sexta-feira, 27 de junho de 2008

1809

Há algum tempo venho me deparando com conselhos, avisos e ordens de que devo sair de casa. Devo sair pelos mais diversos motivos. Devo sair para me divertir. Devo sair para respirar. Devo sair para fazer novos amigos. Devo sair para tocar a vida em diante e esquecer o passado. Eu não acredito que ainda esteja pronto para sair. As pessoas saem de casa para curar a tristeza. Não preciso sair de casa. Suporto minha tristeza confortavelmente. Gosto que a mesma me faça companhia. Essa tristeza me dá o tipo de declínio social que preciso. Aquela ocasional sensação de culpa de ver a vida passando e ficar deitado olhando para o teto não tem mais a mínima importância.“Você está desperdiçando sua vida”, gritam vozes relapsas e seguras de si - quer saber, prefiro ficar deitado na cama conversando com minha ausência -.“Você tem potencial”.Alertam indagações otimistas – quer saber, em outra vida eu poderia ter sido o que não tenho, mas conservando aquela habitual rebeldia, que outrora ostentava com orgulho, prefiro voltar-me as minhas críticas.Não posso ser tão bom assim. Alguns obstáculos deixam cicatrizes. Não posso concorrer com isso. Posso ser somente o que sobrou em mim. Nunca fui de procurar ajuda em ombros amigos para tentar me consolar. Prefiro guardar tudo pra mim, assim como minhas mentiras.Tantas vezes escutei que a vida é complicada. Particularmente acredito que não. Isso depende de cada um. Eu, por exemplo, gosto da minha vida bem ao estilo Nietzsche de ser. Gosto de ter a vida relacionada a um poeta voltado para a imperfeição.Indiferente aos apelos da modernidade, faço de minha vida ações claras de desperdício.Pratico a vida voltada, apaixonadamente, para o fracasso e o erro.De alguma maneira acabarei apagado de fotos, cadernos de recordação, lembranças habituais e cartões de final de ano.Eu me apago sozinho e faço disso algo que possa exibir triunfante.Em algum ponto da vida devo ter me perdido. Provavelmente alimentei em excesso sensações que minha voz, claramente, não agüentariam. Reclamei o dobro do que devia. Abandonei o barco antes do esperado.Agora sobrevoam perguntas de como seriam as possíveis vidas que terminei antes mesmo de começar. E me atormentam todas as oportunidades que tive de ser diferente.E quando estou diante do espelho não sei dizer o que queria dizer, não sei o que dizer.E no final, fica a certeza de terminar, irremediavelmente, isolado

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