quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Hora de voltar.

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Nunca consegui ser o Ranger Vermelho. Desde pequeno sou assombrado por tal personagem. Para ser o Ranger Vermelho era preciso ter coragem, era preciso ter força, ser astuto, era preciso ser líder, era preciso estar vivo. Sempre fui o Ranger Azul, tímido, calado, gordinho, aparelho, óculos, livros debaixo do braço. Não que ser o Ranger Azul fosse de todo ruim, mas é que no final das contas era o Ranger Vermelho que salvava o dia e ficava com a garota. O azul era só mais uma peça do elenco de apoio.

De Ranger azul à estudante de algum curso superior inútil; e o maldito mundo continua em seu lugar. Ainda não sei desaparecer em mim, ainda gaguejo ao tentar dar informações, ainda leio revistas de trás para frente, ainda não sei dançar, ainda continuo sobre o sol do cerrado, ainda procuro desculpas por me ausentar, ainda jogo vídeo-game, ainda vejo bobagens na televisão, ainda uso os mesmos óculos.

A diferença é que estou preparando minha partida. Quero transformar tudo em um grande livro, um livro que não faça barulho, um livro que tente comover ouvindo ao contrário, cheio de incertezas e observações banais. Não tenho intenção de ocupar um lugar cativo na estante dos outros, pois sei que a maioria das pessoas não perde tempo lendo. O tempo é mais útil em baladas, micaretas, shoppings e adjacentes. Poesia é para fracassados sentimentais, poesia é morte onde há possibilidade de vida.

A minha exaltação por essa possibilidade de vida descende de uma fé leiga, meio morta, meio cinza, meio desacreditada. Com a distração de uma conversa fatídica, eu procuro escrever. Escrever para ter com quem conversar, escrever para falar alto, escrever para opinar, escrever para fingir ser verdade, escrever para catalogar os livros pela cor e não pelo assunto, escrever pelo contraditório, escrever pelo o que já não é mais vida, escrever pela coincidência das dúvidas.

Escrever para existir pelas metades.

domingo, 14 de setembro de 2008

Sobre beijos e outras bobagens

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Vamos aos fatos. Noite de quadrilha, vestido a caráter – camisa xadrez, tênis all star, chapéu de cowboy, barba feita de canetinha preta, lenço no pescoço, cinto com fivela do tamanho de uma placa de carro. Oitava série, meados de 1900 e alguma coisa. Treze, doze anos, não sei bem ao certo. Ela não gostava de mim, não da maneira que eu gostava dela, éramos só amigos – o que era muito pior, diga-se de passagem - . Mas meu amor valia por nós dois, eu amava por ela também. Durante todo o ano guardei o sentimento sufocado.
Escrevia cartas, poemas, poesias, bilhetinhos e sempre faltava coragem para dizer a verdade. Naquela noite festiva tomei coragem, devidamente trajado, inundado de uma coragem nunca vista antes. Tinha resolvido que naquela noite daria o primeiro beijo da minha vida e seria perfeito, como nos filmes e livros.

Chamei-a para um canto e lhe disse que tinha uma coisa super importante para dizer. “Que foi, fala logo, tou ocupada”, “É que, eu....queria, é....hããããã....tipo....” - Minha mente dizia aos berros dentro da minha cabeça “ Seu estúpido, idiota, animalzinho desgraçado....Cala boca, pára de falar aos menos uma vez na vida, seja homem, isso não é hora pra romantismo, cala boca e beija logo ela” - . Respirei fundo, fechei os olhos e inclinei o corpo.


