinar algo. Infelizmente adormeci em 5 minutos.
Através das fofocas rotineiras que sempre correm em cidadezinhas de interior, minha mãe ficou sabendo da prova. Não tinha como fugir do teste. Teria de fazê-lo mesmo sem saber nada.
Naquela noite, uma sensação de culpa e tormenta tomou conta de mim. Se reprovasse no curso de catequismo minha vida estaria acabada. Minha mãe me mataria, o vídeo game seria tirado de mim, seria obrigado a ir à igreja todos os dias, teria de passar outro ano sofrendo todos os sábados, sem contar que não teria o diploma para entrar no céu.
Quando rumava para o salão paroquial, encontrei a mesma colega que me avisara sobre a prova e através dela soube que o maldito teste seria realizado na Igreja. “Mas que diabos”. “O que deu nessa gente para realizar a prova na droga da igreja?!”.
Ao chegar no local de prova, notei que todos os alunos portavam bíblias. Procurei mais do que depressa aquela menina que sempre me mantinha informado. “Por que todo esse pessoal está com bíblias?”. Ela então respondeu com um sorriso gracioso. “Seria impossível fazer essa prova sem uma bíblia”. “Ótimo! Onde diabos vou encontrar uma bíblia”. “Eu te empresto a minha, estudei muito para essa prova”. “Ótimo!” Havia encontrado uma salvadora. Até hoje tenho a impressão de que aquela menina gostava de mim. “Marquei os versículos mais importantes para você”. Fiquei meio constrangido com tamanha generosidade, mas estava desesperado.
Eu só tinha uma pergunta. “O que era um versículo?”. Depois de raciocinar um pouco resolvi devolver a bíblia. Não me seria muito útil mesmo. Já tinha em mente que a prova seria um desastre.
Estava um pouco nervoso quando a prova começou. Dei uma olhada nas questões. Todas discursivas. Primeira questão: “onde Jesus nasceu?” “Ótimo!” Essa eu sabia. Pelos cabelos loiros, lisos, olhos verdes, alta estatura. Jesus era europeu. Provavelmente deveria ter nascido nos Alpes suíços ou em alguma vila do sul da Alemanha. Bom, o melhor seria generalizar. “Jesus era Europeu”. A primeira questão tinha sido fácil. Segunda questão: “Quem era o pai de Jesus?”. Beleza! Aquela eu também sabia. “O pai de Jesus era o anjo que visitou Maria”. Até onde eu sabia, quando alguém visita uma mulher e logo em seguida ela fica grávida, não tem erro. Mesmo assim, achei melhor generalizar. Nessas questões de paternidade sei que mãe é certeza, pai é pressuposto. “O pai de Jesus era Deus”.
Se havia uma coisa que eu tinha aprendido nas poucas aulas de catequese que tive é que: Deus é o pai de todo mundo. Até aquela altura tinha ido muito bem. Já estava até mais animado. Terceira questão: “Por que os judeus saíram do Egito”. Nessa questão não tive muita certeza. O melhor a ser feito seria novamente generalizar. “Os judeus saíram do Egito porque essa era a vontade de Deus.” As outras 47 questões também foram generalizadas: “ Era a vontade de Deus”. Não sabia bem o por quê, mas pairava uma sensação de que quem corrigisse aquela prova não teria compaixão o suficiente para me aprovar. Àquela altura, já imaginava as mais diversas maneiras de ser castigado por meus pais.
Olhei para a prova da menina da frente. Notei que sua letra era imensa. Seu “A” tinha o tamanho de uma maçã. Não! Não podia colar. Estava na igreja. Provavelmente deveria alguma regra celestial para isso. Mas eu não tinha escolha. Acomodei-me de tal forma que o teste da menina da frente ficasse de forma nítida.
Colei, admito que colei. Cada frase, cada parágrafo, cada erro ortográfico, enfim, tudo. No lugar da culpa, havia agora uma imensa satisfação.
Alguns dias depois recebi o resultado da prova. Um belo e maravilhoso 8,5. Foi ótimo ver a cara da coordenadora e da minha professorinha ao ver minha nota. Fui aprovado. Era óbvio que eu havia trapaceado, mas ninguém podia provar.
Alguns dias depois tive minha formatura. Uma festa brega onde todos estavam de branco. A igreja estava completamente lotada. Ao receber meu certificado de estada eterna no paraíso me senti um pouco incomodado, mas nada que eu não pudesse superar, afinal, “foda-se! Já tinha obtido meu ticket celestial mesmo.”

