Sábado, janeiro 31. Deitado no sofá, pensativo, imerso em toda aquela solidão e angústia, incapaz de mover um músculo. Seguro de que as paredes me faziam companhia e de que os quadros já não se importavam mais com minha presença. Desejava ter vodka comigo, mas o mais próximo disso que consegui encontrar na geladeira foi iogurte Diet de morango. Desejando que o sol morresse, amargurado, irritadiço, agastado de toda aquela diversão comunal. Imaginando um tempo nublado, um céu plúmbeo. Um olhar perdido, sem foco, desnaturado. Implorando para que ao menos uma vez na vida, cinzas pudessem cair do céu. Antecipando as próprias palavras, queimando vestígios biográficos, calculando quanto tempo mais teria de agüentar o próprio pensamento.
Havia passado horas revirando gavetas na esperança de reencontrar o passado, estava exausto. Na expectativa de desvendar o timbre desgostoso com que levo a vida, optei por ligar a televisão e ficar em silêncio, meu melhor silêncio. Na infantilidade de sentir saudade do que não existiu, deduzi que fosse morte. Ouvindo o som da própria respiração, trocando de canal insistentemente até ver o meu rosto no reflexo mórbido das propagandas.
Do sofá, eu e meu pote de iogurte avistamos, ao que parecia ser, um sinônimo de vida entre o vão das paredes: uma flor já meio murcha em um terrível jarro azul. Jogado de forma lastimável naquele móvel, cheguei à conclusão de que mesmo se meu decrépito espírito optasse por ajudar trocando a água do jarro, no máximo, estaria adiando seu fim trágico em algumas horas. Permaneci imóvel. Meio que de forma egoísta, senti uma profunda inveja da pequena flor, não exatamente da flor, mas de seu estado terminal. Toda aquela visão poética me lembrou que não sou terminal, sou apenas decadente.
Estiquei a mão pegando uma caneta na gaveta mais próxima; anotei no braço um compromisso falso para ter certeza de que ainda estava ali, de que ainda estava vivo. Continuei lá, deitado, gastando o tempo para não ter que preenchê-lo com ninguém. Minha respiração era cortada por suspiros, os olhos permaneciam caídos e uma expressão cadaverística tomava conta de meu semblante. Ajeitei meu cabelo na concha dos ouvidos, concentrei a voz e lembrei então que ainda era fulminado de paixão por ela. Sábado, janeiro 31, meu fracasso social, meu sucesso solitário, a angústia mais solitária da razão.
PS: Por óbvio, que as dores sejam só poesia.
Um comentário:
Profundo. E mais uma vez, eu gostei. ;D
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