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Nunca consegui ser o Ranger Vermelho. Desde pequeno sou assombrado por tal personagem. Para ser o Ranger Vermelho era preciso ter coragem, era preciso ter força, ser astuto, era preciso ser líder, era preciso estar vivo. Sempre fui o Ranger Azul, tímido, calado, gordinho, aparelho, óculos, livros debaixo do braço. Não que ser o Ranger Azul fosse de todo ruim, mas é que no final das contas era o Ranger Vermelho que salvava o dia e ficava com a garota. O azul era só mais uma peça do elenco de apoio.
De Ranger azul à estudante de algum curso superior inútil; e o maldito mundo continua em seu lugar. Ainda não sei desaparecer em mim, ainda gaguejo ao tentar dar informações, ainda leio revistas de trás para frente, ainda não sei dançar, ainda continuo sobre o sol do cerrado, ainda procuro desculpas por me ausentar, ainda jogo vídeo-game, ainda vejo bobagens na televisão, ainda uso os mesmos óculos.
A diferença é que estou preparando minha partida. Quero transformar tudo em um grande livro, um livro que não faça barulho, um livro que tente comover ouvindo ao contrário, cheio de incertezas e observações banais. Não tenho intenção de ocupar um lugar cativo na estante dos outros, pois sei que a maioria das pessoas não perde tempo lendo. O tempo é mais útil em baladas, micaretas, shoppings e adjacentes. Poesia é para fracassados sentimentais, poesia é morte onde há possibilidade de vida.
A minha exaltação por essa possibilidade de vida descende de uma fé leiga, meio morta, meio cinza, meio desacreditada. Com a distração de uma conversa fatídica, eu procuro escrever. Escrever para ter com quem conversar, escrever para falar alto, escrever para opinar, escrever para fingir ser verdade, escrever para catalogar os livros pela cor e não pelo assunto, escrever pelo contraditório, escrever pelo o que já não é mais vida, escrever pela coincidência das dúvidas.
Escrever para existir pelas metades.