E no final, tudo vai ficar cinza. Vou olhar para o quarto de hospital vazio e pensar: “Não valeu à pena”. Agrada-me a idéia de morrer sozinho. Vejo isso nos filmes e nos livros. Tão poético tão visceral. O problema com as pessoas é que acreditam que viverão para sempre. Eu já tenho a certeza de que partir não será algo tão ruim, ao menos, livrar-me-ei do tédio. Morrer, ainda que sozinho, sem visitas em um quarto de hospital pode não ser uma escolha, mas com certeza é melhor que definhar aos poucos em um asilo.
Não quero que seja rápido, nem indolor. Quero ter tempo para pensar, para refletir, para rir dos erros do passado. Quero tempo para lembrar que fiz aniversário nos últimos anos somente para tomar nota do dia em que nasci, sem comemorações, sem festas, sem planos de um futuro melhor, sem amigos, sem amores concretos, sem dinheiro, sem vida.
Quero tempo para pensar que recusei ficar com alguém para disfarçar a espera, esquecendo do egoísmo de prender esse alguém de uma nova chance, de uma outra paixão.
Quero tempo para pensar e acreditar que as pessoas se lembrarão de mim como aquilo que eu poderia ter sido. Quero recordar que sempre fingi estar bem para evitar sessões de terapia informais. Quero lembrar às inúmeras vezes em que usei a desculpa “o problema não é com você, sou eu”, para terminar os relacionamentos que nem começaram.
Quero lembrar que almoçava sozinho, jantava sozinho e me esforçava para manter-me ocupado. Vou lembrar que ligava a Tv para que ela me fizesse companhia. Não que estivesse prestando atenção no que ela dizia, mas as cores e ruídos faziam com que não me sentisse tão ausente. Vou lembrar que não tinha ninguém para comentar as coisas que escrevia. Vou lembrar que conversava em silêncio com a menina da biblioteca na esperança de um dia ter coragem para convidá-la para sair: “Oi, pego livros aqui há 2 anos, não tenho carro, grana, amigos, não sou bom de cama e nem sei dançar. Quer sair para tomar um café?”.
“Era uma luta arrancar aquele misógino do fundo da pensão em que estivesse para que fosse dar uma passeio com alguma daquelas prometidas.Por uma pelo menos ele se interessou - dizem que chegando à paixãoInutilmente, entusiasmou-se por uns oito meses no ano de 1882. Ela, no entanto, casou-se com o poeta Rainer Maria Rilke.Rejeitado e em estado lastimoso, dedicou-se a produzir candentes escritos contra tudo o que era estabelecido e até mesmo o que consideravam não convencional.Paradoxalmente, disse num certo momento, que não queria discípulos. Era sério? Teve-os aos montes. Perdeu a razão de vez em Turim, em janeiro de 1889, quando acharam-no aos prantos em um quarto escuro de uma pensão. Durante os dez anos restantes afundou-se numa densa névoa de pessimismo, tristeza e loucura. Morreu na pequena Weimar, sozinho, no dia 25 de agosto de 1900.”
Todos têm um super-herói. O meu é Nietzsche, morrer como tal não seria ruim.
Não me incomoda o fato de morrer sozinho, incomoda-me o fato de escrever para disfarçar a vida lá fora. Incomoda-me a certeza de que esses escritos serão meu único legado.
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