Falar de amor não é amar. As palavras não significam nada se comparadas com atitudes e gestos. Falar de amor é recorrer à arrogância das palavras, falar de amor tem sempre um tom de confissão, falar de amor é antiquado, é brega, é demonstrar carência. Durante muito tempo falei, não só falei, mas gritei, julguei, defini, ignorei e por fim, optei pelo silêncio.
Os sentimentos estão fora de moda, tudo foi transformado em uma grande festa rave e por vezes me deparo com frases clichês do tipo: “A vida é feita pra ser vivida”, “Aproveite cada momento”, “Don’t worry, Be Happy”, “Seja feliz”. Pro inferno com todas essas citações vagas. Todas tão iguais, tão humanas, tão previsíveis, todas igualmente inúteis.
Minha respiração muda de acordo com a intensidade das pessoas, do sopro ao suspiro, da inspiração à falta de ar. Tenho evitado respirar desde então. Meu silêncio é criminoso. Não falar é agressão, é falta de respeito, é falta de civilidade. Sempre taxativo, superficial e duvidando da vida, desmantelando emoções e inventando aflições, sofrendo por antecipação e sendo o mais desprezível possível. Não importa se alguém vive bem ou mal, desde que viva. E quando digo que já desisti, acho graça daquele habitual ar de reprovação da outra parte.
Meus encontros e despedidas ainda repercutem em minha mente. Mesmo sem enredo, as lembranças insistem em não dormir, finjo não me importar, tento não dizer nada. É tudo mentira convencida, conversa desnecessária, razão que não precisa rimar com nenhuma regra, falsas urgências, realidade concreta de uma vida em paralelo. Falar de amor não é amar.
Sou minha própria descrença, gosto das vaias e do descaso pessoal. Dos acasos do cotidiano fiz minhas escolhas, dessas encolhas, montei meu espetáculo e ninguém comprou ingresso. Minhas palavras controlei pelas hastes, fiz da vida uma poesia sem passado. Tropeçando nas próprias atitudes e afogado nos próprios conceitos, ainda uso a compaixão de forma tangencial. Falar de amor não é amar.
Continuarei falando de amor, assim como continuarei conversando com o espelho para aprender a calar. Minha solidão não é esporte coletivo, solidão essa que não escorre pelos olhos. Por vezes segurei as lágrimas para não deixar escapar uma sua, lágrimas essas que possuem sempre dois terços de despedida. Os amores que não amamos também fazem parte de quem somos. Não sei ao certo se algum dia a encontrarei, mas gostaria que ela soubesse que estará sempre em mim.
Falar de amor não é amar, então eu me calo.
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