Depois da festa vem a ilusão. Esse devaneio bobo em achar que poderíamos mudar algo. Depois da festa vem a hostilidade de palavras não ditas. Vem a lembrança pálida do rosto perdido na multidão. Depois da festa, nota-se que o gosto do trident chegou ao fim. Percebe-se que o Halls já sumira. Depois da festa fica o martírio pelo fato de não ter oferecido os lábios no lugar bala. Depois da festa, a culpa de nossa ausência pessoal fala alto. Alto a ponto de desconsertar a confiança que havia no início. Depois da festa não há pressa em fugir. Há tempo suficiente para relembrar dos detalhes. Há tempo para sentir o cheiro de cigarro na roupa. Há tempo para desfrutar das dores nos pés. Há tempo para rolar durante horas na cama imaginando onde teríamos errado.
Minha timidez. As palavras indecisas. O olhar sem muito brilho. A carteira vazia. O gosto amargo do som alto e da música ruim. Sensações nítidas de que deveria ter ido embora muito antes. No entanto, a curiosidade e a esperança me obrigam a ficar. Mesmo tendo a certeza de que terei de apagar as luzes quando perceber que todos foram embora.
As distrações giram sem muito sentido. O nó na garganta não me deixa falar muita coisa. O casal se atracando esbarra em mim. O cara dançando totalmente bêbado me empurra acidentalmente. O trio de meninas risonhas derruba minha água. Uma delas tenta, em vão, virar-se para ver o que aconteceu, as outras não a deixam. Três contatos. Três situações. Sete vidas. Duas e meia da madrugada. Mesmo tendo os números para comprovar, nenhum deles nunca soube que eu, de fato, estivera ali. Em um lampejo rápido, a vontade de ir embora.
Talvez a menina que tentou se virar pudesse me ajudar. Ajudar-me a entender o que diabos estava fazendo naquele local. Talvez pudéssemos ficar conversando até o sol reluzir sobre nossas cabeças. Talvez pudéssemos trocar experiências passadas. Quem sabe, pudéssemos nos tornar amigos. Talvez tivéssemos algo em comum. Talvez ela morasse no mesmo bairro que eu. Talvez tivéssemos estudado no mesmo colégio. E se ela também estivesse perdida? E se ela estivesse pensando em ir embora também? “Cadê o cara da água?”. E se ela quisesse que eu a levasse para casa? E se ela percebesse que eu era um cara legal e no final rolasse um beijo? E se ela fosse o amor da minha vida?
Pelos deuses! Precisava encontrar aquela garota. Sair em disparada. Deixar a água pra trás. Empurrar o cara bêbado. Passar pelo casal meloso. Desviar de garçons e seguranças. Espremer-me no meio da multidão. Ignorar os feixes de luz que teimam em fazer com que eu perca o rumo. Passar, sem tapar os ouvidos, pelas imensas caixas de som. Deixar de lado a cerveja jogada para o alto. Ignorar os próprios medos. Sentir, nitidamente, a respiração ofegante. Esquecer por alguns instantes a timidez. Deixar de lado, mesmo que por alguns segundos, a insegurança.
No mais, encontrar a tal garota aos beijos com outro cara. Não qualquer cara. Um daqueles altos. Freqüentadores de academia. Cabelo espetado com gel. Tênis caro. Um daquele tipo que possui carro do ano, cheio de som. O tipo de cara que sabe dançar. Que tem dinheiro pra bancar uma garota. Àquele tipo que acha que Feuerbach é um ator da globo, ou Nietzsche seja o nome de uma vodka. Daquele tipo de cara que interagi com todo mundo. Um cara sem paranóias ou rancores guardados. Aquele típico indivíduo cujo final de semana começa na quarta e só termina no domingo de madruga.
Não posso competir com isso. Que importância tem um texto bem escrito se comparado a um Honda Cívic do ano? Que utilidade há em ter lido “Noites Brancas” de Dostoievski se comparado a um cartão de crédito sem limites? De que adianta ter ouvido Beethoven se o que realmente importa é o psy-trance? De que adiantou meses em um cursinho de português se na balada nada se fala? Que validade há em ler a coluna de André Pettry se o assunto é sempre carnaval? Por que se importar com o cenário político do país se o que realmente importa é dançar funk? Que benefício há em ser o cara romântico se o que elas realmente gostam é dos canalhas?
Melhor seria ter ido embora no início. Bem no início. Pra ser mais exato, 5 minutos antes de perder a chave da moto. 4 minutos antes de ter deixado a garrafa de água cair. 3 minutos antes de ter tomado a decisão de ter ido atrás dela. 2 minutos antes de ter colocado em cheque minhas atitudes. 1 minuto antes de ter pensado em virar escritor.
Em suma, mais um fracasso para adicionar à lista.
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