É de conhecimento geral que você tem problemas com relacionamentos, mas por que não tentar? Muitos dizem que o amor surge da convivência. O que pensa sobre isso?
Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que sou um expectador. Gosto de ter em mente que todo relacionamento não é original. Dificilmente encontra-se algo de inovador neles. É sempre o mesmo arroz com feijão previsível. São sempre as mesmas frases e ações clichês. São raros os relacionamentos que serviriam de tema para um bom livro ou um roteiro de filme cult interessante. A grande maioria das relações cai em comodismo após algum tempo. De início vem a necessidade de exibir o novo troféu. Depois vem o sexo. Tudo muito novo, tudo muito divertido, mas até isso vai enjoando. Descobri-se uma curiosidade de experimentar novos ares e logo em seguida surgem as primeiras traições, ou pelo menos, insinuações das mesmas. Toda essa encenação amorosa faz com que eu tenha cada vez mais a certeza de que todo relacionamento é, na verdade, contraditório.
Então não há nada de bom em envolver-se?
Há sim. É aquela velha história, “Platônico enquanto durar, eterno enquanto eu te amar”. Enquanto um dos dois estiver se divertindo com o momento, não aconselho terminar nada. Principalmente se o convívio tem um tempo razoável de duração. Depois do término do relacionamento vem a fase da fossa. Ouvi-se música brega, as lágrimas correm sem permissão, procura-se sentido para a vida, enfim, tudo muito óbvio, mas o que mais me chama atenção nisso é a saudade dos defeitos. Com o passar do tempo nota-se que os adjetivos negativos são na verdade marcas pessoais. No começo as imperfeições são obstáculos, porém quando se termina “tudo” nos damos conta que sentimos uma falta imensa até mesmo das distorções que outrora incomodavam. E acredito que isso de alguma forma seja válido, porque é indício de que a convivência em algum momento foi verdadeira.
E como fazer para domar a solidão?
Hahaha. Isso é bem complicado, mas acho que recorrer aos resquícios da vida a dois pode de alguma forma aliviar a dor momentânea. Sempre sobra alguma coisa do relacionamento, mesmo que sejam só lembranças, mesmo que seja um relacionamento inventado, mesmo que seja um relacionamento à distância, mesmo que seja tudo imaginário. E é de lembranças que se engana o isolamento. Dentre os meus amores inventados, uma delas adorava café, eu, no entanto, nunca fui fã dessa bebida, mas no desespero em ter algo que aliviasse o desespero, andava sempre pelos corredores da faculdade com um copo cheio de café. Não que eu fosse tomar aquilo, mas o simples fato de sentir o cheiro amenizava a distância. Em outra ocasião, comprei um frasco do perfume que ela mais gostava, não para usar no dia a dia, mas para usar o perfume no travesseiro. Deixar o cheiro dela no travesseiro era de alguma forma, acreditar que ela estaria presente.
Você sabe que as garotas não estão nem aí pra esse lance de sentimentalismo. Por que simplesmente não encena o papel do cara normal?
Acho muito cômodo seguir os padrões que vejo por aí. Em tempos de festas rave, não há, de fato, espaço para pessoas como eu. Outro dia tentei desmistificar a gravidade das minhas opiniões para uma menina no msn, no final, além da sensação de tempo perdido ficou explícita sua vontade de dizer “enquanto você filosofa, as pessoas transam ”. Não posso competir com esses fatos. Primeiro por que ela está certa e segundo, é mais fácil “fazer como todo mundo faz”. Sei que tudo que acredito não vale de nada. Sei que as crônicas nunca trarão as mesmas satisfações que um beijo de carnaval. Sei que o cheiro do café não vai suprir o buraco da alma. Sei que o travesseiro aromatizado não é ela, mas gosto de pensar que o tempo está a meu favor. Gosto de pensar que o mundo gira na velocidade que bem entendo.
Pretende continuar errando?
Claro! Fazer as coisas de maneira deturpada é minha maneira de terminá-las. Se não for trágico, não tem graça. Se não for triste, nem me interessa. Se não for platônico, não trato com veemência. Sei que só posso preservar aquilo que perdi.
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