1809

Há algum tempo venho me deparando com conselhos, avisos e ordens de que devo sair de casa. Devo sair pelos mais diversos motivos. Devo sair para me divertir. Devo sair para respirar. Devo sair para fazer novos amigos. Devo sair para tocar a vida em diante e esquecer o passado. Eu não acredito que ainda esteja pronto para sair. As pessoas saem de casa para curar a tristeza. Não preciso sair de casa. Suporto minha tristeza confortavelmente. Gosto que a mesma me faça companhia. Essa tristeza me dá o tipo de declínio social que preciso. Aquela ocasional sensação de culpa de ver a vida passando e ficar deitado olhando para o teto não tem mais a mínima importância.“Você está desperdiçando sua vida”, gritam vozes relapsas e seguras de si - quer saber, prefiro ficar deitado na cama conversando com minha ausência -.“Você tem potencial”.Alertam indagações otimistas – quer saber, em outra vida eu poderia ter sido o que não tenho, mas conservando aquela habitual rebeldia, que outrora ostentava com orgulho, prefiro voltar-me as minhas críticas.Não posso ser tão bom assim. Alguns obstáculos deixam cicatrizes. Não posso concorrer com isso. Posso ser somente o que sobrou em mim. Nunca fui de procurar ajuda em ombros amigos para tentar me consolar. Prefiro guardar tudo pra mim, assim como minhas mentiras.Tantas vezes escutei que a vida é complicada. Particularmente acredito que não. Isso depende de cada um. Eu, por exemplo, gosto da minha vida bem ao estilo Nietzsche de ser. Gosto de ter a vida relacionada a um poeta voltado para a imperfeição.Indiferente aos apelos da modernidade, faço de minha vida ações claras de desperdício.Pratico a vida voltada, apaixonadamente, para o fracasso e o erro.De alguma maneira acabarei apagado de fotos, cadernos de recordação, lembranças habituais e cartões de final de ano.Eu me apago sozinho e faço disso algo que possa exibir triunfante.Em algum ponto da vida devo ter me perdido. Provavelmente alimentei em excesso sensações que minha voz, claramente, não agüentariam. Reclamei o dobro do que devia. Abandonei o barco antes do esperado.Agora sobrevoam perguntas de como seriam as possíveis vidas que terminei antes mesmo de começar. E me atormentam todas as oportunidades que tive de ser diferente.E quando estou diante do espelho não sei dizer o que queria dizer, não sei o que dizer.E no final, fica a certeza de terminar, irremediavelmente, isolado

Abandonando vícios.

Desabituar. Esta é a palavra. Eu deveria me desabituar do meu atual estilo de vida.
Cansei de tentar procurar as melhores palavras para manter o diálogo vivo. Quem procura as melhores palavras para dizer ainda não está certo. Acredito agora que deva procurar o melhor silêncio. Um silêncio que não silencia. Um silêncio de lado, sem importância. Cansei de tentar ser gentil. Cansei de tentar agradar.
Voltarei esforços e concentração ao meu silêncio. A falta de palavras será meu idioma. A outra parte que continue o diálogo.
Durante muito tempo não apreciei a arrogância dos clássicos, preferi a conversa alta das massas. Mostrei-me interessado e disposto a me juntar a eles.
Descobri o quão patético era me esforçar para equilibrar os olhos durante uma conversa que, nitidamente, não me interessava nenhum pouco. Abandonei então o ato de "rir" no lugar da fala. Minha risada demonstrava intimidade e que, teoricamente, estava ouvindo.
Perdi as contas de quantas vezes olhei para o céu durante uma conversa. E o céu parecia tão pesado que pairava a impressão que cairia sobre nós. Talvez viesse ajudar a me livrar daquele diálogo indesejável.
Toda aquela falação me deixava envergonhado, não a vergonha do arrependimento, mas a vergonha da insuficiência. A insuficiência em não ter coragem de dizer educadamente: "olha, me desculpa, nada pessoal, mas essa conversa persiste em curar minha insônia".
Não me interessa mais ser inteiro para estar presente. Chega de sorrisos, gestos, feições de interesse ou qualquer outro tipo de fingimento. A ausência me deixa mais inteiro, mais à vontade. Posso ser então, o egoísmo em pessoal.
O meu esforço em não deixar acontecer àquele silêncio constrangedor ficou para trás.
De agora em diante prefiro conversar com minha ausência.

Nada pessoal.