O beijo passou reto, batido, sem rumo algum. No momento não entendi o que havia acontecido. Abri os olhos e me dei conta que ela havia desviado o rosto. “cê Ta louco? tu pensa que ta fazendo o que?”. Só depois de três dias consegui soltar a primeira palavra. Naquela noite, meu chapéu de cowboy me impediu de chorar


21 anos, mais um dia desperdiçado em uma sala de aula. Eis que uma moça entra na sala e avisa sobre uma palestra que seria ministrada no auditório central. “ótimo, ao menos lá, as cadeiras são confortáveis, vou aproveitar e tirar um cochilo”. Ao chegar no auditório escolhi o lugar com menos concentração de pessoas, o mais afastado possível dos outros estudantes. Quando já estava confortavelmente esticado em uma das cadeiras, um grupo de 5 ou 6 meninas sentou ao meu lado. Elas falavam alto, riam de tudo, levantavam a todo o momento, eram escandalosas e se portavam feito macacos. 30 segundos daquilo foi o suficiente para eu começasse a desejar a morte de qualquer uma delas.


Para piorar o dia, uma delas puxou conversa comigo. Ela dizia coisas desconexas, falava rápido demais, sorria demais, cuspia no meu olho, fazia comentários desagradáveis e insistia em dizer coisas que obviamente não me interessavam. Em meus pensamentos, pedia a Deus para morrer, tudo bem se fosse uma morte lenta e dolorosa, só queria que ele me tirasse daquela situação. Com 5 minutos de conversa, eu já sabia toda a sua vida acadêmica, amorosa, do seu ex-namorado Gilberto, de como suas férias na disney foram divertidas e de como do alto dos seus 14 anos ela já era totalmente “madura”. Eu só sustentava um sorriso amarelo de canto de banco e dizia “ãh-ram”.


Então a mais brilhante das idéias me ocorreu. Tirei do bolso da mochila um cigarro e um isqueiro. “você não pode fumar aqui, tem ar-condicionado”, “é, eu sei”. Traguei profundamente o cigarro e despejei a fumaça toda nela. Sei que foi maldade, mas funcionou. Ela quase que instantaneamente mudou de lugar. Ela e seu grupinho.Depois disso fiquei rindo sozinho. Era uma menina bem bonita, mas não tenho mais ânimo para essas coisas. Estou aposentado de toda essa besteira. O cigarro é como minha barba mal feita, serve para meu rosto não aparecer tanto e para interromper esse vício, primeiro teria que curar minha amargura. Após meu “quase-primeiro-beijo”, disse a mim mesmo que depois daquele episódio seria uma pessoa melhor. Péssima profecia: hoje sou muito, muito pior.

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Não quero me explicar, de agora em diante, o cigarro me abrevia

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sobre o Sol.

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“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco”.

Gabriel Garcia Márquez – Memória de minhas Putas Tristes

Mais estranho é ter que falar sozinho para mencionar o clima. Mais estranho é ter a respiração como resposta sobre relacionamentos. Mais estranho é não ter com quem acordar. Mais estranho e ver a alma morrer e não se importar. Mais estranho é não ter mais os olhos para interrogar. Mais estranho é achar que alguém se importa.

Não sei mais convencer o que ficou pelo caminho, começo a achar que é puro exagero. Tão estranho quanto escrever uma carta para quem nunca existiu.

Durante o dia percebo que passo mais tempo olhando do que falando. No início achei que fosse falta de assunto, desinteresse, absoluta distração imaginativa. Reparei que passo a maior parte do tempo em uma lentidão lastimável, sem a mínima vontade de trocar uma única palavra com a pessoa ao lado. Sinto-me mudo, ando devagar, olhar vago e baixo, entusiasmo de quem já está perdendo o jogo aos 3 minutos do primeiro tempo. Barba por fazer e um terrível cheiro de cigarro que exala pelos poros.

Descobri que o silêncio fica mais interessante depois que não há mais ninguém para fazer calar. É um silêncio adulto, um silêncio que antecipa o que os outros têm a dizer. É um silêncio com consciência intuitiva, planejado, preciso e nem os mais ternos sorrisos terão tempo de enfraquecê-lo.


É o silêncio já cansado da arrogância das palavras..