terça-feira, 15 de julho de 2008

Variações de um mesmo eu.


Procurei pelos cantos da casa, pelos cantos do quarto e não havia ninguém. Fui até a rua, olhei para os lados, nada. Olhei em minha velha caixa azul, nos meus escritos, em minha mente, nenhuma pessoa. Só havia o som de minha respiração. Deitei-me na cama e fitei o teto. “Onde diabos foram parar as pessoas?”. Então me lembrei de quem era e de como mandei todas embora.

Revirei apressado as gavetas à procura de meu celular. Precisava ligar para alguém, falar com alguém, dizer que sentia muito, dizer que queria mudar, dizer que não fazia aquilo por mal, dizer que me tornaria uma pessoa melhor. Ao encontrar o aparelho, cheguei a brilhante conclusão de que não servira de nada. “Que tipo de gente não tem nenhum número anotado na agenda do celular?!”. Dei conta que sou esse tipo de gente. Engoli seco o gosto amargo do isolamento. Minha vida começa e termina em uma ausência total.

Priorizei versos brancos, curtos, com variações esparsas. Só consigo acreditar em mim quando estou sozinho, fechado em meu mundo, tentando evitar a vida que segue lá fora. No meio do caminho, perdi o discernimento, demorei a retornar ao mundo real, tornei-me aquilo que todos odeiam. Fiz da minha imaginação memória que não aconteceu. Fui rude, hostil, invasivo. Minha densidade psicológica se expressou na ambientação externa de minhas agressões, nas infantilidades de minhas atitudes, nas lacunas de minha habitual falta de fé.

Minha irritação provém da falta de capacidade que tenho em me relacionar com as pessoas. Consigo somente escutar meu silêncio. Silêncio que é desespero. Falo para não me ouvir. A imobilidade da fala me traz conforto, o silêncio completo não existe, um som não pode ser fracionado até o fim, sempre fica algo dele, assim como sempre fica um pouco de cada pessoa com quem se convivi.

Harmonia é conviver com a verdade, não com as aparências. Ser sincero até nos próprios erros. Eu me fechei para o mundo, vivo no confinamento do tempo, "é que lá fora, dói-me a garganta só de pensar, não existe mais vida". Ainda que pareça insano, meu afastamento é um esforço de recuperação de uma vida não vivida. Nada mais interessa a aquele que perdeu o significado de viver. Só resta esperar e zelar pelo seu fantasma em vida.

O monólogo, a princípio uma saída temporária, assumiu a forma de como vivo. Procurei pelos cantos da casa, pelos cantos do quarto, procurei no íntimo de minhas aflições, procurei em baixo da cama, procurei até os olhos cansarem. Não havia ninguém, somente o timbre seco de minha estupidez. Antes entrar em pânico, respirei fundo e tentei manter a lucidez, pois estar sozinho há tanto tempo, faz com que eu comesse a sentir saudades daquilo que sei que é mentira.

Um comentário:

Anônimo disse...

por mim eu passava horas e horas lendo os seus textos !
coimailinda ♥