Normalmente as pessoas queimam sentimentos ruins. Eu tenho queimado escritos e vestígios biográficos. Em ambos, a necessidade de ser igualmente o que meus textos não são capazes de nomear e o que meu personagem não consegue, de fato, alcançar.
As narrativas do cotidiano tornaram-se cada vez mais ficcionais e não chegam nem perto do lastro luminoso da realidade.
Sou demasiado mediano. E minha autocrítica subiu alto demais e influenciou diretamente meus atos.
São as falhas que tornam o ruído da culpa interior quase insuportáveis.
Sou fatalista. Exagerado. Dramático. Não bastava descer à rua, tive de descer ao inferno. O mundo ainda não era o mundo da linguagem.
Faço da vida meu testamento, a base do ócio e da ausência.
Talvez por isso eu escreva.
Prefiro escrever a ir para uma balada de psy-trance. - O psy-trance cura depressão, gosto da minha - .
Escrever é algo particular. Não gosto do que precisa ser dividido. Escrever tem uma carga de sofrimento e renúncia, de crise de consciência e de personalidade. Chega a ser um atentado à facilidade.
Acredito que cada escritor faz da escrita seu problema, e desse problema, o objeto de uma decisão que em alguns casos pode mudar.
As expressões e a criatividade originam-se do estilo lidar com seus conflitos. O pensamento se firma na impossibilidade de pensar.
A aceitação da insuficiência é também parte do que me motiva a escrever.
Formular perguntas intermináveis para exercitar a coerência e enrijecer as dúvidas são, necessariamente, ingredientes essenciais.
Toda dificuldade externa resplandece e recompensa o esforço interior de investigação, que por via obliqua, dá origem aos pensamentos pessimistas.
Cultivar rancores permite não esquecer, lutar contra a totalidade imediata das aparências significa acolher verdadeiramente a linguagem.
A linguagem do egoísmo.

Simples Assim

Eu duvido de toda a liberdade que não seja responsabilidade. Aquele tipo de responsabilidade que nos mantêm sóbrios.
Hoje em dia minha liberdade parece não se importar com os outros.
É muito fácil para mim desistir de amores, amizades, empregos, ideais e outras coisas pálidas que estão sempre em minha mente.
No primeiro empecilho, troco de par, troco de casa, troco de rosto, troco de roupa, troco de ideologia, troco de obsessão.Involuntariamente, meus pensamentos e atitudes prenderam-me a erros do passado e isso faz com que eu tema as conseqüências muito antes do necessário.Dessa maneira, esquecesse-se de viver.
Mergulhado na ausência mórbida de minhas opiniões.Condenado à uma vida de pensamentos pessimistas e desnecessários.
O que devia ser objetivo tornou-se culpa. A pressa elimina o ritmo afetivo de cada um. Lamentavelmente meu ritmo é desvairado.
Não existe arrebatamento sem idealização, mesmo que o sofrimento venha com o pacote. Cair ao menos me cura da vertigem. E o meu declínio social torna-se cada vez mais interessante. E ainda que demore, esse declínio durará mais do que minhas mentiras.
Exijo silêncio de minhas mentiras. Um silêncio que é cumplicidade e empatia. Uma identificação de uma memória cinza - simples assim.-
Refaço meu passado com o refinamento de uma tragédia. Desalojo a verdade das aparências que tenho sobre o todo. Em minha tentativa poética de me explicar, procuro ser singular, procuro ser cuidadoso e alentado para que não haja desperdício. Chega de cicatrizes.
No íntimo de minhas expressões não existe propriamente o passado, o presente ou o futuro, mas aparições, fulgurâncias de uma compreensão simultânea dos tempos. Não há tempo que me fortaleça sem que antes tenha me derrubado.
São tormentos para a moldura da voz com adjetivos bem colocados.São paradoxos necessários.E por fim, os versos que se perfazem em paralelismos tediosos.
Não são simples recordações, são poemas, são promessas de alguém que entendeu como a solidão funciona para viver no mais absoluto silêncio. Alguém que sonhou para contar, que viveu para não morrer a esmo.
Ao meu desespero, sugiro então, "o consolo de algumas noites em claro". – simples assim -

