sexta-feira, 27 de junho de 2008

Santificado seja.

Eu já tenho meu certificado para entrar no céu. Sim, tenho. O encontrei enquanto revirava algumas coisas velhas. Precisava de algo para ler. Lembrei que havia alguns livros no fundo do armário e para minha surpresa lá estava. Meu certificado de garantia de bem estar celestial. Em outras palavras, um rolo de papel meio empoeirado que me certifica ter feito catequese.
Hoje em dia não sou muito ligado a essas coisas espirituais. Até acredito em Deus. Sim, claro que acredito. Eu no meu canto e ele no dele. É o mesmo que acreditar no velho Noel. Todos sabemos que não é algo físico. Mas ano após ano, natal após natal, ele sempre é lembrado. A diferença é que Deus é lembrado diariamente. Durante muito tempo fui o inimigo número 1 de toda e qualquer religião, mas depois de analisar essa questão por outro ângulo, constatei que religião é algo fundamental em nossas vidas, pois a mesma é quem controla a massa não pensante. Imagine só um mundo sem religião. Seria um caos. As pessoas não são inteligentes o suficiente para viver sem uma. Essas vertentes religiosas servem de rédea para os aglomerados humanos desse planeta viverem em ordem.
Lembro-me que quando fiz catequese era um garoto religioso. De família tradicional católica e morador de cidadezinha do interior, ou seja, seria um escândalo para a família e para a sociedade da época quebrar um rito sagrado como a catequese.
Quando soube que teria aulas de catequese fiquei extremamente frustrado. Primeiro, porque àquilo duraria 1 ano. Segundo, teria que me deslocar até o outro lado da cidade todo sábado á tarde. Teria que largar o futebol e o vídeo game em prol de uma estadia eterna no paraíso.
O primeiro dia de aula parecia bem mais estranho que o “primeiro dia de aula” em uma escola convencional. As aulas de catequismo eram ministradas no salão paroquial da cidade. Era um espaço grande que possuía um formato oval. Á frente, um pequeno palco para apresentações, várias cadeiras de ferro dobradas ficavam escoradas nos cantos. O teto era bastante alto e o lugar ostentava várias janelas. No meio de uma quantidade considerável de alunos, eu, obviamente. era o mais perdido. Reconheci alguns colegas de escola e como de costume os cumprimentei com um sorriso amarelo de canto de boca.
Não lembro do nome de nossa professora. Sei que era uma moça agradável e estava no início de uma gravidez. Como de habitual, tivemos àquela peculiar e sem criatividade apresentação de começo de curso.
A única coisa exigida para se conseguir o diploma do céu, era trazer de casa um caderno, um lápis e uma borracha. Pois bem, lá estava eu com meu caderninho – que pela qualidade deveria ter custado uns 35 centavos – uma lapiseira e um toco de borracha. Depois de algumas palavras a professora nos disse que a primeira aula seria uma coisa “light”, algo só para descontrair. Nossa primeira e árdua tarefa seria fazer um desenho. Qualquer desenho ligado à religião.Ótimo! Desenhos! Adorava desenhar. Dei uma espiada de lado e vi o garoto do lado esquerdo desenhando um lindo cálice torto com uvas irregulares. Do lado direito, uma garota desenhava um magnífico anjo que mais parecia uma galinha agonizando. Aff! Seria moleza superar aqueles pobres indivíduos sem criatividade. Pedi alguns lápis de cores emprestado e caprichei no desenho.
Ao término do prazo os alunos deveriam ir à frente apresentar e explicar seu desenho. Maravilha! Mostraria para todos meus dotes como desenhista. Chegada minha hora, fui orgulhoso para frente. Diante do salão lotado apresentei minha obra de arte. Era um desenho bem legal, mostrava Jesus em um lindo carro conversível vermelho, com os cabelos ao vento e um par de óculos escuro, que na época, estavam super na moda. OBS: criatividade não é bem vinda na casa de Deus.
No meio da apresentação fui interrompido por nossa agradável professora. A coitada estava meio aflita. Tinha uma expressão de espanto no rosto. Pegou-me pelo braço e me levou até uma outra sala. A sala da coordenadora geral. Também não me lembro de seu nome. Sei que era uma mulher velha, ranzinza, rabugenta e estava sempre com uma cara fechada. A professora mostrou meu desenho para ela e daquele dia em diante descobri que Jesus não gosta de conversíveis vermelhos. Levei uma bronca monstruosa por ter desenhado aquilo. Só não conseguia entender o porque daquilo ser um pecado mortal. Que mal havia em um conversível. Eu era bom em desenhar conversíveis.
