sábado, 12 de julho de 2008

Com a igualdade do início.


Minha biografia pedia um protagonista desprezível. Alguém que não valesse um copo d’água, o ar que respira, o chão que pisa, alguém que fosse tão cretino quanto os vilões da novelinha teen das 6. Precisava superar o habitual , falar unicamente com a alma, precisava parar de ser o capacho humano dos outros.

A vontade de me livrar daquela personalidade era tanta que, apesar de todo universo filosófico impregnado em meus pensamentos, juntava-me a eles para rir de mim. Fui durante muito tempo um poema sem título, opaco, coadjuvante, esquecido, transparente. Minha vida dava seqüência somente à biografia de uma Árvore. Meus sentimentos só serviam de gerador de possibilidades semânticas. Escondia todas as minhas referências culturais e poéticas para ser como eles.

Meus diálogos agora possuem um tema desempenhado com particular intensidade e decadência. Minha descrença na vida combina melancolia e a amargura de quem já desistiu há tempos. Por vezes, certas coisas que digo são abstrações poéticas de carga altamente afetiva, que acabam sendo na verdade, paradoxalmente, certo sentimentalismo envergonhado de aproximação e um grito desesperado de quem passou tempo demais sozinho.

É como se a matéria sentimental de minhas palavras estivesse mesmo ali, mas se disfarçasse na construção enigmática de minha covardia.. Em meu coração não há mais sinal de crença na justiça dos homens ou mesmo na de um Deus ausente. Perdi a fé até mesmo em mim. Acredito somente naquilo que inventei.

Algumas vezes, as palavras são distribuídas admiravelmente por esquemas de proporção, como facas que dilaceram a alma aos poucos. Algumas vezes por vontade própria, outras vezes por simples distração. Há ainda uma prática original de tortura falada, como os apelidos. Justapondo-se linearmente com a aparência física e jeito tímido de ser, de modo que não mais se traduz em inocentes brincadeiras, mas em uma ocasional vontade de menosprezar a outra parte. O melhor da infância, foi ter saído dela.

Durante muito tempo, restou-me somente a tradução de fragmentos de uma auto-estima destruída, de modo que a própria idéia de uma criação de outra personalidade fosse impossível. Frequentemente, entre minhas alucinações e as contingências triviais do cotidiano, um lado de mim ensaia as ofensas que direi durante o dia, o outro lado, procura as melhores desculpas para a posterioridade. Há mesmo uma obstinação regressiva em mim, uma obstinação que busca esquecer a identidade do passado, ignorando por completo o cara legal que um dia fui.

O conjunto de minhas decepções, em todo caso, deixa nítida e significativa minha personalidade. E enquanto for conveniente, serei o cretino mais desprezível, desgraçado e detestável desse maldito lugar.

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