Meu silêncio

Dia após dia me pergunto se ainda represento a capacidade viva e única de conseguir lapidar meus caminhos e de universalizar minha linguagem. Tento alcançar um patamar popular, sem perder a exigência e as dificuldades de um clássico. Mesmo sendo uma tarefa impossível ainda me questiono se seria capaz de ver o mundo com os mesmos olhos de quem tem entusiasmo para ser feliz.
A partir de temáticas despretensiosas, tentei dar uma narrativa à minha história.Mesmo correndo risco de ser apenas um dado histórico na biografia de uma pessoa qualquer. E sempre fica aquela impressão de que minha imagem tornar-se-ia vaga e apagada com o passar do tempo.
Infelizmente, minhas expectativas exageradas da vida fizeram com que eu detestasse qualquer tipo de relação que chegasse perto disso. Minha complexidade afetiva jamais permitiria traduzir meus pensamentos.
Tentar entender no que acreditava ou deixava de acreditar tornou-se um tormento diário. A ponto de ser comovente meu esforço de racionalizar e converter figuras de linguagem em situações fatalistas do meu cotidiano.
Sempre me questionaram o porquê dessas atitudes. Às vezes, não perguntar é curar, logo, não acredito que desabafar com alguém possa me ajudar. Talvez nada do que eu sinta ou rascunhe possa ser resumido, explicado ou esclarecido. Acho que tudo isso não passa de sentimentos desarrumados e confusos. E diante da falta de resposta já se pressupõe uma traição ou uma ofensa de quem possivelmente possa estar interessado em solucionar meus tormentos.
Meu silêncio torna-se aliado discreto e despretensioso. O silêncio é prova de lealdade. A quietude da segurança. Que não fala nada, que não julga, que não duvida."Não dê ouvidos à tristeza" - foi o que sempre me aconselharam, mas ela vem curando cicatrizes - e sou grato por isso -. Desaparecer e não chamar atenção para si é um modo dela estar presente em minhas insólitas madrugadas. Ao acordar, ela nunca me perguntou nada, nada que eu não conseguisse responder, nada que eu não achasse interessante, nada que eu não pudesse conceder alguns instantes de minha atenção. Minha tristeza traz aquela paz de quem conversou a noite toda sobre os mais variados problemas.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Lá fora.

É sempre fácil lembrar de algum amor não correspondido. Todos temos. Em algum momento da vida nos deparamos com situações que nos fazem perder o chão. Mesmo aquela pessoa que você considera uma Deusa ou Deus já passou por ocasiões onde se sentiram rebaixados.
Quando se é gordinho, ou usa-se óculos, ou aparelho, ou ainda quando simplesmente a auto-estima nos trai e nos consideramos feios, tudo piora. Sentar-se em alguma cadeira de forma estratégica onde se possa ver e observar a pessoa desejada é essencial. Perguntas do tipo “será que ele(a) repara em mim” são sempre freqüentes. “Uma oportunidade”. Uma oportunidade é o que muitos anseiam. Oportunidade para mostrar ao mundo que você é uma pessoa legal e ter então a expectativa que “aquela pessoa o note”. No entanto, sabe-se no fundo, que aquilo no máximo não passará de amizade. Para muitos isso já basta. O simples fato de ser amigo da pessoa que lhe encanta já o suficiente para a amenizar a súplica de atenção.
Guardar é diferente de esconder. Esse é o outro time. O time dos que passam o ano somente observando. Escolhe-se somente admirar. Passa-se a fantasiar situações holywoodianas em que a pessoa tropeça na escada e você estará lá para salvá-la. Espera-se que chova e que no auge da tempestade vocês fiquem presos no prédio da escola sozinhos. Eu particularmente sempre fui fã da situação em que você a salva de caras “maus”.
Várias dessas histórias poderiam ser resumidas simplesmente como a narração do que se passa no estômago. Muita gente da ênfase ao coração. Mas aquele frio no estômago que fica quando pessoa senta-se perto para fazer prova é único.
Lembro de uma vez na oitava série. Último dia de aula. Era o dia de me declarar. Iria dizer tudo a ela. Iria dizer que era louco por ela. Iria desabafar todo e qualquer sentimento. Iria dizer como me sentia de verdade. Ela teria que me ouvir.
Àquela Foi uma manhã particularmente ruim. Há meses vinha planejando. Decorei falas. Encenei todas as situações possíveis. Não poderia perder àquela oportunidade. Ela iria embora para outra cidade eu também. Lembro de acordar pálido. Cheguei a até mesmo a pensar em inventar uma dor de estômago para não ter que ir pra aula e fugir do que havia planejado há semanas e mais semanas. Justo no dia, tudo parecia conspirar contra. O cabelo decidira me trair, simplesmente não ficava no lugar. Os dentes pareciam mais tortos do que o habitual. Uma simpática espinha bem na ponta do nariz reluzia sorridente. Olheiras provocadas por noites e mais noites de insônia davam a impressão de estar morto há alguns dias. Definitivamente, não era meu dia.
A primeira aula do dia teve tom de despedida. Alguns até se emocionaram. Mas eu não tinha chão pra isso. Minhas pernas tremiam feito britadeira. Minhas mãos tentavam em vão se aquecer. O barulho da sala parecia ecoar nos meus ouvidos.
No intervalo tudo piorou. A vi despedindo-se de alguns alunos de séries inferiores. Decidi então antecipar minha declaração. Fechei os punhos. Respirei fundo. Caminhei ferozmente em sua direção. Senti um orgulho peculiar de mim mesmo. Eu não acreditava no que estava fazendo. Seria ali, na frente de todos. Declarar-me-ia aos quatro ventos. Nada poderia me parar agora. Nada nesse mundo seria capaz de me segurar. Nada a não ser o fato de eu ter me ajoelhado em frente a uma lixeira achando que iria vomitar de tanto nervosismo. No final do intervalo, demorei a me recompor. Fiquei mais alguns minutos abraçado à lixeira, até que consegui forças o suficiente para retornar a sala.
Ironicamente ela parecia mais linda que o habitual. O sol parecia reluzir sobre seus cabelos propositalmente. E a ânsia de vômito no intervalo fizera com que eu ficasse roxo.
As duas últimas aulas se arrastaram.
O sino então tocou. Todos se despendido. Alguns chorando. Outros fazendo promessas de amizade eterna. Alguns até vieram se despedir de mim e notaram que era evidente minha falta de atenção. Aquela era hora. Não tinha tempo pra ficar perdendo com os demais. Discretamente, retirei do bolso uma cola que eu havia feito. Deu uma última revisada. Não podia esquecer nenhum tópico.
Respirei fundo. E fiquei parado. Sentado na cadeira.
Pessoa por pessoa, todos aos poucos foram saindo. Continuei sentado. Até que todos saíram. Inclusive ela. Continuei sentando.
20 minutos depois já não havia mais ninguém na escola. Toda aquela barulheira havia cessado. Eu continuava sentado. Retirei o bilhete do bolso e o olhei pela última vez.
O silêncio era descomunal. Olhei para as paredes, para o teto. Olhei para o ventilador. Procurava alguém ou algo para poder me explicar. Resolvi então levantar. Ao sair da sala dei uma última olhada ao meu redor. Ao passar pela lixeira que outrora estava atracado, livrei-me do bilhete. E só restou a sensação de que permanecer em silêncio daquele dia em diante seria o melhor.

