sexta-feira, 27 de junho de 2008

O melhor da festa.

“Quantos graus?”, “6,75”. “Isso é ruim?”, “Sim, as coisas não estão nada bem para você”. “Existe tratamento, algo que eu possa fazer para reverter?”, “Não”. “Cirurgia?”, “Não, seus níveis de cura estão baixíssimos, sua córnea não cicatrizaria. Onde conseguiu esse corte no queixo?”, “Fazendo a barba”, “Está aí há quanto tempo?”, “Duas ou três semanas”, “Já deveria ter cicatrizado”, “É, eu sei. Alguma possibilidade de transplante?”, “Não no seu caso”. “Quanto tempo tenho até ficar no escuro?”, “10 anos talvez”, “Por mim tudo bem, é tempo suficiente. Têm um cigarro aí?”, “Você não pode fumar aqui”, “Eu sei, eu não fumo, só achei que o momento pediria um”. “Pode ficar à vontade se quiser chorar”, “Eu não choro, isso nunca resolveu nada, nem vai resolver”, “Nós temos acompanhamento psicológico aqui, posso te indicar um profissional da área”, “Não obrigado, não preciso de ajuda. Terapia é para pessoas fracas. No meu caso, os problemas são fictícios, posso suportar sozinho, só preciso de vodka”, “Beber não vai ajudar”. “É, eu sei, mas vai tornar tudo bem mais interessante”.
Meu espírito já não pesa mais. Minha linguagem já disse tudo que deveria ser dito. Com a igualdade do início, retomo o ar e finjo que nada aconteceu. Esqueço as aflições e me junto ao tédio, olho para o céu e já não procuro Deus. Mesmo que os milagres atrasem, mesmo que a salvação ainda esteja por vim, mesmo que o fim não seja um recomeço.
Já não tenho mais certeza da minha própria voz, não tenho mais certeza de quem sou, à qual lugar pertenço ou com quem deveria ter ficado. Paira sempre a impressão daquela vida não vivida, das oportunidades perdidas, dos beijos não dados, dos amores que mandei embora. Quando a palavra não depende mais dos atos, sobra somente a respiração, respiração que identifica minha presença, que não me deixa dormir, que não me deixa partir, respiração que é metade amor, metade ausência.
Os sentimentos sempre foram maiores do que a realidade permitiu e isso só me faz lembrar que nunca soube como começar o assunto. Desesperado depois do primeiro “oi”, a única alternativa era recolher as palavras antes que as mesmas denunciassem meu mal-estar. Pontual, definitivo, fatalista, cinza, desassossegado, inquieto, todos adjetivos de uma personalidade já sem muita graça. O que não vivia era mais meu, o que era descartado agora me interessa, o que foi desespero agora é passa-tempo, o que já não tem cor é bem vindo ao espetáculo, o que é triste tem seu valor e se estiver no fim, melhor ainda.
A angústia concentrou a respiração. De agora em diante, basta somente fingir que está tudo bem. “Sorria e acene”. Depois de um tempo a voz transforma a mentira em verdade convencida. “Sorria e acene”. Não importa o quão destruído esteja por dentro, “Sorria e acene”. Deixe que tua moldura fale por ti, ninguém vai se importar com a complexidade da obra. Da solidão das cadeiras e com o timbre de quem já desistiu, meu espírito deixou de pesar. Falar não é mais necessário, com a igualdade do início, “deixo a vida como deixo o tédio.”. Sorria e acene.
Sem retorno e sem ambição, o momento pede somente um cigarro.

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