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“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza.
Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco”.
Gabriel Garcia Márquez – Memória de minhas Putas Tristes
Mais estranho é ter que falar sozinho para mencionar o clima. Mais estranho é ter a respiração como resposta sobre relacionamentos. Mais estranho é não ter com quem acordar. Mais estranho e ver a alma morrer e não se importar. Mais estranho é não ter mais os olhos para interrogar. Mais estranho é achar que alguém se importa.
Não sei mais convencer o que ficou pelo caminho, começo a achar que é puro exagero. Tão estranho quanto escrever uma carta para quem nunca existiu.
Durante o dia percebo que passo mais tempo olhando do que falando. No início achei que fosse falta de assunto, desinteresse, absoluta distração imaginativa. Reparei que passo a maior parte do tempo em uma lentidão lastimável, sem a mínima vontade de trocar uma única palavra com a pessoa ao lado. Sinto-me mudo, ando devagar, olhar vago e baixo, entusiasmo de quem já está perdendo o jogo aos 3 minutos do primeiro tempo. Barba por fazer e um terrível cheiro de cigarro que exala pelos poros.
Descobri que o silêncio fica mais interessante depois que não há mais ninguém para fazer calar. É um silêncio adulto, um silêncio que antecipa o que os outros têm a dizer. É um silêncio com consciência intuitiva, planejado, preciso e nem os mais ternos sorrisos terão tempo de enfraquecê-lo.
É o silêncio já cansado da arrogância das palavras..
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