vide legenda.

Lembro-me sempre de atitudes que nunca tomei. Atitudes que provavelmente mudariam o curso de uma vida. “Pensar menos, agir mais”. Deveria dar mais atenção a isso. No entanto, meu pessimismo grita do outro lado que nem toda a linguagem pode falar tudo. Que nem toda a expressão pode salvar o momento.
Nem todo o tempo que tive para tomar alguma atitude e mudar o curso de minha linha de pensamento foi suficiente.O que não se entende a tempo ainda é tempo.
Melhor mesmo seria ignorar minhas idéias e juntar-me aos outros. Seria mais fácil deixar para trás os tormentos e cair na folia do carnaval. Deixar o samba correr pelas veias. Deixar a badalação tomar conta do meu personagem. Deixar os agitos das festas de final de semana anestesiarem os meus rancores.
Quando se guia por linhas tão negativas, passa-se a duvidar dos próprios argumentos.Não há mais certeza sobre a própria voz. Não há mais certeza sobre o futuro. E se não há futuro, não se faz necessário posturas que vislumbrem o bem estar do amanhã.
O meu negativismo passou a ser algo bem maior do que a realidade permitiu. Os sonhos tornaram-se opacos.
Deveria ter rezado de joelhos. Creio que ter rezado em pé na infância não fora suficiente para garantir um futuro agradável. Agora acredito que seja tarde de mais.
Aos poucos, acostuma-se com a idéia de morrer preso nesse lugar. Sem nem ao menos ter vivido 1 milésimo das aventuras que anuncia a novelinha teen das 6.
Não vejo mais necessidade em sustentar supostas amizades. Não vejo necessidade em procurar algum relacionamento. Não vejo necessidade de ajudar ninguém. Não vejo necessidade em interagir. Prefiro ficar calado. Calado, ao menos, mantenho a postura da arrogância.
De agora em diante façamos assim: Permita-me terminar o que nem começou para que minha falta de assunto não mate suas expectativas.

