Meu final é premeditado. Um livro velho amarelado, um filme sem muita graça, uma história que ninguém quer ouvir. Não tenho nada para contar. Não tive um câncer para vencer, não viajei o mundo, nunca sofri um grave acidente, não tenho uma história de superação para compartilhar. Sou somente uma paisagem banal, um rosto na multidão, um nome na chamada, um teatro inventado. Minha vida foi tão interessante quanto uma tarde rasa de uma Quarta-feira mofada.
Cansei de ouvir pessoas dizendo que não aproveito a vida. Pois que saibam, o final da vida é o mais importante. Eu transformei meu final em um livro que não escrevi. Conte-me o final de minha vida, eu não me importo. Estou fazendo do meu final meu espetáculo. Meu declínio social não incomoda. O final da vida não altera meu endereço, não altera minha rotina, não me faz acreditar em anjos, não me faz querer ver o sol se pôr. As tardes lentas de domingo continuarão as mesmas. Minhas pernas não se adaptaram ao ritmo dessa vida, portanto, estou de partida.
Durante algum tempo tentei voltar ao passado para tentar criar o que não existiu, mas não fui forte o suficiente. Acumulei minha sobrevivência até onde a voz permitiu, forcei o riso até onde meu desinteresse aceitou. Desisti de procurar no dicionário termos que pudessem definir o que sentia. O final do meu livro não vai alterar a insuficiência de minhas atitudes em vida. Viver não é obrigação, é escolha.
Escrever é não estar tão distante. A diferença entre ser e estar já caracterizava a operação literária do meu final. Minha vida foi dispersa, imersa na evocação do meu tédio. Reconheci meus erros, interpretei minhas mentiras, já posso partir. O meu final se predispõe mais no silêncio do que na vida e transcrever essa vida em verso e prosa, significa rejeitá-la novamente.
Minha voz só terá vez quando se calar. Quero a última página do meu livro em branco, pois somente assim, minhas realidades poderão continuar conversando. E se perguntarem por mim, digam que fui tarde, que fui um cretino. Só não se esqueçam de colocar em minha lápide: “foi poeta, sonhou e amou na vida”
Nenhum comentário:
Postar um comentário