Achei que não fosse sobreviver. Quando alguém vai embora leva muito mais que a escova de dente, leva consigo parte do que era alegria disfarçada de cotidiano. Não demoro em voltar, não demoro em sair, não demoro em tentar disfarçar o vazio que ficou. Troco os móveis de lugar, abro a geladeira para pensar, reviro as gavetas, invento distrações, tento dormir vendo TV.
Por piedade, não me deixo viver o que posso, que me seja permitido, o que poderia ter feito e deixei escapar. Quero acreditar que me abandonei por convicção. Faço de conta que vivo em outro mundo para poder me assistir. O isolamento é quando não basta a liberdade para ser livre. Meus olhos ficaram gratos quando ela acenou e pensei que fosse comigo.Quem ficou pra trás sofre mais, por todo canto ouve-se as vozes, sente-se a presença.
Quem foi embora tem a oportunidade de recomeçar, quem foi deixado precisa conviver com as lembranças. As duas visibilidades retraídas não têm o mesmo peso. Não deixa de soar estranho que o quarto pareça maior, que a casa pareça estar mais silenciosa que o habitual, que aquele filme já não tenha mais a mesma graça.
Os dias se arrastam, ficam como brechas em uma estante. São dias cinzas, amargos, irritantes, vagos. Por vezes, desejo ser recordado por aquilo que esqueci. Aquilo que esqueci não cabe não cabe nas palavras, não cabe no que ficou pra trás, não cabe no vazio do quarto. Há tanta coisa que deveria ter dito, tanta coisa que ficou sem explicação. As lembranças ficam como dúvidas que a mente responde e não explica.
Cheguei ao fundo do poço quando me flagrei conversando sozinho com um pote vazio de iogurte de morango. Escrevi em um pedacinho de papel algumas palavras na esperança de que ela voltasse, no entanto, minha letra sempre foi muito feia para dar de presente a alguém. Gostaria que ela tivesse deixado ao menos a escova dente, talvez assim tivesse coragem de estar lá quando ela estivesse partindo.
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