quinta-feira, 26 de junho de 2008

Lá fora.

É sempre fácil lembrar de algum amor não correspondido. Todos temos. Em algum momento da vida nos deparamos com situações que nos fazem perder o chão. Mesmo aquela pessoa que você considera uma Deusa ou Deus já passou por ocasiões onde se sentiram rebaixados.
Quando se é gordinho, ou usa-se óculos, ou aparelho, ou ainda quando simplesmente a auto-estima nos trai e nos consideramos feios, tudo piora. Sentar-se em alguma cadeira de forma estratégica onde se possa ver e observar a pessoa desejada é essencial. Perguntas do tipo “será que ele(a) repara em mim” são sempre freqüentes. “Uma oportunidade”. Uma oportunidade é o que muitos anseiam. Oportunidade para mostrar ao mundo que você é uma pessoa legal e ter então a expectativa que “aquela pessoa o note”. No entanto, sabe-se no fundo, que aquilo no máximo não passará de amizade. Para muitos isso já basta. O simples fato de ser amigo da pessoa que lhe encanta já o suficiente para a amenizar a súplica de atenção.
Guardar é diferente de esconder. Esse é o outro time. O time dos que passam o ano somente observando. Escolhe-se somente admirar. Passa-se a fantasiar situações holywoodianas em que a pessoa tropeça na escada e você estará lá para salvá-la. Espera-se que chova e que no auge da tempestade vocês fiquem presos no prédio da escola sozinhos. Eu particularmente sempre fui fã da situação em que você a salva de caras “maus”.
Várias dessas histórias poderiam ser resumidas simplesmente como a narração do que se passa no estômago. Muita gente da ênfase ao coração. Mas aquele frio no estômago que fica quando pessoa senta-se perto para fazer prova é único.
Lembro de uma vez na oitava série. Último dia de aula. Era o dia de me declarar. Iria dizer tudo a ela. Iria dizer que era louco por ela. Iria desabafar todo e qualquer sentimento. Iria dizer como me sentia de verdade. Ela teria que me ouvir.
Àquela Foi uma manhã particularmente ruim. Há meses vinha planejando. Decorei falas. Encenei todas as situações possíveis. Não poderia perder àquela oportunidade. Ela iria embora para outra cidade eu também. Lembro de acordar pálido. Cheguei a até mesmo a pensar em inventar uma dor de estômago para não ter que ir pra aula e fugir do que havia planejado há semanas e mais semanas. Justo no dia, tudo parecia conspirar contra. O cabelo decidira me trair, simplesmente não ficava no lugar. Os dentes pareciam mais tortos do que o habitual. Uma simpática espinha bem na ponta do nariz reluzia sorridente. Olheiras provocadas por noites e mais noites de insônia davam a impressão de estar morto há alguns dias. Definitivamente, não era meu dia.
A primeira aula do dia teve tom de despedida. Alguns até se emocionaram. Mas eu não tinha chão pra isso. Minhas pernas tremiam feito britadeira. Minhas mãos tentavam em vão se aquecer. O barulho da sala parecia ecoar nos meus ouvidos.
No intervalo tudo piorou. A vi despedindo-se de alguns alunos de séries inferiores. Decidi então antecipar minha declaração. Fechei os punhos. Respirei fundo. Caminhei ferozmente em sua direção. Senti um orgulho peculiar de mim mesmo. Eu não acreditava no que estava fazendo. Seria ali, na frente de todos. Declarar-me-ia aos quatro ventos. Nada poderia me parar agora. Nada nesse mundo seria capaz de me segurar. Nada a não ser o fato de eu ter me ajoelhado em frente a uma lixeira achando que iria vomitar de tanto nervosismo. No final do intervalo, demorei a me recompor. Fiquei mais alguns minutos abraçado à lixeira, até que consegui forças o suficiente para retornar a sala.
Ironicamente ela parecia mais linda que o habitual. O sol parecia reluzir sobre seus cabelos propositalmente. E a ânsia de vômito no intervalo fizera com que eu ficasse roxo.
As duas últimas aulas se arrastaram.
O sino então tocou. Todos se despendido. Alguns chorando. Outros fazendo promessas de amizade eterna. Alguns até vieram se despedir de mim e notaram que era evidente minha falta de atenção. Aquela era hora. Não tinha tempo pra ficar perdendo com os demais. Discretamente, retirei do bolso uma cola que eu havia feito. Deu uma última revisada. Não podia esquecer nenhum tópico.
Respirei fundo. E fiquei parado. Sentado na cadeira.
Pessoa por pessoa, todos aos poucos foram saindo. Continuei sentado. Até que todos saíram. Inclusive ela. Continuei sentando.
20 minutos depois já não havia mais ninguém na escola. Toda aquela barulheira havia cessado. Eu continuava sentado. Retirei o bilhete do bolso e o olhei pela última vez.
O silêncio era descomunal. Olhei para as paredes, para o teto. Olhei para o ventilador. Procurava alguém ou algo para poder me explicar. Resolvi então levantar. Ao sair da sala dei uma última olhada ao meu redor. Ao passar pela lixeira que outrora estava atracado, livrei-me do bilhete. E só restou a sensação de que permanecer em silêncio daquele dia em diante seria o melhor.

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