Medos e Fugas

Antigamente tinha medo de me conhecer e esquecer quem era. Esquecer de minhas ideologias, de minhas vinganças, de meus rancores e minhas mágoas.
Tinha medo de esquecer o que vivi, medo de esquecer o tombos que levei.
Medo de inventar desculpas para me ver livre do medo.
Mas quando você desisti de lutar e passa a assistir tudo de um camarote, percebe que nunca vai esquecer de nada disso. A alma guarda o que o coração deixa de lembrar por alguns instantes.
As pessoas amadurecem quando superam os seus próprios pontos de vista. Eu superei, mas fui egoísta.Emprestei minhas manias ao meu espírito, emprestei minhas virtudes e defeitos ao meu personagem. Aconteceu quando abri outra vertente que não partiu do molde inerte de minha experiência.
O fluxo de minha consciência rememora eternamente as possibilidades de uma outra vida que não assumi. É minha "quase" biografia. Que falaria de um sujeito feito de obsessões irresolutas, coragem atrasada e culpa retrospectiva.
Dessas tentativas de descrição, só cheguei a uma conclusão. Perdi meu tempo com toda essa bobagem. - Mas isso já não faz mais diferença a essa altura do campeonato (prefiro acreditar que não mais) -.
Quanto mais tento explicar de modo minucioso e simultâneo, mais asfixiante e cinza é a visão do conjunto. O realismo integral dá curiosamente à minha vida a idéia de alucinação.
Fica sempre aquela impressão do que deveria ter acontecido e o que realmente aconteceu. Para a memória, as escolhas nunca foram feitas, elas ainda permanecem abertas. Dessa impressão fica a certeza que minha biografia é uma grande fuga. O sofrimento então vem em dobro, pois o medo domina de todas as formas a consciência de meus atos.
Passo a ser expectador da vida, onde meus fracassos são intensificados por vir de uma personalidade precavida, exemplo: O primeiro lugar no vestibular de Medicina que nunca veio - Sendo este, sonho de infância.
. É o medo que favorece minhas construções prismáticas, fazendo com que a obra da minha história avance à medida que se voltam as páginas. Obra que na verdade, acontece recuando.

Tentativa de poesia.

Eu me desculpo pelas mentiras que contei, pelos amores que inventei, pelas paixões que não amei.
Desculpo-me pelas festas que não fui, pelas festas que fui e não dancei.
Desculpo-me por ficar no canto ciscando a latinha de refrigerante, em pé, encostado na parede ou sentado fingindo estar me divertindo.
Desculpo-me por minha ânsia de fazer todos viverem a minha vida e não vivê-la eu mesmo.
Desculpo-me pelas palavras que poderia não ter dito, pela distância que sobra na cama, por esnobar teus amigos e desfigurar teus santos.
Desculpo-me pelos problemas que criei para enfrentar os meus tormentos.
Desculpo-me por não superar meus demônios. Eu me desculpo para fazer de novo.
Desculpo-me por te procurar e não ter nada a dizer, por deixar a tristeza esfriar todos os meus sentimentos.
Desculpo-me por não saber dosar a medida certa de açúcar no café e nem por saber expressar o carinho e o afeto que ela merecia.
Desculpo-me por tentar cavar minha própria cova enquanto construía o muro que me separa do mundo.
No mais, meus devaneios desculpam-se em meu lugar.

Mentiras

Minhas atitudes dissimulam mesmo quando procuro ser o mais transparente possível. Sou oblíquo ainda que eu tente seguir uma linha reta.
Falo demais o que não é necessário, falo de menos o que interessa. Faço de conta que tenho uma neurose particular. Uma perseguição pessoal de meus traumas passados.
Cada um amadurece conforme a intensidade de suas descobertas. Cada infância será uma velhice diferente. Procuro até hoje onde, provavelmente, teria errado.
Procuro lembranças e paira a sensação de serem vagas como minha própria personalidade.
Minha impessoalidade é tão superficial como o inferno. - Meu inferno -
Admito aqui que me separo só para se aproximar de outro jeito. Para provocar, para atrair a atenção, para pedir o retorno.
Fazer as malas é a última tentativa. Fazer as malas é preservar as lembranças. Que mais tarde tornam-se rancores.
Procuro acreditar que o amor é natural de onde morreu.
O amor é imprevisível. Não tem lógica. Mas só consigo amar organizadamente - erro trivial - .
O amor torna a presença imaginada ou torna a ausência real. O amor cria sua própria necessidade.
O amor não é uma obrigação, é uma opção. Procuro não banalizá-lo como muitos fazem por aí.
Menos da metade de meus sentimentos serve para entender, o resto é para sugerir e confundir. Caso contrário, não perderia tanto tempo procurando sinônimos para tal.
A gente, na verdade, fala para não dizer o que pensa. Entre a fala e o pensar, tem-se tempo suficiente para inventar uma mentira.
A minha mentira é sobreviver dia após dia.

Covardias à parte.