No sábado seguinte resolvi não ser mais criativo. Faria só o que me mandassem. Não queria mais arrumar confusão. Aquilo poderia de alguma forma ir parar nos ouvidos de meus pais. Depois de algumas explicações sobre Jesus, Jeová, Moisés, Tutancamon e outros personagens bíblicos, nos foi passado mais um trabalho. Deveríamos escrever uma pequena redação sobre o que pensávamos sobre Jesus. Estava quase terminando meu texto quando notei que nossa professora não parava de olhar para mim. Sempre com um olhar aflito e inquieto, fitava-me de longe. Depois de alguns minutos, a mesma venho em minha direção e pediu educadamente para que eu lesse minha redação em particular para ela. Sem problemas, comecei: “Jesus fora um hippie muito legal”. Mal tinha terminado de pronunciar essa frase e fui agarrado pelo braço e levado novamente à sala da coordenadora. Levei um sermão atordoante.OBS: Sinceridade não é bem vinda na casa de Deus. E tive que prometer que aquela seria minha última brincadeira de mau gosto. Oras, alguém que usa sandálias de dedo, bata, cabelo grande, barba por fazer, nunca trabalhou na vida, morou com os pais até os 30 e tantos anos e era cheio de uma filosofia de vida natureba, só poderia ser hippie. Além do mais, que mal há em ser hippie?
Durante os dois meses seguintes, entrava mudo e saia calado das aulas de catequese. Fazia um esforço tremendo para não soltar nenhum tipo de comentário ou questionar nada. Até que não resisti. Era uma explicação sobre Adão e Eva, paraíso, fruto proibido, serpente e outras bobagens do gênero. “Professora, posso perguntar algo?”. Reconheci então aquele mesmo olhar aflito de alguns meses atrás. “Você está me dizendo que toda a humanidade, eu repito, toda a humanidade, 6 bilhões de pessoas, de raças, credos e origens diferentes foram fruto de 1 único casal?”. Resposta: “sim”. Aquilo realmente me tirou do sério. E como fica genética nisso?
No meio de todo aquele silêncio constrangedor soltei um comentário que mudou os rumos daquele patético curso. “Então a senhora quer me dizer que: um único casal foi incumbido de povoar toda a terra?” – pausa para raciocínio lógico - “Isso daria um ótimo roteiro de filme pornô, não?!”. OBS: Ironia não é bem vinda na casa de Deus. Depois desse episódio não freqüentei mais as aulas. Saia de casa com meu caderninho todo surrado e ao invés de ir para o salão paroquial – lugar onde não era mais bem vindo -, ficava sentado nos bancos de uma praça que ficava ali perto. Por sorte, tinha meu Game Boy como companhia e passava as tardes treinando e evoluindo meus pokemóns.
De sábado em sábado o ano se aproximara do fim. Estava com uma certa sensação de alívio, finalmente me livraria daquele estorvo. Em mais um dia comum de aula, estava conversando com uma colega que também fazia catequese comigo. Ela me dizia que assinava o livro de freqüência para mim e que a professora fazia vista grossa quanto a isso. Ao que tudo indica, ela não tinha a intenção de reprovar ninguém por falta. Só faltava fazer a prova. “Prova! Que prova?”. “Prova de final de ano, tá todo mundo estudando”. Santo Deus! Teria de fazer uma prova?
Essa prova continha 50 questões com conteúdo de todo o ano. OK! Não poderia ser tão difícil assim. Era só chegar em casa dar algumas lidas na matéria e pronto. O problema foi que ao chegar em casa e pegar meu caderninho de anotações, a única coisa que havia nele era Jesus em seu conversível.Resolvi então ler a bíblia, afinal aquele livro poderia me ensinar algo. Infelizmente adormeci em 5 minutos.
Através das fofocas rotineiras que sempre correm em cidadezinhas de interior, minha mãe ficou sabendo da prova. Não tinha como fugir do teste. Teria de fazê-lo mesmo sem saber nada.
