sexta-feira, 27 de junho de 2008

Considerações Finais.

De onde tirou a idéia de montar o blog?

O primeiro texto que escrevi foi no dia em que tomei a decisão de parar com as aplicações de insulina. Aquilo foi meio que assinar o próprio testamento, foi como ter certeza de que a lápide estaria pronta muito antes do esperado. Foi a maneira que encontrei de morrer antes do corpo, recosturando o significado das palavras, procurando extravagâncias, sinônimos e acepções que pudessem explicar o porquê de minhas atitudes. Tinha muita coisa a dizer, ninguém para ouvir.

Por que não montou um álbum de fotos? Seria bem mais Cômodo.

Imagens feitas por encomenda, flagrando a ebulição de tipos e personagens, sempre me pareceu uma forma de insulto à inteligência. Meu talento é ampliar e distorcer emoções, emudecer situações, arquitetar aflitos e maltratar pessoas. Gente que recorre a álbuns de fotografia é gente comum, são pessoas prontas de microondas. Fotografia é lugar de moradia, meus textos servem de desistência. A imagem eterniza o momento de forma superficial. As palavras descrevem os sentimentos. Além do mais, não sou fotogênico.
:)

Como tem sido ficar calado?

Meu despojamento está muito próximo do exagero. Aumento a potência metafórica para dizer pouco. Depois de algum tempo calado, pode-se enxergar relações lineares entre objetos e seres díspares. Ultimamente não tenho dito muita coisa e quando o faço, são frases avulsas, sem muita importância. È como ser anônimo para si próprio.

A filosofia tem ajudado?

Tenho vagado entre a filosofia e a poesia. Da filosofia, guardo o alentado poder de interrogar o espanto, expandida à perfeição pelas fagulhas de Nietzsche, os silogismos amargos de Álvares de Azevedo e as palavras de Márcia Tiburi. Minha tendência poética tem-se mostrado sóbria, muito próxima da verdade. Recorrendo sempre a tom de desespero fictício. Minha carga filosófica tem um visível teor caótico. Faço de minhas atitudes poesias, e tenho nessas poesias o ritmo e a captação dos contrários. Depois de algum tempo descobri que o difícil não é encontrar a verdade: a parte complicada é, na verdade, organizá-la e aceitá-la.

Como é viver “cumprindo tabela”?

É, basicamente, viver disfarçando a vida que segue lá fora. É onde acontece o encontro das idéias e a inutilidade dos passos. Fiz do meu epitáfio um cartão de visitas. Entre versos desmemoriados e teorias desnecessárias, descobri que fui capaz de resumir a vida em duas linhas. No estranhamento dos costumes e na capacidade de extrair o deslumbramento da ordem mais corriqueira, optei por desistir.

Considerações finais?
Estou farto de toda essa eternidade.

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