Todos os meus complexos residem no fato do meu culto à minha covardia diária.
Covardia por não ter dito “não”, covardia por ter fugido quando deveria ter me levantado, covardia por não enfrentar fatos passados como mortos.
Recuperar o tempo perdido e a ausência é primordial dentre meus inúmeros horrores
Minhas viagens ao passado não deveriam girar em torno do que esqueci de pôr na mala, mas sim do que foi vivido e aproveitado – pensamento banal encontrado em qualquer livro barato de auto-ajuda, ou conselhos vagos de supostos interessados.
Quando crescemos, deixamos mágoas para trás, eu preferi cultivá-las.
Sacrifiquei amizades por uma palavra a mais, um amor por uma palavra a menos,
uma leitura pela falta de insistência. Deveria ser preso por atravessar
uma praça ensolarada e não sentar e apreciar.Atravessar a vida como um talk-show de muito mau gosto.
Complicado equacionar essas questões, principalmente quando evitamos relações sérias.
No início, o amor é perdulário. Gasta o que não viu. Ambos dedicam-se a seduzir como um disciplinado marceneiro. Tudo é plaino e límpido. Rosa de madeira e pétalas líquidas.
Enamoradas, as pessoas contam tudo, abrem suas histórias, memórias, acidentes, virtudes e proezas com uma franqueza incomparável. Depois de algum tempo ficam ríspidas, rigorosas, rígidas dia após dia. A generosidade seminal se transmuda em indigência. As questões se reduzem à rotina e ao que precisam comer no jantar. O sorriso é esgar, contração facial involuntária, de quem não se mantém atento e está em coma. Adentra-se no terreno da audição seletiva, do fingimento. "Eu finjo te escutar e tu finges falar; tu finges escutar, eu finjo falar".
Minha dispersão é amor avulso. Isso me incomoda a ponto de não conseguir dormir
. A casa dorme em paz. Minha paz é barulhenta, frágil, decadente, “covarde”. Em suma, fica a certeza de que as feriadas não se curam, apenas se esquecem de doer e as alegrias que não se completam, simplesmente, mudam de vento.

Tangentes pessoais.

Nunca fui desses apaixonados obsessivos. Acho que nunca combinou comigo. Sou capaz de ficar uma noite inteira repetindo e inventado amores, como se fosse algo inusitado e novo.
Sempre duvidei mais do que acreditei e isso me impede de seguir em frente. Finjo duvidar para ouvir outra vez, mesmo sabendo que isso não me faz nada bem.
Em meus monólogos sem edição sempre encontrei um motivo para falar de quem está amando mesmo sem motivo. Nunca entendi porque prefiro terminar relações que nem ao menos começaram, talvez por medo de arriscar, talvez pelo péssimo hábito de querer sempre recomeçar.
Pessoas apaixonadas não procuram sentido para a vida, pois é nítido que basta não ter sentido para vivê-la. Em conseqüência disso optei por manter minhas mentiras, a fim de melhorar minhas verdades.
Tentar ter agradado, a qualquer custo, minhas paixonites de infância foi sem sombra de dúvida um grande causador de transtornos e rancores que guardo com extremo zelo. Pude inclusive negar minha personalidade para tentar me convencer que eu não sairia vivo de minhas tangentes emocionais, buscando assim, sempre desculpas inconseqüentes e um terrível vício de infantilização de minha linguagem.
Passei então a dar ouvidos a minha constante ansiedade..
Fiquei mudo, embrulhado, adivinhando o que havia dentro de mim pelo barulho solto de alguma peça, de alguma lembrança, de algum rancor.
Meus amores não eram simples. Atração à primeira vista, comigo feio, não havia como acontecer. Eu tinha a missão de acabar com a primeira impressão. Destruir os contatos iniciais. Precisava de tempo para mostrar que a inteligência podia ser mais agradável do que a beleza.
Lá no fundo gosto da badalação, sair com amigos, conversar, mas há um limite. O limite é minha tristeza incurável, uma tristeza de rosto que pode ser confundida com cansaço ou antipatia.
É o que chamo de ressaca de fatos passados.
E ainda que isto me incomode, recuso amputar essa retração, que me despoja do orgulho e me violenta com restrições, que me agride e exige pudor, que me devassa e reivindica timidez, que me censura e me impele de reescrever a vida.