Naquela noite, uma sensação de culpa e tormenta tomou conta de mim. Se reprovasse no curso de catequismo minha vida estaria acabada. Minha mãe me mataria, o vídeo game seria tirado de mim, seria obrigado a ir à igreja todos os dias, teria de passar outro ano sofrendo todos os sábados, sem contar que não teria o diploma para entrar no céu.
Quando rumava para o salão paroquial, encontrei a mesma colega que me avisara sobre a prova e através dela soube que o maldito teste seria realizado na Igreja. “Mas que diabos”. “O que deu nessa gente para realizar a prova na droga da igreja?!”.
Ao chegar no local de prova, notei que todos os alunos portavam bíblias. Procurei mais do que depressa aquela menina que sempre me mantinha informado. “Por que todo esse pessoal está com bíblias?”. Ela então respondeu com um sorriso gracioso. “Seria impossível fazer essa prova sem uma bíblia”. “Ótimo! Onde diabos vou encontrar uma bíblia”. “Eu te empresto a minha, estudei muito para essa prova”. “Ótimo!” Havia encontrado uma salvadora. Até hoje tenho a impressão de que aquela menina gostava de mim. “Marquei os versículos mais importantes para você”. Fiquei meio constrangido com tamanha generosidade, mas estava desesperado.
Eu só tinha uma pergunta. “O que era um versículo?”. Depois de raciocinar um pouco resolvi devolver a bíblia. Não me seria muito útil mesmo. Já tinha em mente que a prova seria um desastre.
Estava um pouco nervoso quando a prova começou. Dei uma olhada nas questões. Todas discursivas. Primeira questão: “onde Jesus nasceu?” “Ótimo!” Essa eu sabia. Pelos cabelos loiros, lisos, olhos verdes, alta estatura. Jesus era europeu. Provavelmente deveria ter nascido nos Alpes suíços ou em alguma vila do sul da Alemanha. Bom, o melhor seria generalizar. “Jesus era Europeu”. A primeira questão tinha sido fácil. Segunda questão: “Quem era o pai de Jesus?”. Beleza! Aquela eu também sabia. “O pai de Jesus era o anjo que visitou Maria”. Até onde eu sabia, quando alguém visita uma mulher e logo em seguida ela fica grávida, não tem erro. Mesmo assim, achei melhor generalizar. Nessas questões de paternidade sei que mãe é certeza, pai é pressuposto. “O pai de Jesus era Deus”.
Se havia uma coisa que eu tinha aprendido nas poucas aulas de catequese que tive é que: Deus é o pai de todo mundo. Até aquela altura tinha ido muito bem. Já estava até mais animado. Terceira questão: “Por que os judeus saíram do Egito”. Nessa questão não tive muita certeza. O melhor a ser feito seria novamente generalizar. “Os judeus saíram do Egito porque essa era a vontade de Deus.” As outras 47 questões também foram generalizadas: “ Era a vontade de Deus”. Não sabia bem o por quê, mas pairava uma sensação de que quem corrigisse aquela prova não teria compaixão o suficiente para me aprovar. Àquela altura, já imaginava as mais diversas maneiras de ser castigado por meus pais.
Olhei para a prova da menina da frente. Notei que sua letra era imensa. Seu “A” tinha o tamanho de uma maçã. Não! Não podia colar. Estava na igreja. Provavelmente deveria alguma regra celestial para isso. Mas eu não tinha escolha. Acomodei-me de tal forma que o teste da menina da frente ficasse de forma nítida.
Colei, admito que colei. Cada frase, cada parágrafo, cada erro ortográfico, enfim, tudo. No lugar da culpa, havia agora uma imensa satisfação.
Alguns dias depois recebi o resultado da prova. Um belo e maravilhoso 8,5. Foi ótimo ver a cara da coordenadora e da minha professorinha ao ver minha nota. Fui aprovado. Era óbvio que eu havia trapaceado, mas ninguém podia provar.
Alguns dias depois tive minha formatura. Uma festa brega onde todos estavam de branco. A igreja estava completamente lotada. Ao receber meu certificado de estada eterna no paraíso me senti um pouco incomodado, mas nada que eu não pudesse superar, afinal, “foda-se! Já tinha obtido meu ticket celestial mesmo.”

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