Dezembro de 2006. Naquela manhã eu estava livre. Sem culpa, sem medo, sem responsabilidades, sem toque de recolher, sem preocupações, sem remorsos. Acordei, olhei para o teto e com os olhos ainda inchados deixei escapar um longo sorriso. Naquela manhã a casa estava silenciosa. Não havia ninguém, todos estavam viajando, teria o mês todo para mim. Havia somente eu e minha imagem no espelho. Naquela manhã a vida corria solta. Férias do trabalho, férias da faculdade. Mesmo com o sol reinando absoluto lá fora, era um dia bonito, bonito como um dia nublado. Naquela manhã, optei por passar o resto do dia de pijama. Era a manhã mais doce de minha vida.
Abril de 2008. Pergunto-me se o azul realmente precisaria estar no céu. As coisas que outrora acreditava, agora são tão bobas que chego a rir de quão ingênuo era. Abdiquei do “final feliz” como quem se despede da vida. Em que canto da memória me perdi? Em que momento deveria ter ido embora? Em que instante minha ausência superou a fala? Quanto custa ser especial para alguém? Quando é que sabemos que estamos mortos? Perguntas que não se calam, respostas que não tem mais importância.
Não há como definir o motivo para desistir dos planos. Simplesmente desvanece, simplesmente morre. As escolhas que fiz não prestam mais, só há a certeza de que errei, certeza equivocada, certeza que não mente, certeza que dilacera alma, certeza de não poder voltar atrás, certeza de estar morto em vida.
Terminarei no maldito álbum de retratos. A convivência consolidou o tédio. Sem planos, sem perspectiva, sem narrativa, sem vontade para brincar de existir. Vou refazendo o passado com uma inusitada imperfeição patológica e não me interessa o futuro. Onde errei? Por que errei? Por quanto tempo errei? Não vou apelar para remédios, quero encarar meus demônios de frente. Sóbrio como quem recebe a notícia que fracassou em tudo, lúcido como quem deixou o amor morrer, presente como quem foi embora antes do final.
Agora sou minha própria distração. Personagem criado para servir de figuração, coadjuvante da minha própria história, ator que não tem fala, scripit sem final feliz, um livro que ninguém nunca lê. Juro, juro que tentei existir. Juro que tentei fazer as coisas do modo certo, juro que tentei seguir os padrões, juro que tentei espetar o cabelo com gel, agir como burro e ir para o carnaval. Juro que tentei. No entanto, minha ladainha anti-social falou mais alto.
Exilado, apartado da sociedade, sozinho, jogado na cama e olhando para o teto. Imbuído de pensamentos negativista, afastado do mundo lá fora, excluído dos grupinhos. Por mim tudo bem. Só acho graça de quem tenta ajudar. Há uma necessidade cultural de puxar conversa com quem está calado. Como se falar fosse uma obrigação, como se desabafar fosse ajudar, como se interagir fosse me tirar do abismo. Tenho cruzado com tantos psicólogos de corredor, tantos psicanalistas de Msn, tantos terapeutas de final de semana. Para que aprendam, os pensamentos começam a falar somente quando paramos para ouvi-los e para isso, faz-se necessário SILÊNCIO.
Meu desespero é fictício para quem o vê de fora, meu caráter é altamente dramático para quem assiste de longe, minhas atitudes são cênicas para quem acha que me conhece. Por favor! Entendam, achar que se conhece alguém é na verdade desconhecê-lo por inteiro.
O azul não precisa estar no céu, aquela manhã de dezembro não precisa voltar, o coração não precisa parar de bater, a existência não precisa parar de fluir, o mundo não precisa nos ouvir, só exijo silêncio. Silêncio e um mínimo de alfabetização.
Estar deprimido não é de todo ruim, a depressão é somente um entusiasmo para quem pensa demais. Simples assim.
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