Sossego

Faço amizade comigo todas as noites para ter com quem conversar e não tornar assim minha presença tão desagradável. Ainda me perguntando, incansavelmente, se queria ter mordido teus lábios ou tua voz. Procuro não guardar as cartas de amor que nunca escrevi - e sei que deveria tê-las escrito – prefiro me deixar consumir por meu egoísmo.
Sempre me disseram que mentiras, quando escritas algumas vezes, tornam-se verdades, pois bem, cá estou escrevendo sobre desassossegos amorosos, afim de que, tais tornem-se verdades, mesmo que por uma noite mal dormida.
Metade do que vivo é imaginação. A outra metade é conseqüência dela. Logo, vê-se o quão desnaturados são os lances de mau gosto dessa vida – diga-se de passagens - sobrevoa a impressão de que esses lances são meus - .
Em alguns momentos da vida, fizeram com que eu acreditasse que éramos milagres habituados. – Besteira -. Pois as fotografias são fiéis ao que ficou fora delas e com relação a isto não há argumentos contrários. E assim como quem tem letra ilegível, passei a complicar todo o resto. Por conseqüência acredito que minhas feições envelheceram por unidade e somente esse insólito par de olhos me acompanha. Tornando-me tão desprezível que nem eu mesmo seria meu próprio discípulo.
Quando pequeno era obrigado ir à igreja, onde o padre – exímio curador de minha insônia habitual – fazia seu comício, mas felizmente, ou não, o domingo era o único dia da semana em que não queria nenhum tipo de salvação. Talvez por arrogância infundada, talvez por pura e simples preguiça.
De lá pra cá costumo repetir o que não aconteceu, tentando mais uma vez dar algum tipo de sapiência as minhas insinuações, projetos e ambições.
Como efeito nefasto desse todo, acabei ficando sozinho. E quando se está sozinho e não há mais ninguém parar incomodar, arruma-se encrenca com a própria estima, e “touche”, foi o que fiz.
Afogado em pensamentos mundanos e idéias extremamente idiotas, voltei-me para música, e através da mesma aprendi a dar voltas na mesma frase sem mesmo ter que repeti-las.
Ninguém nasce para não perturbar, acredito fielmente nisso, e partindo dessa prerrogativa cheguei à conclusão de que o que não foi vivido totalmente volta.
Aprendi também que ter pensamentos guardados fazia-me mal, mas exteriorizá-los incomodava os demais.
Resolvi que era hora então de um sossego emocional. E desse sossego simples depende dizer o que ainda não pensei. Pensar duas vezes é sofrimento. Até porque o pensamento odeia se repetir. Meu desejo sempre muda algum trecho do pensamento na hora de copiá-lo. O desejo copia errado. Pode parecer bobo, é ridículo mesmo, mas não queria ser astronauta, aviador, médico, advogado, contador, não, nada disso, Bastava pra mim ser o cara normal que senta na cadeira da frente.

Explicações.

A desistência da explicação é o início do poema, explicações as quais nem eu mesmo entendo.
Procuro acordar como se estivesse ido embora.
Estar ansioso e inseguro é encostar-se para dormir e ficar ainda mais acordado.
Com todas essas bobagens acredito que toda separação é um laço. Todo divórcio é um vínculo
Fingi que escutava, que estava presente, que me interessava pela minha história.
Escrevo não por excesso de memória, pela fartura de vivência e aventura, e sim pela precariedade dela. Anoto compromissos em agendas antigas, atrasado em preencher os dias em que não vivi. Invento lembranças para não parecer tão à toa e de passagem por aqui. Tão a esmo. Tão vadio. Ser processado por “desviver” e povoar um nome sem propósito e ambição. Faço um esforço para me mostrar ocupado, que nenhum emprego me faria suar dessa forma. Nas redações escolares, odiava temas como "conte-me suas férias". Era capaz de plagiar os alegres veraneios da menina ao lado. Minhas mentiras são necessárias pelo simples fato de que não existem recordações para substituí-las.
Não recordo quando parei de acreditar em mim. O dia, a hora, a palavra. Foi no momento em que lembrar virou sinônimo de perda de tempo e passei a me aborrecer ao rever álbuns de fotografias. Confesso a vergonha de minhas imagens.
Sofro o temor de não ser o que me prometi. O cansaço de não ter feito. A fome que se satisfaz ao engolir a saliva. Não recordo se foi algum amor banido o motivo do desânimo. Pode ter sido o amor próprio não correspondido.
Em algum trecho da vida, me flagrei encerrado e consumido. Disse 'basta' e fui precipitado. Se não fosse orgulhoso, voltaria atrás. O orgulho não me permite amadurecer. O orgulho me envelhece. Meus olhos antigos se parecem ilhas desabitadas, longe para o nado. Logo, cheguei à conclusão deque a alegria não é pessoal como a dor, por isso não a consegui prender perto de mim.
Minha biografia não é, nem de longe, um rascunho para um romance, nem mesmo aqueles de carnaval.
Como não consegui vencer meus inimigos, juntei-me a eles para rir de mim. Não levo tudo muito a sério porque não gosto de carregar nada, portanto acho tudo demasiado cinza. Talvez alguma herança dos tempos de ensino fundamental e médio, onde recebia os mais implacáveis apelidos de infância, por conseguinte, aceitava, ria e tocava a respiração adiante.
Alcançar objetivos me dá sono e tenho andado demasiado sonolento.
Ao menos, como desculpa de minhas atitudes deploráveis, venho me reduzindo ao essencial.