.
Hoje descobri uma cicatriz de infância debaixo do queixo. Estava contando os minutos para poder sair do trabalho. Impaciente, entediado e na esperança de morrer antes disso. Passava insistentemente a mão pela barba, quando me dei conta da cicatriz. Achei graça, lembrei de que o amor deixa marcas.
Foi durante meu primeiro encontro. Tinha planejado tudo. Cabelo lambuzado com gel, milimetricamente penteado, camisa social do meu pai, que obviamente ficou como um balão em mim, sapatos limpos, calça xadrez social, perfume e tudo mais que tinha direito. Estava tão feio que hoje em dia chego a sentir dó. Mas o mais importante era que...havia comprado flores. Sem meio de transporte para ir, a única opção era recorrer a minha velha bicicleta vermelha. – O que; parando para pensar, tornava a cena mais ridícula ainda -
No caminho, olhei para o relógio e me dei conta que talvez não chegaria no horário. De maneira alguma poderia me atrasar para aquilo, pelos Deuses, era meu primeiro encontro. Acelerei o ritmo de forma desesperadora. Descendo feito um louco as ladeiras da cidade, desviando de carros, pedestres, postes; adrenalina total. Tudo corria bem, até que despenquei para dentro de um bueiro aberto pela prefeitura.
O acidente não foi grave, eu diria que foi até cômico se minha bicicleta não tivesse virado um “8”. Alguns arranhões, um corte debaixo do queixo, alguns hematomas, as flores despedaçadas, um rasgo gigante na camisa e um sapato perdido. O fato de estar atrasado me impediu de chorar. Larguei a bicicleta, ou o que restou dela, para trás e saí correndo. No meio do caminho fui cessando a correria. Como ir a um encontro descabelado, sem um sapato, com roupas rasgadas, fedendo a esgoto e com flores decapitadas? Dei meia volta e retornei para casa arrastando a bicicleta, as flores, deixei pelo caminho.
No dia seguinte quando ela me cobrou explicações do “por quê” de não ter aparecido, resolvi dizer que havia desistido de toda aquela besteira de encontro. Ela nunca mais falou comigo
Durante algum tempo procurei em apostilas sobre o amor e não encontrei nada, pois falar de amor é perder tempo, é como exigir do horizonte um ensaio antes de cada amanhecer. Ao falar de amor o único céu que sorri são os olhos. A objetividade do amor é o que menos emociona. Para falar de amor é preciso se aproximar sem pensar, deixar de curvar os ombros, misturar o desespero com a alegria de viver. O amor deixa marcas
Pouca coisa levo comigo, além da cicatriz no queixo, o sorriso dela
"Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico, nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem." – Memória de Minhas Putas Tristes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário